Sobre as coisas que realmente importam

No fim do ano passado, eu, meu marido e minha filha fizemos um ‘pote de desejos’ para 2020. Era 31 de dezembro de 2019. E o ano novo se anunciava para nós com promessas incríveis de um ano cheio de boas surpresas e realizações, depois de um período longo de desafios intensos.

Em dez minutos, escrevemos desejos em papéis pequenos, dobramos e colocamos em um pote de vidro com tampa. Cada um registrou os seus desejos. Minha filha, na época com 4 anos, desenhou os dela, me pedindo para escrever uma palavra ou outra, quando achava necessário.

Esta semana, meu Deus, ela lembrou do tal pote de desejos e quis abri-lo. Também costumo ser curiosa nessas horas, mas, desta vez, tive receio de abrir e me deparar com os desejos não realizados deste ano tão surreal.

Mas não teve jeito. Ela quis ver tudo, tu-di-nho. Estávamos tomando o café da manhã. Nesse horário, em geral, sou mais sensível do que de costume, talvez por não ter ligado ainda as amarras todas da mente que vou acionando aqui e ali ao longo do dia (para poder “dar conta” das coisas todas).

Enfim, peguei o primeiro papel e vi um desenho da filhota com coqueiro, barquinho e sol. E uma frase escrita por mim: “Em 2020, quero ir mais vezes para a praia”. Tremi na base. E fui logo para o segundo papelzinho, com a minha letra: “Este ano quero visitar minha mãe, meu pai, minha irmã e minha avó ao menos uma vez por mês”. Minha família toda mora em outras cidades. Chorei de saudade e de frustração.

Meu marido percebeu o drama e tomou a frente. “É, este ano a pandemia dificultou muito os nossos planos, Gaia. Mas vamos fazer assim, a gente vai separando os desejos em dois montinhos: os desejos realizados e os não realizados por causa da pandemia. E aí a gente guarda estes para quando o coronavírus for embora”.

Acho que eu estava mais triste e abalada do que a minha filha. “É, papai, essa covid estragou tudo mesmo. Mas deve ter aqui algum desejo que a gente conseguiu realizar, né? Vamos continuar procurando”, ela disse, com firmeza.

Saúde, paz e amor

E continuamos a brincadeira com direito a lágrimas e calafrios. “Desejo trabalhar mais e ganhar mais $$ para viajar mais vezes”. Ops… “Desejo ver os amigos com mais frequência”. Ai, ai, ai…

Mas, de repente, para meu alívio, surgiram outros desejos. “Desejo que nossa família tenha muita saúde em 2020”. Ufa! Todos rimos e realmente agradecemos pelo privilégio conquistado. Ter saúde em 2020 é quase como ganhar na loteria.

“Desejo não brigar mais tanto com minha mãe e meu pai”. Socorro… “Desejo que nossos cachorros tenham um ano alegre, com saúde e muito amor”. Ai, que fofo. Minha filha: “Mãe, esse desejo também deu certo! Que bom, né! Que legal!”

E assim terminamos de ler os papéis, intrigados de ver que os pedidos mais singelos acabaram sendo os mais importantes, mais celebrados, mais viáveis, mais realizados.

Nem preciso dizer que 2020 foi desafiador. Foi muito.

E 2021 nos espreita com a mesma tecitura, a mesma trama de fios que teremos que trabalhar arduamente, dia após dia, sem pressa e com os pés firmes no chão, na terra. Precisaremos de raízes fortes para poder voar assim que for possível…

Renovamos nosso pote de desejos para 2021, com menos expectativas, mas não com menos esperança. E com um pedido novo que não poderia ficar fora do pote: “Mãe, posso pedir que o vento leve embora esse coronavírus chato?. Sim, filha, pode. Nós vamos fazer a nossa parte, com certeza. E que cada um de nós possa entender a urgência e a importância de fazer o mesmo.

Foto: Neil Bates/Unsplash

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Um comentário em “Sobre as coisas que realmente importam

  • 17 de dezembro de 2020 em 5:00 PM
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    2020 nos fez descobrir tesouros onde supunhamos não existiam porque estávamos ocupados demais garimpando no deserto, enquanto eles brilhavam dentro de nós.

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