Os produtos ecológicos e a lógica consumista

Quinze anos atrás, quando comecei a escrever sobre sustentabilidade, não era fácil encontrar produtos ecológicos nas prateleiras das lojas. Eles estavam começando a surgir aqui e ali, mas nem faziam cosquinha no mercado. A escala de produção era bem reduzida e os preços, em geral, muito mais altos do que qualquer versão convencional.

Era para poucos, para quem podia pagar e queria apoiar essas iniciativas. O design dos produtos nem sempre era um primor. A matéria-prima mais ecológica se sobrepunha em importância à cara final do produto. Levou tempo até um encontro mais harmonioso entre materiais e design. E tudo bem, as experimentações foram muito importantes e chegamos até aqui graças a esse caminhar.

Lá atrás, os produtos ecológicos eram vistos como “alternativos”. Com o tempo passaram a ser “tendência” e agora, em certas rodas, são a referência, a norma, a regra. Não oferecer produtos ecológicos já é um problema real para muitas empresas. Que bom!

Revolução ou mais do mesmo?

A questão é que esse boom dos produtos ecológicos acontece dentro do mesmo sistema econômico de sempre. Touché! Não desconstruímos o capitalismo. Não revolucionamos o mercado. Criamos apenas mais uma categoria possível para as nossas compras.

Prova disso são as grandes corporações que agora vendem dois mundos: a mesma marca vende molho de tomate convencional (com tomates importados da China ou provenientes do agronegócio que desmata para ampliar fronteiras e lucra em cima de trabalho precário) e a versão orgânica com certificado, imagem de empresa do bem e tudo mais.

Citei tomates aqui mas o mesmo vale para vestuário, itens de decoração, cosméticos, produtos de limpeza e o que mais você quiser acrescentar nessa lista. Substancialmente, a empresa não mudou sua maneira de encarar o negócio. Ela somente abriu mais um nicho, mais uma vertente para lucrar.

Não houve uma mudança de modo e de ética de produção como um todo, mas apenas uma ampliação de suas possibilidades de lucro. Quem pode pagar pelo bom, limpo e justo, paga. Quem não pode, continua comendo veneno e tudo bem, né? Tudo bem, mesmo? Claro que não, mas este é outro assunto…

Consumo sustentável ou elitista?

Voltando para o lado do consumidor, é óbvio que, hoje, temos escolhas melhores e uma diversidade de produtos ecológicos infinitamente maior do que há 10 ou 15 anos atrás.

E aí mora um perigo: reproduzir padrões consumistas nas compras de produtos ecológicos.

Não é de hoje que percebo uma elite “sustentável” consumindo roupas de algodão orgânico, móveis com madeira certificada, sapatos com materiais inovadores feitos às vezes até em parceria com comunidades tradicionais e povos originários etc.

Enfim, uma gama enorme de produtos verdes bacanas. Mas pergunto: qual é a sua motivação para a compra? Quantos sapatos você já tem em casa? Precisa de mais, sempre mais?

Quando temos no mercado produtos “do bem” ganhamos a indulgência ou a absolvição de qualquer culpa (ou responsabilidade) consumista? Creio que não deveria ser assim.

Tenho cá, pra mim, a mesma pergunta antes de qualquer compra: preciso mesmo disso? Preciso realmente de mais um vestido ou mais uma bolsa? Se já tenho um bom piso na sala preciso trocá-lo por outro mais ecológico? Por quê?

Sabe, vivemos tempos de muitas aparências, muita coisa fake, muita gente robotizada que perde o lado humano porque virou mercadoria na internet.

Tem gente “se vendendo” por aí o tempo todo. Vendendo um estilo de vida, vendendo um jeito de se vestir, vendendo a imagem da pessoa descolada e ativista por esta ou aquela causa.

Ainda acho mais profundo quando a consciência do consumo nos diz “não compre” ou “resista à tentação de querer mais um” ou, melhor ainda, “não preciso disso e estou bem assim”. Entende a diferença?

Uns bons anos atrás, conheci uma educadora ambiental que tinha um guarda-roupa que cabia numa mala de viagem. Verdade. Devia ter no máximo umas 30 peças. E ela estava sempre linda.

Antes de encontrá-la, eu ficava brincando de adivinhar com que roupa ela estaria naquele dia. Era fácil acertar. E daí? Em que isso muda a importância de sua voz, de sua expressão no mundo?

Coração cheio e sacola vazia

Para mim, ela era uma inspiração, uma barreira natural e um enorme “não” diante desse estar no mundo que gira em torno do consumo, do ter sempre mais e mais.

Outra coisa, tão ou mais importante: infelizmente, comprar produtos ecológicos ainda é um privilégio para poucos. Então, pensa comigo, essa lógica só aumenta o abismo da desigualdade social.

É aquela história: quem tem grana mostra isso o tempo todo. E gosta disso. Mostra usando a calça de algodão orgânico cru de R$ 300 e o tapetinho de yoga feito de couro vegetal que custa R$ 800.

Num mundo com tanta desigualdade isso pra mim é ostentação. E a palavra em si é um tanto pejorativa mesmo. Não é bacana, não é algo bonito.

Há limites até para o consumo de produtos ecológicos. Porque eles vivem também da moda, do estímulo à recompra. É igualzinho.

Agora que temos um mercado cheinho de produtos verdes está na hora de darmos um passo além. E isso significa nos mantermos atentos para pressionar e reduzir a produção e o consumo de bens e serviços insustentáveis.

Mas também sermos eternamente diligentes em relação às nossas escolhas. A melhor delas, quando já temos teto, comida e afeto, ainda é manter a sacola vazia.

Foto: Hello I’m Nik/Unsplash

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

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