Sobre amor e amoras

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Sempre gostei de amoras. Mas elas ficaram ainda mais saborosas depois que vi minha filha comer uma, fresquinha, recém-colhida por mim da árvore em frente à nossa casa. Parecia uma dança, uma pintura, uma música. Arte pura. Os olhinhos revirando, a boquinha manchada, as mãozinhas agitadas, pedindo mais. Comemos muito mais. Talvez umas 50 delas. E a tarde foi embora, mansa, gostosa, leve, plena, vermelha. Caímos de amor pela árvore, que nos deu sombra, frutos, aromas, memórias, infância. Nunca mais uma amora foi apenas uma amora.

Dia desses, saímos despretensiosamente para caminhar pela ecovila onde moramos. E, primavera, encontramos frutas e mais frutas para fazer a vida mais doce. Nas pitangueiras, descobrimos frescores, nuances de alegria e prazer. Como pode um pedacinho tão pequeno de natureza carregar tanta informação? Uma mordida e mil estalinhos no cérebro, que rapidamente se espalham pelo corpo inteiro, banhando a alma de gratidão, de paz, de presença.

Sim, talvez seja isso! Comer fruta tirada do pé é se alimentar do presente, é trazer para o agora nossa consciência, nosso viver. É parar por um instante e sentir a vida pulsando, inteira, livre, dona de si. É, sobretudo, sentir a natureza dentro de nós, parte de nós. Ser pitanga também.

Gaia, minha filha, me ensinou a olhar ainda mais profundamente para nossa mãe Gaia. E, sempre, com o coração cheinho de amor, de alegria por estar aqui, entre pessegueiros e limoeiros, abacateiros e ingás. Tudo doce, tudo único. Sim, até os limões são doces no dom de nos surpreender sempre; quanto mais pensamos que conhecemos seu sabor, mais eles nos levam por trilhas nunca antes desbravadas…

Frutas são pedacinhos dos mistérios deliciosos da vida. Bem diferentes dos doces e guloseimas que muitas crianças comem por aí – porque os pais compram (e comem também), enchem os armários e esperam, dessa forma, tapar as ausências, a falta de tempo, de atenção, de amor e amoras.

Só que uma bala colorida artificialmente não tem o dom de elevar nosso espírito. Uma porção de caramelos com amido transgênico, açúcar branco e gordura trans não traz felicidade por mais do que cinco minutos – e deixa rastros nada saudáveis pelo corpo, pelo planeta também.

Do mesmo jeito, guloseimas sem glúten, chocolate vegano e pudim sem lactose são apenas complicações desnecessárias, invenções criadas pelo mesmo sistema de crenças que nos faz pensar que um produto industrializado pode ser melhor, mais gostoso, mais qualquer coisa do que… uma fruta, uma simples fruta. Mas tirada do pé. Colhida no hoje, no aqui e agora de um tempo que nos marca para sempre.

Sábado, 31 de outubro, será Halloween no hemisfério Norte e nos lugares colonizados por essa ideia de bruxas, abóboras assustadoras e crianças pedindo doces de casa em casa. Muito de nós está aí, nessa data repetida ano após ano, em muitas escolas brasileiras, sem qualquer tipo de crítica ou questionamento, ou investigação do sentido disso tudo ou mesmo do tal Dia do Saci… Escolas que pouco ou nada oferecem escolhas. Apenas repetem e multiplicam equívocos, cada vez mais sem sentido, sem propósito.

Seja o que for, como for, poucas vezes as opções de dieta têm fundamento em intolerâncias do organismo e da mente (da ética). Em geral, se repararmos, estamos mais para grandes (e tolos) compensadores de outros estragos que fazemos em nosso corpo. É a famosa mania de comer pizza com refrigerante diet e pavê light, achando que está tudo certo. E nada de frutas, nada de registros afetivos, de conexão com as árvores e suas belezas.

Por mais travessuras e menos doces, as crianças (e os adultos) bem que poderiam deixar de lado as guloseimas grudentas embaladas em papel e plástico. Elas merecem (e nós também) a chance de subir em árvores para apanhar sabores e experiências que constroem uma vida inteira.

Foto: Mauro Ganandi/Flickr/CreativeCommons

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

2 comentários em “Sobre amor e amoras

  • 19 de novembro de 2016 em 7:01 AM
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    Que bonitas reflexiones.
    Me ha encantado tu post, felicidades por tu bloc, tienes cosas muy interesantes.Elracodeldetall.blogspot.com

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  • 13 de março de 2017 em 11:56 PM
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    Muito bom. Tenho um pé de amoras aqui em casa…eu e meu neto disputamos quem vai comer a próxima amoramadura kkkk felicidades

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