Ato pacífico pelas búfalas de Brotas questiona maus tratos e exploração animal, em São Paulo

A imagem linda acima foi feita pelo fotógrafo Gregory Fenile na fazenda onde mais de mil búfalas foram abandonadas à própria sorte, em Brotas, como contamos aqui. O animal retratado e a abundância de água à sua frente dão a dimensão do que o amor e a compaixão podem fazer por qualquer ser vivo.

O trabalho dos voluntários já começa a dar frutos e a encher de alegria e esperança todos que torcem e trabalham – também os doadores!!! – por um futuro digno para estes animais.

E, por isso também, é tão importante que todos que puderem compareçam à mobilização do próximo domingo, 28/11, a partir das 13h, em frente à Bolsa de Valores de São Paulo, B3 (no centro: Rua 15 de Novembro, 275), por ativistas de organizações em defesa da causa animal, como a Mercy For Animals (MFA). Acompanhe o movimento Búfalas de Brotas, no Instagram.

Ou compartilhem a mobilização em suas redes sociais e divulguem entre amigos e parentes que estarão na capital paulista.

O local foi escolhido devido à presença do polêmico touro dourado, inspirado no touro de Wall Street, em Nova York, que foi instalado este mês pela B3, tanto que a manifestação foi chamada inicialmente de Touro de Ouro, Búfalas de Pele e Osso (veja o convite no Facebook).

A estátua provocou as mais diversas reações do público: de selfies a protestos de ativistas de direitos humanos. E foi removida por ordem da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU), órgão da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) de São Paulo, que julgou a instalação, que não tinha licença urbanística, como peça publicitária.

Mas isso não alterou a programação do ato pacífico (acompanhe seu Instagram ANIMAL NÃO É COISA!), que deve durar pouco mais de uma hora. Em seguida, os participantes farão uma caminhada de pouco menos de 1km, pelas proximidades – Quitanda e Álvares Penteado, Largo do Café, Rua São Bento, Mosteiro de São Bento e Praça Antonio Prado – com retorno ao endereço original.

O objetivo da mobilização é chamar a atenção do público para os maus-tratos e a exploração que têm afligido as 1.056 búfalas. além de 72 cavalos e 72 ovinos, encontrados sem água, alimento e cuidados na fazenda Água Sumida, de propriedade do psicanalista Luiz Augusto Pinheiro de Souza, localizada em Brotas, a 245 km da capital paulista. E também defender todos os animais que são explorados pela pecuária.

“Não podemos aceitar mais que os animais sejam submetidos a condições exíguas e extremas para produção contínua de leite e seus derivados para, na sequência, serem descartados e levados para o abate”, alerta Luiza Schneider, vice-presidente de investigações da Mercy For Animals, organização que trabalha no combate à exploração de animais para consumo e é uma das organizadoras da manifestação do próximo domingo (acompanhe mas redes sociais: Instagram, Facebook e Twitter).

A MFA já documentou situações graves como vacas doentes definhando por dias sem cuidado até serem levadas ao abatedouro e bezerros violentamente separados de suas mães horas depois de nascer.

“A responsabilização do fazendeiro em Brotas foi um passo importante, mas a conscientização do público sobre o que acontece com os animais antes que seus produtos cheguem até o prato é muito importante para evitar que situações assim se repitam”, complementa Luiza. 

Repercussão

O caso das búfalas de Brotas ganhou repercussão nacional e tem despertado o interesse do público pelas redes sociais, impulsionado também pelo engajamento de personalidades e pessoas influentes que se indignam publicamente e cobram uma solução.

O ator Sergio Marone foi um dos primeiros a oferecer seu perfil no Instagram para falar do assunto: ele conversou com Patrícia Varela Favano, do Santuário do Vale da Rainha, uma das ativistas que lideram o movimento em prol das búfalas. Bela Gil, a apresentadora Xuxa, o ator Emiliano D’avila, as atrizes Maria Casadevall e Luana Piovani se manifestaram em suas redes sociais.

A ativista Luisa Mell visitou o local para mostrar as condições precárias dos animais para seus seguidores e participou das ações de recuperação das búfalas, com os voluntários na fazenda.

Como ajudar 

As búfalas de Brotas estão sendo cuidadas por ativistas e profissionais de diversas ONGs, que precisam de apoio financeiro diário para a compra de alimentos e medicamentos, pagos apenas com recursos de doações.

Quem puder contribuir, deve fazê-lo diretamente para a conta da ONG ARA, anote:
– PIX: CNPJ 14.732.153/0001-38
– Banco Cora SCD 403 – Agência 0001 – Conta 1372147-8. As doações também podem ser feitas por PAYPAL para ahimsa@svr.org.br , e o comprovante enviado por inbox no Instagram do movimento Búfalas de Brotas.

Búfalas de Brotas

Foi cenas como esta que os membros da Polícia Ambiental encontraram na fazenda Água Sumida, em Brotas, no início de novembro / Foto: Divulgação

Relatei a história das búfalas em 22/11. E, agora, faço um resumo, com algumas atualizações.

Há pouco mais de 15 dias, Alex Parente, da ONG ARA – Amor e Respeito Animal, encontrou as búfalas em estado total de abandono, algumas mortas, e, junto com a advogada Antília Reis, denunciou o caso à justiça de Brotas.

O fazendeiro Luiz Augusto Pinheiro de Souza explorava as búfalas para a produção de mussarela e, por isso, as inseminava artificialmente. Cerca de 90% delas pode estar grávida e há vários filhotes no rebanho. Mas, em janeiro deste ano, decidiu arrendar suas terras para a plantação de soja e milho e abandonou os animais, sem água, sem alimento ou qualquer cuidado. E também acionou as cercas elétricas para evitar que fugissem.

A polícia ambiental esteve no local, constatou os maus-tratos e o processo começou a correr. O fazendeiro foi multado em mais de R$ 2,13 milhões por crime ambiental (recorreu, claro!) e foi preso. Pagou fiança e responde ao processo em liberdade. De acordo com a Agência Estado, o fazendeiro foi multado novamente pela Polícia Ambiental, em 24/11, por maus-tratos. A nova multa é de R$ 1,45 milhão.

Alex recebeu tutela provisória dos animais, válida por 15 dias, e a Justiça ainda determinou que o proprietário deveria arcar com os custos da sua recuperação e facilitar a entrada dos voluntários em sua fazenda, assim como liberar o uso de seu maquinário. Mas ele não acatou a lei (segundo a Agência Estado, seu advogado, Célio Barbará da Silva, alega que, se a ONG ARA tem a tutela dos animais, deve se responsabilizar por eles).

Dias depois, os voluntários foram expulsos da fazenda – tiveram que desmontar o acampamento e o hospital de campanha já instalados -, e os advogados declararam que apenas dez pessoas poderiam entrar para cuidar das búfalas necessitadas. Os animais ficaram novamente abandonados. Até que, no dia seguinte, a polícia esteve na fazenda novamente, constatou mais arbitrariedades e prendeu o administrador e um capanga. O fazendeiro não estava presente, mas os três foram enquadrados no artigo 288 do Código Penal por “associação criminosa”.

Sem a ajuda de maquinário, voluntários tentam tirar búfala enfraquecida, que atolou / Foto: Diivulgação/Mercy for Animals

Os voluntários puderam voltar à fazenda e, desde então, têm conseguido tratar melhor das búfalas – algumas já dão sinais de recuperação, apesar de ainda muito magras! -, com mais estrutura e melhores condições devido às doações que não param, ao apoio da prefeitura (que, entre outros serviços, fornece agua potável todos os dias) e da polícia, sempre atenta, com visitas diárias ao local.

Cerca de 200 búfalas podem ter morrido – ainda não há um número oficial -: 22 foram encontradas amontoadas numa vala! E muitas ainda não foram encontradas pelos voluntários. Cavalos e ovinos também não. A propriedade é muito grande: são mais de mil hectares. Eles aguardam a possibilidade de ter um helicóptero para identificar os locais exatos onde ainda vivem animais.

Paralelamente, um coletivo de advogados, liderado por Antília Reis, trabalha para dar andamento ao processo na justiça contra Luiz Augusto. Fazem parte o advogado, biólogo e ambientalista Reynaldo Veloso, que é presidente da Comissão de Proteção Animal da OAB/RJ, e a advogada criminalista Fernanda Touchman.

Indico que vcs assistam a live realizada por Patrícia, do Santuário Vale das Rainhas, com Diogo Fernandes, gerente de mobilização da MFA, e Dani Gorgatti, uma das idealizadoras da manifestação de domingo, que reproduzo no final deste post.

Búfalas no Brasil  

Foto: Diivulgação/Mercy for Animals

Exploradas para produção de carne, leite e derivados. Este é o destino de qualquer búfala, como as de Brotas, no Brasil. Essa indústria ainda é pequena se comparada à indústria do leite de vaca, mas algumas práticas cruéis são comuns nas duas atividades: a gravidez recorrente para produzir leite e a separação dos seus filhotes. Além disso, vacas e búfalas têm o mesmo destino final: o descarte no abatedouro

De acordo com informações da Embrapa, a população de búfalos no Brasil é estimada em 1,4 milhão de animais. Em todas as regiões há criações, divididas assim:
– o Pará concentra 45% dos animais,
– 65% do total das criações está no Amazonas e Amapá; e
– Rio Grande do Sul e São Paulo também se destacam nessa produção.

12,5% da produção mundial de leite vem da produção de leite de búfala, que é o segundo mais produzido. No Brasil, são cerca de 83,5 milhões de litros produzidos por mais de 75 mil búfalas exploradas em 3,3 mil fazendas!!!

E aqui valem duas curiosidades, destacadas pela Mercy For Animals:
– o búfalo foi introduzido no Brasil no final do século passado, na ilha de Marajó, no Pará, e assim permaneceu durante muito tempo. Sua exploração no país – para carne e leite – é recente. 
– a indústria da carne e leite, no Brasil, considera os búfalos animais “rústicos”, portanto, capazes de se adaptar e manter sua produção em qualquer condição ambiental, até́ mesmo em situação de escassez de alimento. Por isso, é muito comum o descaso cuidados com esses animais sensíveis e inteligentes. 

Agora, assista à live sobre a mobilização de domingo com Patrícia Favano, Diego Fernandes e Dani Gorgatti:

Com informações da Mercy For Animals e do movimento Búfalas de Brotas

Foto (destaque): Gregory Fenile

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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