Esse tempo um dia passa?

Não. Me recuso a jogar contra o tempo. Me recuso a tratá-lo como capataz inimigo. Ainda que haja aqui jaz. Tantos aqui jaz. Muitos. De perder a conta. Não. De falsificarem as contas. De não querer mais faz de conta. Mil bombas. Pombas. Em ondas voam. Mais um. Mais outro. E mal sabemos os nomes.

Vou lembrar do artista indígena Feliciano Lana, da etnia Desana, para tentar representar – nem dá, eu sei – todos que morreram pela falta de cuidado, de estrutura, de remédio, de hospital. Pelo preconceito. Pela violência psicológica. Física. Pelo genocídio.  

Tirei a foto que abre esse texto de um post da escritora Renata Tupinambá no Instagram. Que tristeza conhecer o Feliciano só agora. De qualquer forma, obrigada por me fazer chegar a ele, Renata.

O coração do artista plástico, desenhista, pesquisador e liderança indígena, Feliciano Pimentel Lana, de 83 anos, do povo Desana, parou de bater já faz algum tempo. Foi na manhã do dia 12 de maio, segundo  Elaíze Farias, do site Amazônia Real. Reproduzo algumas parte do texto dela sobre a morte.

“Foi em consequência de uma parada cardiorrespiratória e suspeita de novo coronavírus, em sua casa na comunidade São Francisco, em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas.  Segundo sua família, ele tinha sintomas de febre e dor, mas não chegou a ser atendido por um médico ou testado por Covid-19, como muitos povos indígenas que vivem em regiões de difícil acesso na Amazônia Ocidental.

Referência da cultura e do conhecimento dos povos do Alto Rio Negro, a morte de Feliciano Lano repercutiu além das fronteiras do Amazonas, pois sua obra influenciou os contadores de histórias e pesquisadores brasileiros e estrangeiros.”

Os Desana fazem parte das 17 etnias que vivem na região do Rio Uaupés, no Noroeste da Amazônia. Tão longe aqui do Paraná, aonde durmo e acordo todos os dias. Aos sábados, tenho acordado já esperando a notificação de que o programa noticioso vai começar.

Quem apresenta é um garoto chamado Yago Queiroz, integrante da ARPINSUL, Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul. Me faz ter esperança vê-lo sendo jornalista, maquiado e vestido para a luta diária, não para um show midiático sem sentido, com emoção programada para dar audiência.

É o verdadeiro jornalismo comunitário. Sem pompa. E as notícias, as conversas são bombas que tão poucos querem ouvir… Como gostei – apesar da tristeza do conteúdo – de ver Yago procurando a forma para dar as notícias, ver a dúvida em tratar como noticiário, programa, live mesmo.

Quis dizer para ele que a forma não importa. Faça o que você tiver vontade. Você é bom no que faz. O conteúdo é o relevante. E isso a iniciativa tem de sobra. O fato Yago é que, independente da forma, o que você quer mostrar, não é todo mundo que quer ver. Aliás, bem pouca gente. Eu sigo acompanhando. Não desista, por favor. Os indígenas do Paraná precisam de você.

O Yago também gravou um documentário na aldeia dos Awa Guarani. Ele me mandou um áudio sobre o lançamento.

BAIXE O ÁUDIO DO YAGO

O Yago também me colocou em contato com o Cacique Ilson, lá em Guaíra, no oeste do Paraná.

Feliciano Lana: esse tempo um dia passa?


A situação é de chorar. É chocante ouvir o que os moradores da cidade fazem com os índios. Ninguém dá emprego, as crianças eram maltratadas na escola, antes da pandemia. O fato é que a situação deles já era de isolamento antes do COVID, em função do preconceito, da violência e… dos assassinatos, dos suicídios.

Não quero começar a enumerar mais uma vez porque a tendência é que nem se leia o tamanho da desgraça, diante de tanta informação que nos assola. Quem sabe ouvindo agora fique mais fácil de se colocar no lugar e esboçar reação.

BAIXE O ÁUDIO DO CACIQUE ILSON

Feliciano Lana: esse tempo um dia passa?

Não deixa a notícia voar com o vento.  Melhor. Deixa sim. Faz voar para os quatro cantos. Espalha. Faz participar da sua vida. Muda o jornal que você vê. Dá espaço para outra arte, outra música. Falando em música, lá no meu outro blog, PARA DE GRITAR ISSO SEU IRRESPONSÁVEL, escrevo um pouco sobre o grupo que tocou e cantou no último programa do Yago. Pelo menos, eu tento.

Depois de terminar esse post, enquanto eu buscava informação com o Cacique Ilson sobre o grupo musical, ele me passou uma mensagem que me deixou devastada, arrasada.  Se eu fiquei, imagina eles. Reproduzo lá no blog tanto a mensagem como um outro áudio maior que ele tinha me passado no dia anterior, antes de enviar a notícia do porque não ia conseguir me ajudar naquele momento.

POST DO PARA DE GRITAR ISSO SEU IRRESPONSÁVEL

Feliciano Lana: esse tempo um dia passa?

Imagens: reprodução das obras de Feliciano Lana

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

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