Cozinha de quarentena: temperando o isolamento com acolhimento

Cozinha de quarentena: temperando o isolamento com acolhimento

O verde do pepino, o laranja da cenoura e o laranja da laranja. O amarelo do melão, o vermelho vinho da beterraba. O vinho do vinho. O verde das folhas, o vermelho do tomate. O verde por fora da abóbora, o laranja por dentro da abóbora. O marrom da mandioca. A terra. O branco. E depois de cozida, o amarelo. O amarelo da mandioquinha. A cebola de molho deixa a água mate. O mate. E o ébano da berinjela. Lustroso. Verde, vermelho e amarelo. Pimentão. Verde mesclado do jiló.

Higienizar a compra do mercado me aproximou das cores.  Presta atenção pra você ver.

Presta atenção.

Hoje é quase igual a ontem e não vai ser tão diferente de amanhã.

Hoje tem café, almoço e jantar. Graças a Deus. Estamos entre o agradecer e o enternecer. O isolamento e o acolhimento. A doação e a descoberta de que também precisamos. De muito pouco. E de tanto. Hoje tem notícia de morte. Todo dia tem notícia de morte. Tem uma vizinha que faz ginástica em voz alta no fim do dia. Comandos animadíssimos. Uma mostra de que a vida está ativa, cheia de energia, de lives, muitas lives que eu não tenho paciência de ver.

Prefiro me dar um tempo. Que quase todo o tempo está ocupado. A casa ocupa, a cozinha ocupa, o trabalho ocupa. ‘De novo” comanda a voz animada da ginástica provavelmente virtual.

O jeito de encontrar o amigo é virtual. Até o encontro com a mãe da gente é virtual. E o encontro com o vizinho na  caminhada com o cachorro é propositalmente distante. Não nos alongamos em nenhuma conversa. Estamos bem. Saudáveis. Que privilégio. Sorrimos de longe. Sem máscara.

De máscara veio o motoboy levar uma encomenda. Desejei saúde e cuidado.

Vi o sorriso pelo olho.

Assei a abóbora cabotiã enrolada em papel alumínio. Ela assim assada em pedaços com ervas e um pouco de mel, que delícia. Mas dessa aqui, quando ficou macia – espetei com um garfo – , retirei a polpa com uma colher evitando romper a casca.

A polpa, sabe o que eu faço? Uso como recheio de massa, purê apimentadinho, rende sopa com gengibre. Aqui nos interessa a casca: rasgada ou cortada em pedaços médios, distribuída em seguida numa assadeira  com um pouco de azeite, orégano e sal.

Sirvo como aperitivo ou ingrediente numa salada: folhas verdes, queijo de cabra ou outro queijo marcante, tomate cereja e casca de abóbora tostadinha.

A beterraba, dia desses, revisitei num sanduíche que comi numa festa de aniversário. E vou contar os dois jeitos que eu já fiz em dois momentos: fresquinha, crocante, ralei duas beterrabas, misturei uma colherada de cream chesse (pode ser também requeijão) e atum enlatado (escorri o óleo antes).

Ou: já meio passadinha, meio murcha (às vezes acontece), cozinhei a beterraba com casca, descasquei em seguida, levei ao processador com o atum, um pouquinho de azeite, gotinhas de limão. Salsinha fresca, se quiser. Resulta recheio de pão de miga ou de uma baguete ou do pãozinho francês. Na montagem, você decide se acrescenta rúcula, queijo macio – brie, boucheron.

Pra acompanhar, fiz um ovo cocotte assim: untei um ramekin (um potinho de cerâmica ) com manteiga, quebrei um ovo dentro, levei o potinho com o ovo para uma forma com água, cozinhei em banho maria (sem deixar ferver) por sete minutos. Finalizei com sal e pimenta moídos na hora e um raminho de tomilho limão. 

Servi o sanduíche de beterraba com atum, o ovo cocotte, saladinha verde. O prato fica lindo.

Isso foi depois da faxina, já tava tarde, não deu tempo de fazer almoço de verdade.

Temos visto séries, debates, jornais. Assistimos à minissérie Nada Ortodoxa, revezando com The Crown, que é de uma elegância, né? Um pouco de fofoca real, pra variar. Pena que Churchill sai de cena.

Li o livro Marrom e Amarelo, de Paulo Scott e comecei a ler Escravidão, do Laurentino Gomes. Assisti a alguns filmes. 

Berinjela eu faço de várias maneiras, outra hora eu conto.

Terminei o livro A morte é um dia que vale a pena viver, da Ana Claudia Quintana Arantes em dois dias; empaquei no livro Devagar e Simples, de André Lara Rezende – vou e volto pra ele – e estou devorando O Homem no Estojo, de Tchekov.

Tudo nas últimas semanas, assim mesmo, na seqüência ou ao mesmo tempo. Perdemos Moraes Moreira, Rubem Fonseca, Aldir Blanc, Sérgio Sant’Anna, Flavio Migliaccio. Perdemos muitos brasileiros, milhares. E tive que ouvir, de um malandro autoritário , a voz mórbida e cruel dizendo “E daí?”. Me embrulha o estômago.

Por mensagem, uma amiga maravilhosa me perguntou se eu sabia fazer jiló. Nunca tinha feito e veio na cesta de legumes orgânicos. A escolha é do produtor. Sei sim, do jeito mais básico: corta em cruz, refoga em pouco óleo e alho. Usa o método pinga e frita. Pinga um pouquinho de água, quando começar a secar, joga só mais um tiquinho, pra amaciar sem desmanchar. Um pouco de sal, pimentinha do reino e pronto. Come jiló com feijão. É maravilhoso. Ela mandou foto depois e disse que ficou “bem bom”.

Abacaxi? Descasco roubando um pouco da polpa. Bato a casca com um pouco de água, coo. Volte o suco pro liquidificador, acrescento folhinhas de hortelã.

Outro dia, fiz bacalhau. Esse eu planejo uns dias antes porque tem que dessalgar e leva 72 horas trocando a água, na geladeira, dependendo do tamanho. Fiz o clássico a Gomes de Sá, lindo. E sobrou um tantinho. E sobrou arroz branco também. Juntei tudo. Refoguei cebola numa panela (usei também a própria cebola do preparo anterior e se eu tivesse pimentão, refogava também), acrescentei o bacalhau, o arroz pré-cozido, uma pitada de masala (misturinha de cominho, sal, gengibre, noz moscada), joguei queijo parmesão ralado, misturei tudo. Dispus nos pratos, bem quentinho, joguei mais um pouquinho de parmesão e salsinha fresca. Pronto. Um arremedo considerável de arroz de bacalhau.

Pão é uma comida que eu faço todo dia. Agora, estou testando receitas clássicas.

E também faço tortas. A torta rústica de legumes leva muito do colorido que abre o texto, com alecrim e tomilho e ainda precisa de uma gema pra pincelar a massa. Sobrou a clara. Tirei a torta do forno. Suspiro. Sim, usei a clara pra fazer suspiro. Pra cada clara, 5 colheres de açúcar.

Bati a clara até obter ponto de neve. Acrescentei açúcar aos poucos. Ralei casca de limão. Pontilhei o papel manteiga, levei ao forno a 160 graus por 15 minutos, até que dourasse um pouco.

Servi purinho de sobremesa num dia desses. Não tinha morango. Nem bolo.   

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Foto: domínio público/pixabay

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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