Deu errado, mas a gente segue com a mão na massa do ravioli de abóbora

Deu errado, mas a gente segue com a mão na massa do ravioli de abóbora

Fazia quatro meses que eu  não via minha mãe. Só por celular, telefone, vídeo. Tem uma hora que a gente não aguenta. Então, decidimos ir pra Minas e não ir de mãos abanando. Preparei um pão italiano, casca dura, bonito demais. E fiz também um ravioli de abóbora.

Assei a abóbora cabotiã com casca e tudo, raspei o miolo – fica sequinho, perfeito pro recheio. Fiz a massa, misturei, amassei, deixei homogênea, um tempo de geladeira. Temperei a abóbora. Abri folhas e folhas de massa. Estava perfeita, elástica. Me empolguei, deixei a massa mais fina, delicada, montei os raviolis.

E pra levar? Estavam fresquíssimos. Armazenei com semolina e papel manteiga.

Chegamos lá. Nós, de máscara; a massa, desmilinguida; minha mãe, ótima, saudável, falante.

Descartei alguns raviolis que se romperam no caminho. Recuperei muitos. Até aí, encaminhado. A ideia era o molho bechamel. E não é que leite talhou? Nunca tinha acontecido antes. Talhou! Perdi o molho. Sem tempo pra retoque. Ficou talhado e não foi opção. Quer dizer, até foi mas perdeu status de bechamel. Então, servi molho de  manteiga com aroma e  folhinhas de manjericão. Não era o que eu esperava, não era o que eu queria oferecer. Imaginei um prato, saiu um arremedo do prato. Fiquei tão triste. Pelo menos o pão italiano ficou bom.

Mas e depois, os outros pães que venho fazendo? Perdi a mão nas últimas semanas. Os pães têm ficado meio achatados. Meu fermento tá lindo, a receita é a mesma, tinha parado de errar, até dica pra amigos eu passei. E o meu pão vinha se negando a crescer, fazer pestana. Saía gostoso, mas tímido. Padeiros de plantão, não é que acontece de vez em quando? Tenho arriscado outras maneiras, buscado outras fontes. Essa semana vou persistir. Nunca desisto.

E já que estamos expurgando males, conto aqui que fiz um bobó de camarão e ele estava delicioso até dois  minutos antes de servir. Provei e achei que precisava de pimenta. Pronto. Ficou muito ardido. Eu percebi; percebemos. Era só ter parado um ponto antes e dado a pimenta como opção, não como obrigação. Passei uns dias sem dormir, me martirizando por não ter regulado a pimenta.

Aprendo que saber cozinhar é presunção. Tem os desacertos e é sempre golpe duro pra quem quer servir e agradar.

Enquanto isso, sim, preparei alcachofra recheada porque é tempo de alcachofras. Salmão, dia dos pais, arroz, feijão, jiló, panqueca, camarão à provençal, dia de semana corrido, fim de semana lento, um lombo com molho de fígado e vinho (bom, viu? enganei os comensais). Hoje madruguei pra ligar o forno a 250 graus e consegui retomar o pão. Cresceu na geladeira, cresceu no forno, abriu e está crocante. Não perco a fé. A vida na cozinha é diária, criativa, desafiadora, às vezes, cruel.

O fato é que a gente vai levando. E não seriam os desacertos sequenciais a reação a esse momento muito triste da nossa vida fora da cozinha? A gente come, bebe, vê série, filme, trabalha, lê, dorme, acorda e morreram 110 mil pessoas no Brasil, último número enquanto escrevo esse texto.  Alguma coisa muito errada fora de nós, nos espreitando, nos isolando, nos amedrontando. O vírus e mais. O vírus e os discursos e os erros e as escolhas erradas e as falas enganosas. E o moralismo, o fanatismo, o preconceito, as agressões, as intimidações, a cloroquina. Que receita?

A minha, hoje, é o ravioli. Pra fazer e comer fresquinho, sem uma viagem de quilômetros no meio. Entrego a receita com uma inspiração que busco em Julia Child, a mulher que traduziu a cozinha francesa para os americanos: quando der errado, “never, never apologize”.

Por isso, em frente por pimenta no ponto, ravioli saboroso, macio e bem construído, pães inflados e crocantes, encontros à mesa com saúde e sem medo. Que saudade.

Receita de ravioli de abóbora

INGREDIENTES

Massa
500 g de farinha
5 ovos inteiros
uma pitadinha de sal (opcional. Eu não uso)

Recheio
meia abóbora cabotiã cortada em fatias largas, em formato de barco, sem sementes
sal marinho ou sal grosso ralado na hora (uma colher de chá)
sementes de coentro
2 pimentas dedo de moça picadinhas
1 dente de alho
azeite de oliva (mais ou menos uma colher de sopa)
amêndoa tostada e picadinha
queijo parmesão ou grana panado ralado

MODO DE PREPARO

Tempere a abóbora com o sal, as sementes de coentro, a pimenta dedo de moça, o alho e o azeite.

A abóbora é assada com casca e tudo. Leve ao forno a 200 graus por  30 minutos. Deixe dar uma tostadinha. A casca carameliza.

Para fazer o recheio, raspe o miolo da abóbora já assada com uma colher. Amasse bem. Misture amêndoa e queijo e reserve.

Agora é hora de colocar a mão na massa.

Misture bem os ovos à farinha até conseguir uma massa homogênea. Leve à geladeira embrulhada em plástico filme pra um descanso de meia hora.

Em seguida, abra a massa com um rolo ou com um cilindro de massa. Vá trabalhando as folhas até conseguir uma espessura fina e firme.

Para preparar o raviolo, estenda uma folha da massa sobre uma bancada enfarinhada – ou com semolina – e mantenha o restante protegido com um pano úmido, pra massa não ressecar. 

Coloque uma colherada do recheio de abóbora a cada 5 cm da folha de massa. Umedeça com água as laterais da massa. Deite outra folha  sobre a primeira camada, aperte com a lateral das mãos os espaços entre os recheios em direção à borda, para retirar o ar. Certifique-se de que as laterais estão bem grudadinhas, pra não abrir no cozimento.

Corte o ravioli com uma faca ou carretilha no formato quadradinho ou em meia lua.  O que sobrar da massa, reutilize. Repita o processo.

Cozinhe imediatamente o ravioli em água fervente com sal. Sirva com molho de sua preferência. Bechamel é recomendado, desde que não talhe. Manteiga ao perfume de sálvia ou de manjericão deixam o saboroso ravioli de abóbora em destaque. Muito suave.

*Uma dica: além de recheio do ravioli, essa abóbora pode ser acompanhamento pra carne ou petisco também.

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Foto: Sara ScarpaSara Scarpa on unsplah

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

4 comentários em “Deu errado, mas a gente segue com a mão na massa do ravioli de abóbora

  • 20 de agosto de 2020 em 12:51 PM
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    Quanta boniteza….a vida é feita disso: erros e acertos! O importante é seguir tentando, sempre!

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    • 23 de agosto de 2020 em 9:59 AM
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      sim, desistir jamais. obrigada pela leitura e pelo comentário.
      bj

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  • 22 de agosto de 2020 em 7:19 PM
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    Mineiros tem um jeito todo peculiar de contar suas histórias! Meio Adélia Prado, com um tempero caseiro que chama a gente pra cozinha. Saboreei os raviólis de abóbora, o pão italiano e o texto delicioso!

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    • 23 de agosto de 2020 em 10:00 AM
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      nossa, um pingo de Adélia Prado e eu já estaria muito, muito feliz! obrigada pela leitura e pelo comentário.

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