Para quem a forma indígena de viver é uma ameaça?

Para quem a forma indígena de viver é uma ameaça?

Foi a geométrica e organizada união de forças que me fez parar para olhar. A emoção em paralelas que se prolongam e se propagam em abraços e mãos nos ombros num apoio infinito. Tudo parecendo estar numa milimétrica e organizada inconsciência do humano que vira um só no movimento de luta em defesa de seus direitos, das suas respostas, das suas perguntas, das suas necessidades. 

Foi como se eu também tivesse uma mão no meu ombro. Organizou meu caos. Me deu cosmos para orbitar. Me deu força estrelar para lutar direto na jugular. Elipses para girar junto. Para brigar por assuntos que realmente façam a diferença entre um nascer do sol e um por da lua.

Aliás, a conexão indígena com a natureza, a filosófica e real cosmovisão tem feito meu dia outro. Tem me feito acreditar que outro mundo pode ser possível, já que, para esse do capital, não temos vocação mesmo como bem disse o filósofo Paulo Ghiraldelli. Vou deixar o vídeo depois do texto. A afirmação está mais para o final, mas todo o vídeo vale a pena.

Olha o que artista Arissana Pataxó diz da obra das mãos nos ombros que motivou esse post no meu outro blog Caixa, Caixote, Caixão. Grades, sombras, réguas, arestas, retas que chegam nas estrelas, planetas. Um escrito poético entre o caos e o cosmos chamado Dê ombros.

Tá. Mas, vamos ao que a Arissana falou.

“Fiz esta obra no ano de 2018 para fazer parte da exposição que estava pretendendo montar como parte da programação do Fórum Social Mundial que aconteceu em Salvador. O objetivo era mostrar a luta, resistência e a rede de colaboração que existe entre os povos numa luta coletiva pelos direitos.

Fiz essa obra a partir de um recorte de uma imagem de uma fotografia que tirei em 2010 nos Jogos Nacionais Indígenas, que aconteceram em Palmas-TO. Um grupo de mulheres Xikrin dançavam em círculos, unidas pelos braços. Achei muito bonita aquela imagem e registrei, em fotografias e vídeos. Acho muito significativo esse movimento corporal,  que é usado por alguns povos na hora de algumas danças  e ritos”.

Começamos a conversar por texto e acabamos por áudio.

Vou deixar aqui para vocês ouvirem a Arissana falando um pouco da trajetória dela como artista.

E essa obra Arissana? Fala um pouco dela também…

Vou deixar, ainda, o link do trabalho de mestrado da Arrisana: ARTE E IDENTIDADE: ADORNOS CORPORAIS PATAXÓ. Aliás, ela se prepara para continuar o doutorado na mesma linha.


Clique aqui para você conhecer mais a obra dessa artista versátil, que adora experimentar várias técnicas e que ganhou o prêmio PIPA.

Enquanto eu fazia esse post, a Daiara Tukano conversava na Rádio Yandê – que continua sendo minha preferida – com o Arlindo Baré e o Ailton Krenak. Mais uma vez ele me acompanhando na escrita. E foi por esse tal de acaso, aí. Vou me acostumar. Obrigada Ailton (já tô chamando de Ailton). Olha os temas que eles abordaram:

  • A lenda da democracia nos EUA. Só se for democracia ditatorial.
  • Os territórios indígenas subordinados a uma lógica coletiva, de união, e não ao mecanismo de produção de mercadoria, fato que enfurece o sistema padrão.
  • Envenenamento das formas coletivas indígenas de existir.
  • O padrão que faz com que nos mantenhamos na caixinha.
  • Memória ancestral que permite escapar da caixinha, apesar dos mecanismos de alienação constantes.
  • Autogoverno.

Como você vê, a conversa na Rádio Yandê indica respostas à pergunta proposta no título desse post. Todo papo na rádio foi motivado pela campanha de socorro aos indígenas da Amazônia e ações emergenciais. O lema da conversa foi: “Essa terra não tem dono, mas essa terra tem filhos. Chega de abuso”.

A internet, durante a conversa, caiu algumas vezes. E é bem normal cair, não só nessas falas, mas em várias que eu assisto de pessoas ligadas a contexto de luta e resistência contra o que a história conta, contra o que os governos impõem.

E a internet cai por mais que os autores dos ao vivos façam das tripas coração para ter uma rede de qualidade. São muitas, muitas mesmo as coincidências de falhas nas falas contundentes, precisas, originais, inspiradas. Vou começar a anotar e fazer uma lista.

Pois bem. Numa das vezes em que houve falha, Ailton criava uma rima ótima: Louro Moro. Caiu a conexão. Eu continuo. Louro Moro. No soro, o Brasil quer bem longe esse causador das nossas catástrofes atuais que entrou na lista dos que nos obrigam a ter que conviver com a história repetida de golpe e ditadura. Quer bem longe esse papagaio que repete, repete em seu discurso, a lei dos mais fortes, dos mais ricos, dos mais louros, esses que a gente sabe, não estão nem um pouco preocupados com a existência e sobrevivência dos que não têm o poder institucional ao seu lado e precisam lutar para ter justiça social. Sobra povo injustiçado nessa matemática. Muita gente já tentando calcular certinho onde o vulcão vai explodir primeiro. Previsões?

Tá aqui a conversa na Rádio Yandê.

Link para o vídeo do filósófo Paulo Ghiraldelli. Começa com a reflexão sobre o fato de Silvio Santos ter tirado o jornalismo no SBT do ar e termina com a questão da nossa vocação (a qual me referi lá em cima quando falava da importância de pensar numa nova forma de viver nesse mundo e se descondicionar das visões gerais que engolem, engolfam o cidadão num abraço de urso).

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

Um comentário em “Para quem a forma indígena de viver é uma ameaça?

  • 2 de junho de 2020 em 5:50 PM
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    “A forma indígena de viver é uma ameaça ” para os ladrões do solo sagrado e puro deles: NÓS. Para os que chegaram no pedaço achando que estavam conquistando um chão que já tinha donos: ELES. Ameaçados se sentem os ladrões, não os proprietários, legitimamente ocupando suas próprias terras, ecologicamente conservadas e mantidas para o legado de seus filhos.

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