“Estou profundamente preocupada com as mulheres do Afeganistão”, diz Malala

"Estou profundamente preocupada com as mulheres do Afeganistão", diz Malala

Enquanto o mundo assiste atônito e apreensivo a tomada do governo do Afeganistão pelos extremistas Talibãs, uma das milhares de vítimas do grupo terrorista, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, que durante uma emboscada levou um tiro na cabeça porque lutava pelos direitos das meninas à educação, se pronunciou ontem sobre a situação.

“Assistimos em completo choque enquanto o Talibã assume o controle do Afeganistão. Estou profundamente preocupada com as mulheres, as minorias e os defensores dos direitos humanos. Os poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis”, escreveu Malala em seu perfil no Twitter.

Desde que foi vítima do atentado, em 2012, a jovem, que tem hoje 24 anos, vive com sua família no exílio, na Inglaterra. Ela foi jurada de morte pelo Talibã.

Depois de tomar o controle de diversas cidades, o grupo chegou à capital Cabul no domingo (15/08), após os Estados Unidos e outras nações terem retirado suas tropas do Afeganistão, que ficaram quase 20 anos por lá. A decisão de trazer os militares de volta para casa já havia sido anunciada no ano passado por Donald Trump. Eles chegaram ao país com o objetivo de prender os responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, quando quase 3 mil pessoas morreram em solo americano.

Com a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda, ainda durante a administração do ex-presidente Barack Obama, a expectativa era também o exército local. Mas pelo que se vê agora, a iniciativa foi um fracasso. O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu e a rendição foi iminente. Milhares de pessoas correram para o aeroporto tentando escapar.

"Estou profundamente preocupada com as mulheres do Afeganistão", diz Malala

O temor é que as escolas para meninas sejam fechadas no país

Onde assume o poder, o Talibã proíbe que meninas estudem e mulheres trabalhem. Elas ficam praticamente invisíveis, confinadas dentro de casa, só podendo sair acompanhadas de um homem e tendo o corpo completamente coberto. Relatos enviados do Afeganistão informam que nos últimos dias professores de escolas e universidades começaram a se despedir de suas alunas. Jornalistas estão com medo sobre o que pode acontecer com elas.

Em entrevista à rede internacional CNN, a primeira mulher a servir como embaixadora do Afeganistão nos Estados Unidos, Roya Rahmani, relatou muita apreensão. “Estou extremamente preocupada com o que está por vir e com minha família e meu povo em casa. E com base no que sei sobre as ações do Talibã, temo que os direitos básicos das mulheres serão sacrificados”.

Estima-se que 3,5 milhões de crianças e adolescentes nas escolas afegãs sejam mulheres. Nos últimos anos, elas puderam voltar a estudar ou mesmo, tocar instrumentos musicais, algo proibido pelo Talibã. Profissionais do sexo feminino exerceram cargos públicos e em empresas. Enfim, puderam sonhar com um futuro mais justo e equalitário.

"Estou profundamente preocupada com as mulheres do Afeganistão", diz Malala

Um futuro incerto para milhões de meninas do Afeganistão

Em maio, o representante do Talibã, Zabihullah Mujahid, afirmou que haveria leis para garantir a participação das mulheres na vida pública. Mas há pouca esperança que isso aconteça, dado o histórico do grupo.

"Estou profundamente preocupada com as mulheres do Afeganistão", diz Malala

O gráfico acima mostra como as mulheres conquistaram espaço no parlamento afegão

O desafio das mulheres no Afeganistão

Um relatório divulgado em fevereiro por uma organização do próprio governo dos Estados Unidos, o Special Inspector General for Afghanistan Reconstruction, que analisou a situação das mulheres afegãs, destacou que os desafios enfrentados por elas já eram muito grandes, mesmo antes do ocorrido no final de semana.

Seguem alguns trechos da análise:

“Mulheres e meninas afegãs obtiveram ganhos substanciais nas últimas quase duas décadas – especialmente no acesso a cuidados de saúde e educação, e maior presença na vida pública. Mesmo assim, o Afeganistão continua sendo um dos lugares mais desafiadores do mundo para ser mulher – com altas taxas de mortalidade materna, violência endêmica de gênero e acesso ainda limitado à educação e saúde…

A história das mulheres no Afeganistão é mais complexa do que o retrato simplista frequentemente pintado pela mídia ocidental: vítimas passivas forçadas a usar burcas. Para apoiar efetivamente as mulheres e meninas afegãs e promover a igualdade de gênero, é preciso compreender as diversas experiências dessas mulheres e meninas, no contexto da cultura e da história que moldam os papéis e as relações de gênero no país.

O Afeganistão continua sendo um país basicamente agrário e empobrecido, cuja sociedade tradicional e patriarcal concedeu historicamente às mulheres o status de subordinadas. Os esforços de reforma datam do final do século 19 e encontraram grande resistência nas áreas rurais. Desde 2001, as normas de gênero do Afeganistão foram abaladas por muitos impulsionadores viáveis ​​de mudança, incluindo crescimento econômico, exposição a novas ideias por meio de um boom na mídia e no uso de telefones celulares, a presença de estrangeiros, bem como esforços legais, programáticos e ativistas para empurrar para a mudança…

As normas sociais e culturais restritivas do Afeganistão em relação às mulheres – que simbolizam a honra da família e da nação – são anteriores e transcendem o Talibã”.

Em 2005, pouco menos de 20% das jovens entre 15 e 24 anos eram alfabetizadas. Doze anos depois, essa porcentagem aumentou para quase 40%

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Fotos e gráficos: reprodução relatório Support for Gender Equality: Lessons from the U.S. Experience in Afghanistan/USAID Photos/U.S. Navy photo by Hcm. Josh Ives (fila de meninas lado a lado)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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