Di Cavalcanti e Noel Rosa ao sabor das pitangas

pitangas

A mim pareceu que a pitangueira era uma máquina de amadurecimento. Uma máquina do tempo… Chego a hora que quiser na beirinha da escada, escolho o galho e arranco as mais vermelhas para comer direto do pé. Encho a boca com várias porque pitanga é desse jeito pequena e essa história de porções francesas não funciona muito comigo numa semana de férias inesperada. Para completar o painel indelicado, cuspo as sementes, não sem antes mirar a grama. Faço isso por duas razões: para não deixar semente escorregadias nos degraus e por ter a esperança de colaborar para o nascimento de mais alguma pitangueira.

Mas, ainda que jogasse as sementes nos degraus, elas talvez passassem despercebidas diante das pitangas que o calor, o sol, a gravidade, enfim, a mãe natureza cuspiu da árvore. Sinto-me impelida a aproveitar as frutas boas do chão… Aquelas que caíram aos segundos do meu olhar como testemunha… Mas, penso nos cachorros e parto para outro galho. Outro tanto de pitangas; outro bom número de sementes cuspidas.

Preocupada, percebo que daqui a pouco não haverá mais pitangas maduras ao meu alcance. Volto o olhar para o primeiro galho e sou apanhada pela surpresa: vejo mais pitangas prontinhas para serem saboreadas. Encafifada, concluo pela ideia mais plausível: eu não as tinha visto… Mas, não… A minha vontade de pitanga não as deixaria passar em alaranjado. Prefiro, então, pensar no tempo pequenamente fugaz que passa num atmo sem relógio. Naquele  tiquinho de descuido gostoso… Naquele entretenimento genuíno com as pequenezas que tornadas conscientes pelo cotidiano relaxado fazem perceber a relevância da vida… E, diante da constatação, passo a fixar o olhar numa outra pitanga não tão vermelha… A quero amadurecendo diante do meu olhar. Fico ali até o momento que acho ideal para a colheita. Saboreio e saio dali presunçosa, com a sensação de ter mãe natureza nas veias. Subo as escadas confiante e me vejo transportada para a Pinacoteca de São Paulo, na exposição do Di Cavalcanti, tentando alcançar a alma do artista.

Vejo um Di diferente, em preto e branco, com nanquim e papel. E fico pensando se o homem de chapéu tem pitangueira lá fora para encorajar a saída. E agradeço minha amiga-irmã – responsável por cuidar da pitangueira – o fato de me proporcionar um tempo tão frutífero na sua casa. Ela é a Cássia Miguel que agora tem blog de comida gostosa, o “Cozinha que é bom“, aqui no Conexão Planeta.

Quando estive na casa dela era tempo de aniversário, tempo de sarau. Tempo de ouvir leitura no salão, como faziam as mulheres de Di, pintadas na década de 30.

Na temporada em São Paulo teve música de mais outro amigo, o Márcio Juliano, bancando o Noel Rosa, acompanhado dos super músicos Sérgio Albach, Ale Age, Marcelo Torrone, Luis Rolim, Gabriel Schwartz e com participação especial da cantora Mônica Salmaso.

Conta o colega blogueiro do Ceará, Dr. Zem, que “ao que parece, o nosso eterno Poeta da Vila era consciente de que seria difícil viver de samba. Teve, portanto, em alguns momentos, a pretensão de se tornar desenhista. Se na música o sucesso foi estrondoso, na arte do desenho nem tanto. Uma história contada por André Diniz, no livro ‘Noel – O Poeta do Samba e da Cidade’, bem ilustra esta aspiração do autor de ‘Com que Roupa’.

O autor do livro relata ainda que Noel teria se encontrado com o pintor Di Cavalcanti que conversava com o amigo Nássara em um Café do Centro do Rio. No encontro, viu uma boa oportunidade para apresentar seus desenhos e obter uma avaliação abalizada. Di Cavalcanti não deu muito atenção, observava os traços, mas preferia pedir ao poeta que cantasse uma música. Noel insistia nos desenhos, Cavalcanti novamente no samba. Após várias tentativas infrutíferas na busca de uma opinião do pintor, Noel, finalmente, desistiu. Fala-se que deste encontro de grandes artistas, sobrou apenas uma profunda mágoa por parte de Noel em relação ao pintor, que duraria toda a curta, mas profícua carreira do Poeta da Vila.

Se tivesse tido mais tempo na sua vida tão curta (morreu aos 26 anos de tuberculose) acho que Noel Rosa perdoaria Di.  Quem sabe desse tempo de ver mais obras do pintor e ele percebesse o amor que Di Cavalcanti tinha pela música, pelo samba, pelo carnaval.

Esse texto que tirei da parede da exposição Di Cavalcanti na Pinacoteca dá uma boa noção de como a música permeou a obra dele:

Os cordões de carnaval e as rodas de samba ou, de maneira geral, as festas de rua são motivações para o desenvolvimento da obra de Di Cavalcanti, desde o começo dos anos de 1920 até o final de sua trajetória. O contexto dessa produção remonta a um momento de virada no significado dessas manifestações para a cultura do Brasil: da criminalização dos grupos carnavalescos pela policia do Estado, no começo do século XX, sob a acusação de que seriam “grotescos, sujos e violentos”, para a consagração nacionalista do samba e do carnaval na Era Vargas (1930-1945), alados a símbolos da pátria, a expressões espontâneas de um povo, “frutos do clima, do meio, de paisagens” e, nesse sentido, um folclore genuinamente brasileiro, livre de influxos externos, apesar da matriz africana da música.

Na obra Músicos, de 1923, Di estiliza suas figuras por meio de procedimentos aparentados com a visualidade do cubismo e do futurismo, na geometrização de seres e objetos. A opção por duplicar com sombra as silhuetas dos instrumentistas – o mesmo expediente de que o artista lança mão) em Fantoches da Meia-Noite, de dois anos antes, reforça a sensação de um espaço fragmentado, que confere um ritmo também “quebrado” para a imagem.

Nessa amarração entre forma e tema, a pintura enuncia alguns dilemas implicados a uma obra que se pretende moderna, nacional e popular no Brasil daquela época e logo após a Semana de 1922. Di realiza Músicos em Paris, durante sua primeira viagem à Europa (com passagem pela Itália). E, àquela altura, havia umas poucas manifestações culturais brasileiras em circulação no exterior. Em 1922, os Oito Batutas, grupo de Pixinguinha e Donga, entre outros músicos, apresentou um repertório de choro, samba, maxixe e outros ritmos, em temporada de seis meses na capital francesa.

Outro exemplo de como a música está presente na obra de Di é uma ilustração do livro “Fantoches da Meia-Noite”. Tive que fotografar do jeito que deu esse texto falando do pianista fantoche.

O post do blog da Editora Dodo, que se aventurou a reeditá-lo resume bem a importância dos fantoches: “Para Di, Fantoches da Meia-Noite marca uma nova fase em sua carreira. Com essa série de desenhos, aos 24 anos, o artista rompe com a influência da ArtNoveau e começa uma nova fase, de tendência expressionista. Seu traço se torna mais autoral.

Fantoches da Meia-Noite foi inovador para a época não apenas pelo conteúdo, mas pelo formato. É um dos primeiros livros de artista publicado no Brasil e talvez a primeira publicação de uma serie de desenhos, de um álbum, pensado como publicação no país.

A presente edição ainda conta com o texto original de abertura escrito por Ribeiro Couto e um texto de Mario de Andrade publicado na revista Fon-Fon de 1 de julho de 1922, onde ele discorre sobre a obra de Di Cavalcanti e a publicação Fantoches da Meia Noite.”

Ah! E a pitangueira, o que é que tem a ver com tudo isso? Nada… Foi só a escada inspiradora para eu desencadear esse falatório todo. Não… Peraí. Vou tentar arranjar um argumento melhorzinho…

Ver o tempo passar olhando uma pitanga amadurecer. Ver o tempo que Di pintou. Ver o tempo que Noel cantou… São viagens que fico tentando encapsular nas máquinas do tempo que arranjo por aí…

“NO SUBÚRBIO DA MODERNIDADE – DI CAVALCANTI 120 ANOS”
Data: até 29 de janeiro de 2018
Horárioquarta a segunda-feira, das 10h00 às 17h30 – com permanência até às 18h00
Local: Pina Luz
Endereço: Praça da Luz, 2 – Centro – São Paulo -, próximo à estação Luz da CPTM.
I
ngressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Crianças com menos de 10 anos e adultos com mais de 60 não pagam. Aos sábados, a entrada é gratuita para todos os visitantes.

Fotos: domínio público/pixabay e arquivo pessoal 

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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