A couve-flor gratinada entre dois amores

A couve-flor  gratinada entre dois amores

Tava aqui preparando a clássica couve-flor ao bechamel e me lembrei de um lugar onde ouvi muito falar dessa receita nos idos dos anos 90. Aí não sei se rio ou se choro porque foi dramático. Não a receita, mas a situação.

Tava eu no salão, fazendo pé e mão. A cabeleireira era um amor de criatura. Boazinha mesmo. Tinha acabado de engravidar de um eterno namorado que, enfim, tinha virado noivo. Por causa da gravidez. Era Marcílio pra lá, Marcílio pra cá. Uma paixão, uma admiração que dava gosto de ver e ouvir.

– Ai, porque o Marcílio adora tudo que eu faço. Essa couve-flor é simples, faz rapidinho e é bem cremosinha. Ele adora.

Já tinha me falado da tal receita há tempos e várias vezes. Eu até já conhecia. Afinal, em que casa dos anos 70, 80, não se cozinhava couve-flor, muçarela, molho branco, parmesão… Facinha mesmo e rende até. Vira e mexe, dizia ela,  voltava pra mesa quando o noivo estava em casa.

Calha que frequentava o mesmo salão uma outra moça bonitona, falante, loiríssima, que só fazia o cabelo com a cabeleireira apaixonada. Era fidelíssima e de tanta confiança estética ficaram mesmo amigas. Dizia-se também apaixonada. O namorado, assim como o da amiga, tinha sido recentemente promovido a noivo depois de muito enrolar. Era o Marcelo. Chegou a loira com um fiozinho de raiz escura, ansiosa por retocar as madeixas, fazer luzes e mostrar o álbum de noivado. As duas exibindo alianças brilhantes douradas na mão direita.

– Gente, gente, sabia que noivamos no mesmo fim de semana? Ela no sábado, eu no domingo, depois do culto. O meu álbum também tá aqui. Ai, claro, mostro pra todo mundo, né fofs? Ninguém acreditava que o Marcílio ia levar o namoro a sério. Mas, menina, ele tá babando na barriga. Só fala nisso, traz presentinho e tudo. Como foi sua festa?

– Linda. Um sonho. Romântica. Um fervo!!! Dançamos até tarde.

– A escova ficou ótima, né? Durou bem? Ai, a minha festa também foi linda. O pastor foi pro almoço, menina. Abençoado.

(adivinha se não tinha a couve-flor gratinada no almoço de noivado…)

– Ai, tô doida pra ver seu álbum, mas não mostra ainda. Passa a tinta primeiro, que ele vai em casa hoje à noite, quero estar cheirosíssima, linda e loira. Enquanto tinge, a gente troca figurinhas.

E ficaram lá tagarelando, a cabeleireira pincelando os fios, falando dos sintomas da gravidez, que Marcílio quer um menino, bla, bla, bla. A outra falando que Marcelo quase não fala em ter filho, mas quando fala, diz que  prefere uma menina.

– Que cor você quer passar?, perguntou a manicure pra mim.

Eu tava absorta, claro, nas histórias de amor derramadas ali do meu lado. Feliz pelas duas. Que legal, né? Amor correspondido. Contagiada pelo clima romântico, respondi:

– Vermelho. No pé e na mão. Esse aqui.

O desemprego? Não atrapalhou os planos. Marcelo tá se virando como taxista, à noite, usando o táxi de um amigo, negociando porcentagem. Às vezes trabalha tanto que fica uns dias sem ver a noiva. Não tá fácil pra ninguém e ela entende. O Marcílio também teve que  arrumar um bico de segurança à noite, às vezes, até fim de semana, pra complementar a renda, porque só o salário de vendedor não vai dar pra sustentar uma família. Esforçado, graças a Deus.

E pronto, era hora da troca de álbuns das noivas enamoradas. Meu pé tava quase pronto. A mão já esmaltada. Não consegui despregar o olho das duas abrindo os álbuns ao mesmo tempo. Só imaginei balões dourados no noivado do Marcelo, balões azuis e rosas no noivado do Marcílio, já que era quase um chá de bebê. A cabeleireira não deve nem ter tomado o espumante no brinde, pela saúde do rebento; a cliente, ao contrário, pôde se esbaldar pra celebrar toda felicidade. As alianças em primeiro plano na foto de abertura, o sorriso, a cara de espanto, a bochecha ficando rosa e depois vermelha, o choro incontido da cabeleireira e o grito escandaloso da cliente: Marcílio era Marcelo e Marcelo era Marcílio!

O noivo das duas era um só. A cabeleireira teve que ser amparada e mesmo assim foi se desmanchando agarrada ao álbum da rival, até ficar sentada balançando o corpo pra frente e pra trás incessantemente, chorando pra dentro. Lágrimas vertendo. A cliente saiu correndo, cheia de papel alumínio na cabeça, gritando “desgraçado”, “canalha”, “calhorda”, abrindo a porta do salão e saindo desarvorada com o álbum do outro noivado na mão.

– Spray ou óleo?, perguntou, engolindo seco,  a manicure que tinha acabado de fazer minhas unhas.  

– Spray. Seca mais rápido.

A receita que tanto agradou Marcílio/Marcelo imagino que nunca mais foi servida à mesa da cabeleireira… Mas aqui vai a minha:

Receita de couve-flor gratinada

INGREDIENTES PARA O MOLHO BECHAMEL
5 colheres de manteiga
1/4 xícara de farinha de trigo
4 xícaras de leite bem quente
Sal, pimenta do reino, noz moscada

PREPARO DO MOLHO

Numa panela de fundo grosso, derreta a manteiga sem deixar queimar.

Acrescente a farinha e não pare de mexer. Queremos a farinha ligeiramente dourada, mas não tostada. O molho bechamel é branquinho. Baixe o fogo e acrescente em porções o leite bem quente, mexendo a mistura sem parar, de preferência com um fouet (aramado). Vá acrescentando mais leite aos poucos, continue mexendo até atingir a cremosidade desejada.

Não desgrude o olho do molho pra não fazer gruminhos nem queimar. Leva de 10 a 15 minutos pra ficar bem cozidinho. Acrescente sal, pimenta do reino moída na hora e noz moscada. Depois de pronto, passe por uma peneira, pra ficar bem fininho.

Reserve.

PREPARO DA COUVE-FLOR

Tem alguns jeitos de preparar o prato: ou a couve-flor inteira ou em floretes, separados em porções individuais ou espalhados num refratário retangular.

A couve-flor inteira

Essa aqui precisa de um ingrediente a mais: nacos de muçarela.

Corte a parte mais grossa do talo e tire as folhas laterais, sem desmanchar o buquê.

Leve para cozinhar no vapor. Não demora. Perceba quando estiver macia, al dente. Não deixe muito mole pra não perder o efeito.

Introduza nacos de muçarela entre os floretes, pra quando sair do forno termos um queijo derretido na receita.

Unte uma vasilha funda, que vá ao forno, com um pouco de manteiga, derrame uma porção de molho, coloque a couve-flor recheada com muçarela, cubra com o restante do molho, salpique parmesão ralado e leve ao forno a 180 graus por 15 a 20 minutinhos pra gratinar.

Porções individuais

Corte a couve-flor em floretes.

Prepare alguns potinhos de cerâmica: unte com manteiga, forre com uma pequena porção de molho, acrescente os floretes de couve-flor, cubra com mais molho e salpique queijo parmesão. Distribua os potinhos numa forma pra facilitar o manuseio,  leve ao forno a 180 graus por 15 a 20 minutinhos, até gratinar.

No refratário, unte o recipiente com manteiga, forre com uma camada de bechamel, espalhe os floretes, cubra com o restante do bechamel, espalhe queijo parmesão e leve ao forno a 180 graus, por 15 minutinhos. 

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Foto: domínio público/pixabay

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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