Alunas e professoras de escola afegã para meninas chegam com segurança em Ruanda, mas sonham com mudança apenas temporária

Alunas e professores de escola afegã para meninas chegam com segurança em Ruanda, mas sonham com mudança apenas temporária

Nascida e criada em Cabul, Shabana Basij-Rasikh tinha seis anos quando o Talibã tomou o controle, pela primeira vez, do Afeganistão, e declarou que meninas estavam proibidas de estudar. Durante cinco anos, até seus onze, ela se vestiu de menino, escondeu seus livros em sacolas e todos os dias fazia caminhos diferentes para poder frequentar uma “escola secreta”, que tinha mais de 100 alunas numa única sala. A afegã nunca mais esqueceu o dia em que seu pai, ouvindo o rádio, gritou: “O Talibã foi embora. Você poder ir a uma escola de verdade agora!”

Shabana é uma das co-fundadoras da School of Leadership SOLA. Em 2008, após ter tido a oportunidade de estudar nos Estados Unidos, inaugurou uma escola internato para meninas vindas de diferentes regiões de seu país. Ela sonhava em ajudar essas meninas a terem uma educação de qualidade. Em pachto, uma das línguas oficiais do Afeganistão, sola significa “paz”. E é viver num mundo pacífico que Shabana sempre almejou. Infelizmente, nas últimas semanas, a tomada do poder pelo Talibã novamente fez com que seu desejo fosse interrompido. Pelo menos em solo afegão. E temporariamente.

Com medo que as cerca de 100 alunas não pudessem mais estudar, toda a equipe da escola deixou Cabul e agora está em Ruanda, na África.

“Na semana passada, concluímos a saída de Cabul de quase 250 alunos, professores, funcionários e familiares. Todos estão a caminho, por meio do Catar, para a nação de Ruanda, onde pretendemos iniciar um semestre no exterior para todo o nosso corpo discente”, relatou Shabana na página do Facebook da SOLA. “Muitos indivíduos desempenharam papéis importantes em nossa partida e, embora não possa agradecer a todos vocês aqui, quero oferecer publicamente minha gratidão aos governos do Catar, Ruanda e dos Estados Unidos por sua assistência crítica”.

A co-fundadora da escola, que já recebeu inúmeros reconhecimentos e homenagens internacionais pelo seu lindo trabalho para garantir o acesso à educação por meninas afegãs, planejava aumentar a capacidade da SOLA em 2022, chegando a 115 estudantes, dos Ensino Fundamental II e Médio. Uma longa trajetória de sucesso para quem começou com apenas quatro alunas, numa casa alugada. Ao longo dos últimos anos, várias jovens ganharam bolsas de estudo em universidades no exterior.

A ideia de abrir um internato para meninas sempre foi garantir a segurança delas. Ao reduzir a circulação dessas estudantes por ruas e estradas do país, elas estariam menos expostas a atravessar potenciais áreas de conflitos armados.

Mas o sonho de Shabana continua vivo. Como ela revelou na sua mensagem pelo Facebook.

“SOLA está de mudança, mas nossa mudança não é permanente. Um semestre no exterior é exatamente o que estamos planejando. Quando as circunstâncias locais permitirem, esperamos voltar para casa, no Afeganistão…

Meu coração está em pedaços pelo meu país. Estive em Cabul e vi o medo, a raiva e a bravura feroz do povo afegão. Eu olho para minhas alunas e vejo os rostos de milhões de garotas afegãs, que ficaram para trás.

Essas meninas não podem ir embora e você não pode desviar seu olhar. Se há uma coisa que peço ao mundo, é esta: não desvie os olhos do Afeganistão. Não deixe sua atenção vagar com o passar das semanas. Olhe essas garotas e, ao fazer isso, responsabilize aqueles que têm poder sobre elas.

Meu compromisso com as mulheres e meninas de meu país, assim como meu compromisso com minhas alunas, é inabalável. Elas são o fogo que nunca se apaga. Finalmente, quero agradecer a todos pela demonstração de amor e apoio”.

Assista abaixo o TED-Talk com Shabana, em que ela conta sua história pessoal, como sempre teve o apoio da família, sobretudo de seu pai, para que nunca desistisse de estudar.

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Foto: reprodução Facebook SOLA School of Leadership

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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