A brevidade é o tempo entre um instante e outro

A brevidade é o tempo entre um instante e outro

Raiva.
Outra raiva.
Melindres.
Súplicas.
Esquecidos.
Beijinhos.
Assopros.
Sonhos.

Ora, mas que sentimentos e gestos são esses que me rondam? Como lidar com essa espiral de emoções e de receitas? Sim, receitas. Essa lista são nomes de iguarias dulcíssimas, descritas no livro O Cozinheiro Imperial. Um tesouro.

A obra traz 1.200 receitas e foi editada originalmente em 1840. Do autor, só sabemos as iniciais do nome R. C. M e que entendia demais da alquimia culinária a serviço da nobreza. Como ensina a contracapa, o livro foi redescoberto em 1995 e atualizado pela professora universitária e cozinheira Vera Sandroni. O que tenho é edição da Nova Cultural, 1996.

Entrei nessas páginas um tanto assustada com as generosas porções dos ingredientes, outro tanto maior encantada com a leveza, o registro livre, prazeroso, com vontade de comer misturado a um irresistível algo poético, versos que arrematam o modo de fazer. Está assim a receita de Raiva:

Misture 1 1/2 kg de farinha de trigo, 500 g de açúcar, 12 gemas e 6 claras, canela para dar sabor de 500 g de manteiga derretida. Quando estiver bem ligada e amassada (não preciso muito trabalho), faça as argolinhas ou bolinhos redondos chamados de raivas.

São raivas, sim, porém, que nos dão gosto,
quando por mãos daneis é seu composto.

Ponha no forno, em fogo baixo, e quando estiverem loiros retire e prove todos.

E assim a de Esquecidos:

Num tigelão, junte 6 gemas, 2 claras e 450 g de açúcar. Bata tudo muito bem até que a massa fique alva e espessa. Acrescente 450 g de farinha de trigo, sem parar de mexer. Retire então pedacinhos da massa, faça bolinhos, forme as argolinhas e passe-as em farinha de trigo para que não grudem. Coloque numa forma untada com manteiga e leve ao forno.

As argolinhas d’amêndoas,
dos grãos as empadinhas,
os gostosos esquecidos
são às tripas maravilhas.

E Melindres:

Bata muito bem 20 gemas, três claras e 450 g de açúcar. Acrescente canela e 450 g de farinha de trigo e continue batendo. Unte com manteiga forminhas de empadas, recheie com a massa preparada e asse no forno.

Esse doce é melindroso,
mão de mulher lhe não bula!
Pode perder a virtude
Fazendo-as pecar na gula.

Nem fui cozinhar. Estou já saciada.

Mentira. Ler o livro me despertou uma saudade de outro quitute que não está aqui no livro e esteve muito na minha vida. Mas sumiu dos cafés da tarde. Uma mordida e ele se espalha, desmancha na boca. E o nome é outra poesia: Brevidade.

Receita de Brevidade

INGREDIENTES
250 g de polvilho doce
200g de açúcar refinado
2 claras
2 gemas

MODO DE PREPARO

Bata as claras em neve com uma pitadinha de sal,  acrescente as gemas e depois o açúcar. Junte o polvilho  peneirado aos poucos. Unte forminhas individuais com manteiga e polvilho.

Coloque pequenas porções da massa em cada forminha. Leve ao forno a 160 graus por meia hora, um pouco mais, até que dêem uma leve douradinha.

Também é possível fazer batendo bem batidinhos os ovos inteiros e acrescentando em seguida açúcar e polvilho. E segue o rito.

Porque no breve de ser feito,
também é breve em ser comido
num café da tarde
pausado de encontros.
A brevidade é o tempo
entre um instante e outro
até o fim.

(esse poeminha é meu)

Dedico esse post à querida mestra do cantar Mônica Thiele Waghabi, que doou essa riqueza de livro pra mim. Muita generosidade e é assim e num futuro café da tarde que vou seguir agradecendo. Com Brevidade, lógico, saído do forno e desmachando na boca.

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Foto: Hamide Jafari on unsplash

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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