Talibã diz no Afeganistão que respeitará direitos das mulheres, mas há ceticismo mundial

Talibã diz no Afeganistão que respeitará direitos das mulheres, mas há ceticismo mundial

Dois dias após chegar a Cabul, capital do Afeganistão, e tomar o controle do país, os militantes do grupo Talibã organizaram hoje uma coletiva de imprensa e afirmaram que irão respeitar os direitos das mulheres. Pelo menos aqueles estabelecidos pela lei islâmica (sharia). Além disso, um representante da milícia, Mawlawi Abdulhaq Hemad, concedeu uma entrevista a uma jornalista mulher e disse que gostaria que as afegãs se juntassem ao governo.

Como escrevi ontem (16/08), nesta outra reportagem, há muito temor sobre o futuro de meninas, adolescentes e mulheres no país sob o comando do grupo extremista, que no passado, proibiu que elas frequentassem escolas, trabalhassem ou saíssem de casa desacompanhadas de homens.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, se pronunciou sobre a situação. Porque lutava pelos direitos das meninas à educação, em 2012, durante uma emboscada, ela levou um tiro na cabeça de um militante do Talibã.

Hoje ela voltou a ressaltar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas precisa tomar medidas urgentes para proteger as mulheres, crianças e minorias afegãs.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos (ACNUR) divulgou um comunicado em que ressalta que as promessas feitas pelo Talibã precisam ser honradas. “Houve muitos avanços duramente conquistados em direitos humanos nas últimas duas décadas. Os direitos de todos os afegãos devem ser defendidos”, enfatizou Rupert Colville, porta-voz da entidade.

Relatos de jornalistas que estão em Cabul da rede CNN informam que não há mulheres circulando nas ruas da capital. Apesar do pronunciamento do Talibã, elas têm medo de deixar suas casas. Não sabem ainda, por exemplo, se serão obrigadas novamente a vestir a burka, que cobre o corpo inteiro, e foi imposta pelos Talibãs na década de 90, quando eles tomaram o país.

Ainda segundo o porta-voz do grupo, não haverá invasões de lojas, residências, escolas ou propriedades.

Todavia, não se sabe exatamente quais serão esses direitos mencionados na coletiva desta terça-feira. Em entrevista à rede britânica BBC, a professora e ativista Pashtana Durrani denunciou que, na prática, o Talibã não está fazendo aquilo que promete. Mulheres estão sendo mandadas ir para casa por seus empregadores e em algumas escolas as meninas só aprendem os preceitos do Islã.

“Mulheres não serão silenciadas pelo Talibã”, diz ela, que está escondida. “Eu tenho que lutar hoje, para que a próxima geração não tenha que enfrentar todo esse conflito. Se eles limitarem o currículo, vou enviar mais livros para a biblioteca online. Se eles limitarem a internet … Vou mandar livros para casas. Se eles limitarem os professores, começarei uma escola subterrânea”.

Imagem de 2014: sob as ordens do Talibã, mulheres só podem sair de casa vestindo burka
e acompanhadas de um homem

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Fotos: Senior Airman Ashley Avecilla/DVIDS/Flickr/Creative Commons (abertura) e Global Panorama/Marius Arnesen/Flickr/Creative Commons (mulheres de burka)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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