Mexendo em alguns arquivos outro dia, reencontrei projetos que proporcionaram meu primeiro contato com o universo da economia solidária, intermediado por um grande amigo chamado Ivo Pons (na foto que ilustra este texto, ele está mais à esquerda, com camisa xadrez).
Ivo integra a Design Possível, uma rede de projetos, empreendimentos e causas que congrega vários temas que “dão liga”. Quando o conheci, ele era um jovem professor no Mackenzie e já buscava conectar design e economia solidária. A rede surgiu a partir de uma atividade de extensão, em cooperação internacional com a Universidade de Firenze, na Itália, cujo objetivo era aproximar o design e comunidades produtivas, áreas que tradicionalmente não tinham esse contato.
Durante o período em que coordenei o setor de comunicação na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, criamos e desenvolvemos várias ações e campanhas que demandaram a contratação de produtos e serviços diversos, e sempre busquei priorizar os grupos produtivos de economia solidária. A rede Design Possível lá estava sempre como parceira para intermediar esse contato e como criadora de cenografias e projetos nessa pegada do design associado à produção dos empreendimentos solidários.
E foi assim com as Mostras de Boas Práticas Ambientais realizadas no Parque Ibirapuera e no Parque da Luz, na capital paulista, nas quais buscamos dar visibilidade à riqueza da produção de diversas associações e arranjos desse tipo de economia. O mapeamento desses grupos produtivos e toda a parte de criação e design das Mostras foram realizados em parceria com a Design Possível a partir de uma concepção conjunta de visão de mundo e políticas públicas que queríamos sinalizar.
Foi assim também com a campanha Eu Não Sou de Plástico, idealizada para promover o necessário debate sobre os malefícios do uso indiscriminado das sacolas plásticas e seu descarte no meio ambiente sem o devido cuidado. A movimentação começou com o terceiro setor, envolvendo ONGs na criação de sacolas retornáveis, e acabou envolvendo o mundo da moda com a participação da jornalista Lilian Pacce, que conquistou o engajamento de estilistas numa exposição com o mesmo nome.
Toda a cenografia da exposição foi produzida pela Design Possível, que também envolveu nesse processo alguns empreendimentos solidários, tais como os grupos Arrastão e Cardume de Mães, que produziram as sacolas de algodão distribuidas durante a campanha, que ainda hoje são vistas vez ou outra circulando pela cidade.
Também para o lançamento da campanha Segunda sem Carne usamos a mesma metodologia. A Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) procurou a Secretaria do Verde para lançar esse movimento no Brasil. Criamos, então, em parceria com a SVB, o slogan e a arte que passariam a ser amplamente utilizados pelo país. Para o lançamento, promovemos várias atividades em um fim de semana no Parque Ibirapuera, o que incluiu a criação de uma cenografia atrativa para a Marquise do Parque, que foi a base para divulgar as informações e a programação. Essa cenografia foi também desenvolvida pela Design Possível e grupos solidários.
“A gente é parte dessa bolha da economia solidária, uma bolha dentro do capitalismo, de busca de iniciativas diferentes. Florescemos em paralelo até descobrir esse tipo de economia, buscando superar as barreiras do design e desenvolver coisas novas, incluindo relações governamentais e gerando alternativas para a cidade. Hoje somos uma rede de empreendimentos com articulação mais horizontal, que inclui diversas iniciativas”, define Pons.
O estabelecimento dessa rede solidária e de uma metodologia de criação coletiva, envolvendo terceiro setor e poder público, proporcionou uma experiência inovadora que contribuiu também para dar visibilidade a toda essa produção que existia na cidade de São Paulo e na Região Metropolitana. E me abriu janelas para a riqueza produtiva e criativa da economia solidária.
“Somos uma espécie de mola, agrupando pessoas e buscando dar oportunidades às ações do governo. Os grupos produtivos não têm essa clareza sobre os mecanismos do governo. Muitas vezes, é preciso desvendar isso com eles. Já o poder público, por outro lado, tem dificuldades operacionais. No trabalho com a Secretaria do Verde conseguimos fechar várias coisas dentro de um projeto comum. Os temas e a articulação eram bons e tínhamos objetivos comuns. Foi um período de muito aprendizado pra gente. De aceitar grandes desafios e mostrar que éramos capazes de realizar. Até hoje essa é uma marca em relação aos desafios que os grupos produtivos têm condição de enfrentar. É uma referência”, salienta Pons.
Este ano, a rede Design Possível completa 14 anos. Em seu DNA estão sempre a mudança, a busca pela inovação e o agregar projetos parceiros e complementares. Pessoas que integraram projetos ao longo dessa trajetória criaram suas próprias iniciativas e isso foi se conformando em uma rede. Hoje, a Design Possível participa de projetos com a Central de Cooperativas e Empreendimentos Econômicos e Solidários (Unisol Brasil), com as secretarias municipais do Trabalho e de Assistência Social em São Paulo, com a iniciativa privada e o terceiro setor.
A Nossa Causa, nova sede-projeto da Design Possível, agrega uma série de projetos em áreas variadas como tecnologia, mobilidade, direito à cidade, imigrantes, feminismo, plantio, entre outras. Iniciativas que acabam se esbarrando de uma forma ou de outra, e a economia solidária está sempre presente. Foi de lá que saiu também um projeto sobre o qual já comentei aqui no blog: o Mapa do Consumo Solidário.
E a inquietação que originou tudo isso – aplicar o design às comunidades produtivas – vingou. A prova disso é a participação da economia solidária em dois eventos importantes de design, na capital paulista, no mês de agosto, sobre os quais falei no post anterior: Craft Design e Design Weekend.
A Design Possível vem hackeando o sistema para que a economia solidária se firme como alternativa aos modelos tradicionais.
Foto: Divulgação