‘Órfãos do Leite’: caso das búfalas de Brotas inspira curta-metragem que revela impacto devastador da indústria de laticínios nos animais

Há cerca de três meses, muita gente pelo Brasil – e fora dele – se comove diariamente com a história das búfalas de Brotas e seus filhotes, encontrados em estado de completo abandono – com fome, sede e sem assistência veterinária – na fazenda São Luís da Água Sumida. Alguns mortos, outros agonizando, e a maioria em estado de inanição.

O caso é considerado por especialistas como um dos maiores massacres de animais do país – eram mais de mil fêmeas e filhotes! – e, desde novembro de 2021, tem mobilizado voluntários e autoridades comprometidos em salvar os animais e fazer Justiça (veja as reportagens que publicamos, indicadas no final deste post).

Neste cenário, a comunicação incansável de todas as ações, vitórias e perdas desta história tão comovente – nas redes sociais e na imprensa – tem sido uma grande aliada para ampliar a consciência a cerca do sofrimento dos animais na produção de laticínios

E, hoje, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), que acompanha o caso desde a denúncia e tem contribuído efetivamente com essa divulgação, escreve mais um capítulo importante desta história ao lançar o curta-metragem Órfãos do Leite, inspirado nas búfalas e filhotes de Brotas.

O documentário apresenta a realidade cruel desses animais e faz um apelo pelo veganismo

“Ele é voltado para a ética animal, mas vai além de propor que evitemos o sofrimento de mães e filhotes”, conta Larissa Maluf, coordenadora de comunicação da organização, que trabalhou como voluntária em Brotas e é responsável pelo roteiro, direção e apresentação do filme.

“No final, traz uma mensagem da Alessandra Luglionutricionista e colaboradora da SVB, que explica que é possível e benéfico ser vegano. Não adianta a gente dizer isso e não dar ferramentas pra pessoa fazer a mudança”.

O vídeo tem 13 minutos e foi produzido com imagens captadas pelos voluntários, desde a época da denúncia e do resgate, mas também profissionais, produzidas pela videomaker Natália Moraes.

Foi lançado hoje em live às 18h30. E já está disponível no YouTube da organização, com legendas em português, inglês e espanhol.

“Só interessa o leite da mãe”

“A gente quis fazer um recorte sobre a temática do queijo a partir desse caso. Independente da maneira como as fêmeas são tratadas nessa indústria – muitos produtores falam ‘ah, mas respeitamos o bem-estar animal’ –, elas sempre são mães! Sempre há filhotes que são privados do contato com a mãe, de viver ao lado da mãe e que, muitas vezes, são descartados: abatidos ou abandonados para morrer”, conta Larissa.

“Existem santuários, como o Vale da Rainha, que abrigam bezerros que os produtores deixam para morrer. Para eles, não compensa manter o animal vivo, só interessa o leite da mãe, por isso, os abandonam. Isso não é legal, claro, mas é comum”, completa. 

A ideia de se produzir um filme é da Larissa, e aconteceu durante uma reunião virtual da qual ela e os colegas da SVB, que a acompanhavam em Brotas, participaram com Ricardo Laurino e Mônica Buava, respectivamente presidente e diretora executiva da organização.

“A Mônica lembrou que, em 2015, por causa de um acidente no Rodoanel, a SVB se uniu à Mercy for Animal para lançar o Desafio 21 dias sem Carne, que continua ativo e tem um site. Foi uma maneira de fazer com que as pessoas tivessem o ímpeto de mudar hábitos. E ela comentou que precisávamos pensar em algo para que o caso de Brotas não caísse no esquecimento”.

Larissa sugeriu a produção de um curta-metragem e, como título, a expressão órfao do leite, que não saia de sua cabeça desde que a usou no texto do vídeo gravado para o perfil das búfalas, no Instagram, com o filhote Tupi. É ele que ilustra o pôster do documentário e este post.

Ao final da reunião, a ativista ainda ouviu Alex Parente, diretor da ONG ARA, que detém a tutela desses animais e também aprovou a ideia.

Tupi, o órfão símbolo de resistência

Assim que ganhou o nome Tupi, o filhote se livrou dos brincos que o identificaram durante o tempo de maus tratos / Foto: Larissa Maluf

Em novembro, o filhote identificado pelo número 1709 foi encontrado sozinho no pasto, sem a mãe, que estava morta: “ele chamava por ela e comoveu a todos nós”, conta Larissa.

Tupi resistiu bravamente aos maus tratos devido ao tratamento e à atenção que recebeu dos voluntários. Mas partiu esta semana, na quarta-feira, 21/2.

“Ele nunca se recuperou, de fato. Provavelmente, ficou sem a mãe logo que nasceu, não deve ter mamado o colostro. Não resistiu, apesar de todos os cuidados”, lamenta a publicitária. 

Tupi com sua mãe adotiva, Iracema / Foto: Larissa Maluf

Um tempo depois que a ONG ARA assumiu os cuidados do rebanho, que pode andar livremente por uma ampla área na fazenda, Tupi foi adotado por Iracema, uma das búfalas mais velhas do rebanho, e ganhou um irmãozinho, Guarani, também acolhido por ela. Os três estavam sempre juntos.

Que benção ele ter tido a oportunidade de ser bem cuidado e amado, antes de partir. 

Um convite ao veganismo

O movimento por uma alimentação sem produtos de origem animal só cresce no Brasil. Em boa parte devido à informação de qualidade que circula e à forma como essa comunicação é feita. Mas ainda é uma luta espinhosa, também quando o objetivo é reduzir o consumo de laticínios.  

“É mais difícil as pessoas deixarem de comer queijo do que carne”, revela Larissa. E o caso de Brotas tem sido um grande aliado na transformação dessa realidade.

“Eu recebia muita mensagem das pessoas que acompanham as búfalas por causa da Carequinha. Muitas diziam: ‘depois de ver a cena dela no pôr-do-sol, eu não consigo mais comer queijo. Mussarela de búfala, então…’. A reação foi muito instantânea. No supermercado de Brotas, uma atendente contou que a mussarela de búfala não estava saindo mais. As pessoas pararam de comprar”. 

(Carequinha era idosa e foi a primeira búfala a falecer no hospital de campanha – como contamos aqui – montado na fazenda, depois de apresentar melhoras e ser flagrada, em vídeo, contemplando o sol)

Larissa conta que tornou-se vegetariana em 2013 e não via necessidade de tornar-se vegana, até o dia em que assistiu a um vídeo, que mostrava o momento em que uma vaca paria e o bezerrinho era imediatamente tirado dela. 

“Naquele momento eu fiz a conexão: meu deus, ela é uma mãe! Não consumi mais queijo. E, agora, fazer parte deste projeto do curta é como se eu dissesse ‘aconteceu comigo’. O que falta é as pessoas fazerem essa conexão, principalmente as mulheres”.

Nem cara, nem inacessível

Larissa Maluf também revela que, para tocar as pessoas, é imprescindível evitar dizer o que não podem comer.

“Quando você diz o que ela tem que tirar, é mais difícil. Na SVB, a gente diz tudo que as pessoas podem comer e não o que não podem! E abrimos o leque de opções vegetais, que é a comida que a gente compra no hortifrutti, é o arroz e feijão, as frutas, as castanhas, tudo que é fácil de encontrar em qualquer cidade”. 

Ela ainda acrescenta que os argumentos de quem resiste ao veganismo, em geral, focam no preço – “ah, é muito caro!” – e na dificuldade de encontrar os alimentos – “na minha cidade não tem comida vegana!”. Mas todos caem por terra assim que as pessoas entendem que comida vegana é a comida do seu dia a dia, que pode ser acrescida de outros alimentos menos comuns, enriquecendo o cardápio.

Para a nutricionista Alessandra Luglio, “uma alimentação 100% à base de vegetais, que exclui todos os alimentos de origem animal, não somente é possível como também é comprovadamente uma das formas mais efetivas de você cuidar da saúde”.

A Sociedade Vegetariana oferece, em seu site, uma série de receitas gostosas. E, para completar sua missão, mantém um projeto de capacitação para profissionais de saúde, com o qual visa transformá-los em aliados e multiplicadores.

A seguir, assista ao curta-metragem e também à live promovida pela SVB para lançar o documentário. A conversa reuniu Ricardo Laurino, Larissa Maluf e Patrícia Marin, da SVB, e Eveline Paludo, que integra a equipe de advogados responsáveis pelo processo das Búfalas de Brotas. Foi um encontro muito agradável e esclarecedor, vale muito assistir.

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Foto (destaque): Natália Moraes

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.