Pandemia, crianças e nossa ideia de infância

Pandemia e infância

Levei dias pensando em como escrever sobre o que vivi – e vivo – com minha filha de 6 anos (recém-completados) nesta pandemia.

Tenho lido relatos de famílias enlouquecendo com as crianças em casa, fora da escola ou com aulas online, ainda improvisadas e que não suprem o esquema logístico de trabalho dos pais nem as carências e demandas dos pequenos em fase alguma da infância.

Cara, tá difícil mesmo! E é também complicado pasteurizar experiências que são tão únicas, querer colocar todo mundo no mesmo balaio. Não adianta, cada família vive uma realidade particular e as desigualdades sociais só aprofundam essa constatação.

Ainda que em graus diferentes, a pandemia atingiu a todos nós. Então, o que dizer, aqui, que possa fazer algum sentido para quem lê estas palavras?

Não sei, mas sinto que ouvir histórias de outras pessoas sempre leva a gente, de alguma maneira, a refletir sobre nossas próprias histórias e caminhos. E é o que vou fazer, despretensiosamente, combinado?

Faz anos que busco uma vida mais simples, conectada com coisas realmente essenciais pra mim. Trabalho em home office há 15 anos e passo bastante tempo em casa. Minha filha só foi para a escola aos 4 anos e meio. Frequentou um semestre e aí veio a quarentena.

Portanto, na vida dela, por enquanto, a regra é a casa, não a escola. Ela não sentiu tanto quando explicamos sobre a interrupção dos encontros com os amiguinhos e as idas ao parquinho da praça pública e outros passeios que eram bem comuns à família.

Pela não terceirização da infância

Em pouco tempo, notamos que ela continuava bem. Não sentia falta de quase nada e, mesmo reclamando de saudade da praia e da casa dos avós, lidava bem com a distância das pessoas queridas. Refletindo um pouco sobre isso, percebo que o cotidiano dela não mudou tanto assim com a pandemia.

Por diversas razões nunca entrei no esquema de terceirização dos cuidados com minha filha. Nunca tivemos uma babá, nem cursos extracurriculares para preencher a ausência dos pais no contraturno escolar, nem aquela coisa de deixá-la passar as tardes com a avó (ambas moram em outras cidades).

Somos nós (eu e meu companheiro) e ela. E nossos dois cachorros. Para ela, cinco seres que se amam e que adoram ficar juntos. E é essa ciranda que nos mantém firmes. Percebo que, para ela, esta roda está sempre aberta para incluir outras pessoas, mas quando fica restrita a nós três, tudo bem também.

Logo no início da pandemia, ela propôs: “Mãe, pai, que tal se a gente inventasse uma escola aqui dentro de casa? Vocês podiam dar aula para mim de várias coisas! Aula de letras, aula de números, aula de natureza, aula de piano, aula de culinária…”.

Aquilo soou para mim como um presente, uma noção precoce de que podemos aprender muitas coisas em todo lugar, e que isso extrapola as fronteiras da escola. Basta que nossos olhos estejam abertos para isso e que haja disponibilidade emocional e tempo para as trocas. É, pensando bem, não é pouca coisa ter tempo para criar uma infância assim, eu sei…

O quintal e a cozinha como salas de aula

Foi assim que decidimos que todos os dias teríamos “aulas” no quintal. Cada dia era uma coisa diferente. Fizemos uma hortinha de temperos em vasos, plantamos bananeiras, mamoeiros, tomateiros. Ela semeou flor de cosmos, plantou cebola, manjericão e batatas. Regou tudo direitinho, aprendendo que água precisa ser usada sem desperdício.

Tomávamos sol na grama com os cachorros, uns dez minutinhos, pelo menos. Sentíamos aquele calorzinho na pele e depois tudo terminava em banho de esguicho.

Na hora do almoço, ela vestia seu avental e começava a perguntar: “Como posso ajudar hoje? O que vamos fazer?” E ficava feliz quando cortava cenouras em rodelinhas (crianças acham o máximo usar faca), temperava com sal o arroz ou arrumava os pratos e talheres na mesa.

Quando fazíamos bolo ou pão, ela aprendia a matemática das xícaras e colheres, a química das combinações de ingredientes, as letras que descobria no caderninho de receitas.

Dia após dia havia sempre novidades. Ela descobriu que precisa ter cuidado para não cortar a mão ao pegar capim cidreira, que não gosta de segurar minhoca com a mão, que as vacas da fazenda em frente à nossa casa adoram comer folhas de manga, que nuvens escuras são sinal de chuva, que o sapo que mora embaixo da casinha dos cachorros faz um som legal à noite, que umas folhinhas de hortelã deixam qualquer suco mais gostoso e refrescante.

Brincamos de vendar os olhos e descobrir, pelo gosto e pelo cheiro, o nome de diferentes ervas da nossa hortinha: manjericão, orégano, alecrim, tomilho, poejo, hortelã, capuchinha… E ela achou o máximo não precisar da visão para desvendar esses mistérios.

O tempo da natureza

Por alguns dias, inventamos a pedido dela um borboletário. Em um vidro grande e deitado, colocamos algumas lagartas do quintal numa caminha de folhas fresquinhas e tampamos com um pedaço de tule. Elas cresceram, cresceram, mas antes que chegassem à fase de casulo, decidimos soltá-las. “Coitadinhas, né, mãe, melhor dar o quintal inteiro para elas, né?”

Tudo tem um tempo certo na natureza. E é preciso aprender a interpretá-lo. Como quando um dentinho de leite dela começou a ficar mole, mas o permanente já tinha despontado atrás dele. Liguei para a dentista dela e ela disse que precisava arrancar o de leite o quanto antes – em plena quarentena.

Achamos arriscado e talvez desnecessário. Consultamos um amigo e vizinho que é dentista, que conversou com uma amiga expert em tratamento infantil. A resposta: dá para esperar mais uns 20 dias, não tem problema. O dente vai cair e o outro que já nasceu encontra o lugar certo depois, naturalmente.

Mesmo com uma ponta de insegurança, resolvemos apostar na natureza. Depois de uns 20 dias ou um pouquinho mais, o dentinho de leite caiu. E o outro, cinco dias depois, já estava alinhado aos demais, como se tivesse nascido ali mesmo.

É momento de desaprender

Sabe, às vezes a gente se desespera e esquece de consultar esferas mais sutis do nosso ser, ou mais conectadas com a natureza… Foi assim quando atravessei o parto natural dela também.

Todo mundo ao redor dizia que era bobeira, que a ciência já permite à mulher não sentir dor para dar à luz uma criança. Depois, que amamentar é coisa dos primeiros meses, depois é preciso dar mamadeira para a criança não ficar mal acostumada.

Ai, ai, se tem uma coisa que a pandemia está tentando dizer a todos nós é que precisamos mudar. Precisamos mudar em muitas coisas.

É hora de uma grande transição, de reavaliar como criamos nossas crianças, para além do dilema ‘abrir ou não as escolas’. É momento de transformar a maneira como nos relacionamos com a nossa casa, com o sol, a lua, as estrelas, o jardim, com tudo ao nosso redor.

Precisamos resgatar e fortalecer nossa humanidade, de contar a elas sobre empatia, sobre ajudar quem precisa, de mostrar que, mesmo sem respostas, podemos caminhar.

Se queremos realmente atravessar a pandemia e ter boas histórias para contar a nossos filhos e netos, quem tem que voltar à “escola” neste momento somos nós, adultos, não as crianças.

Precisamos desaprender, jogar fora o que não funciona mais ou nunca sequer funcionou. Precisamos formatar nosso HD interno para liberar espaço a novas possibilidades, novos olhares e visões de mundo.

As crianças, na inocência e sabedoria delas, só esperam que cuidemos dos caminhos até lá. E é nosso dever fazer isso por nós e por elas.

Foto: Charlein Gracia/ Unsplash

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

2 comentários em “Pandemia, crianças e nossa ideia de infância

  • 10 de fevereiro de 2021 em 6:40 PM
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    Uma sortuda a sua filha, Giuliana, matriculada nessa escola chamada Lar de Vocês. Incluindo os cachorros, vocês são uma equipe que trabalha, ensinando e aprendendo com a Pandemia o que ela tem de transcendente para nos fazer melhores e mais justos. Nota 10 pra vocês, com louvor.

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  • 11 de fevereiro de 2021 em 8:47 PM
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    Estou impressionado com seu trabalho. Muito bom.

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