Você diria não a uma girafa rosa?

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Essa pergunta é parte da estratégia de pesquisa do comportamento do consumidor para o projeto Mapa do Consumo Solidário.

Muitas vezes, em feiras de economia solidária, encontrei pessoas que se interessavam pelos itens de artesanato e alimentação vendidos, se encantavam com as histórias por trás daqueles produtos e davam preferência, de fato, aos cadernos feitos à mão com técnicas básicas de encadernação por empreendimentos solidários. Em grande parte, essas pessoas estavam de passagem pelo local (essas feiras muitas vezes são realizadas em parques, praças, ruas, locais de passagem por definição) ou se programaram, tal qual um passeio de fim de semana, para lá estar, seja porque foram convidadas por pessoas conhecidas ou por terem curiosidade em relação ao tema.

É fato que as pessoas demonstram interesse e se revelam dispostas a consumir os produtos de economia solidária. E foi a partir do desejo de conectar empreendimentos e iniciativas de economia solidária com seu público que surgiu o projeto Mapa do Consumo Solidário. A ideia é facilitar o acesso do consumidor aos grupos empreendedores, apontando – por meio de uma base de dados georeferenciada – os empreendimentos solidários mais próximos, numa rede de colaboração para o consumo responsável.

Financiado pelo programa Vai Tec, da Agência São Paulo de Desenvolvimento (ADESAMPA), o projeto foi elaborado por Erica Ribeiro – integrante do Design Possível – em 2014 e está em desenvolvimento agora.

“Na época em que inscrevi o projeto no Vai Tec não conhecia nenhuma plataforma web que conectasse os empreendimentos de economia solidária com seus consumidores, parceiros e possíveis financiadores de forma rápida e simples. A única plataforma que existia era a Cirandas, que é muito robusta e pouco acessada, então essa foi minha motivação na época. Só que, de lá para cá, meu contexto para a realização do projeto mudou, porque a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo (SDTE) começou a desenvolver o projeto Ecosol SP  (do qual Erica participou) e um de seus itens era justamente o desenvolvimento de um sistema semelhante. Sem contar que conheci o Responsa, aplicativo em desenvolvimento pela Eita, que é uma cooperativa de tecnologia da informação, que tinha a mesma ambição. Então, de repente, havia três projetos com finalidades muito parecidas”, avalia.

A ideia do Mapa foi então revista, de forma a se integrar a essas outras plataformas. Além de Erica, integram a equipe do projeto Aline Pessoa e Elisa Serafim. Depois de realizar pesquisa de campo para conhecer melhor os empreendimentos e a relação de seu público com o uso da tecnologia da informação, o grupo reuniu todos esses dados e referências similares para entender qual seria o melhor formato para a plataforma.

Com a cessão do código de um outro mapa iniciado pela Eita (software livre), juntando todos os resultados das pesquisas, conversas e análises de projetos similares, o Mapa ruma agora para o desenvolvimento do sistema. A plataforma será um site responsivo, também conhecido como aplicação web. Os empreendimentos cadastrarão informações sobre sua atuação – que ainda estão sendo definidas a partir da análise das entrevistas realizadas para entender o que motiva os consumidores e quais suas necessidades de informação – e será geolocalizado num mapa, o que fará com que as pessoas possam visualizar onde estão as iniciativas de economia solidária mais próximas.

Erica diz que a pesquisa com consumidores também foi responsável pela escolha: “Nas entrevistas, a gente percebeu que as pessoas não têm tanto recurso em seus mobiles para instalar mais um aplicativo, então uma aplicação web funcionará melhor”.

Um dos objetivos do Mapa é também ser uma base de dados alternativa às que já existem. “Por exemplo, o aplicativo Responsa puxa bases de dados já existentes, de diversas fontes. Queremos ser uma dessas bases. A nossa vai ser um pouquinho menor, mas vamos ter um controle maior. O foco principal é São Paulo capital, até porque o Vai Tec é de São Paulo. Os empreendimentos que estão próximos da gente vão sendo cadastrados e depois a ideia é que o Mapa cresça espontaneamente e amplie seus limites”.

Consumo solidário

O que motiva o consumidor a comprar produtos da economia solidária?

Essa pergunta está no norte do Mapa do Consumo Solidário, claro. Erica está estudando mais sobre isso, mas já arrisca, de sua vivência prática com projetos e empreendimentos, algumas apostas. “Ainda não consigo ter uma visão muito clara, mas a questão do consumo é muito complexa. Percebo que as pessoas se interessam quando eu explico o que é economia solidária e mostro os produtos, como um caderno, por exemplo. Mas quando pergunto por que então elas não param de comprar da Tilibra e passam a comprar dos empreendimentos, as respostas que escuto são porque eu não sei onde comprar, ou porque não me lembro dessa alternativa quando estou comprando, entre outras. A economia solidária é muito voltada para a produção e pouco para quem consome. Até tem um viés de consumo, que são os chamados grupos de consumo, mas a pessoa já tem de ser politizada, engajada. A gente precisa conversar mais com as pessoas para entender o que falta”.

Atualmente, Erica se divide entre duas cidades – Salvador e São Paulo. Professora da UFBA, tem observado a economia solidária na capital da Bahia e percebe a dificuldade de incorporar o hábito de compra de produtos solidários no dia a dia das pessoas: “Em Salvador temos a Rede Moinho, que fica no centro histórico, e que também vende itens na feira agroecológica da UFBA. São poucos dias na semana, então eu tenho que me programar, mudar toda a rotina de compras, porque muitas vezes os locais onde adquiro esses produtos não estão localizados próximos de casa”, avalia a empreeendedora. “Conversando com as pessoas eu percebo que seu interesse em consumir esses produtos, que elas querem ser consumidoras mais responsáveis. Mas há uma lacuna entre esse interesse e a ação, muito ligada à logística e distribuição. Então, precisamos pensar esse consumo e em como chegar ao consumidor que não é ‘militante’. Um militante se desdobra para consumir esse produto, mas um consumidor comum não vai caminhar vinte minutos de ladeira para isso, e nem pagar mais caro por um produto”, conclui.

Outro ponto de reflexão envolvido nesse projeto é detectar o que falta – já que a predisposição para o consumo de produtos solidários existe, como revelam as pesquisas feitas para o Mapa até o momento -, para que a economia solidária ‘engrene’ junto a um público mais amplo, do ponto de vista das tecnologias da informação e da comunicação. “A sensação que eu tenho é que a essa economia fala muito para si, tem um discurso panfletário, com uma linguagem que não chega ao público mais leigo, que até se interessa por consumir de forma mais responsável, mas tem dificuldade em mudar hábitos. A resposta vai muito além de ter uma plataforma que se proponha a conectar as pessoas. Até porque já temos uma, a Cirandas, que não consegue chegar no público. E fico pensando se o problema é da plataforma ou se é porque a economia solidária não consegue falar para quem não é da economia solidária”.

Em 2016, os próximos passos do Mapa, após as pesquisas e o trabalho de campo realizados, são o desenvolvimento sistêmico e o cadastramento dos empreendimentos solidários. A segunda etapa do projeto deve acontecer em 2017 visando justamente difundir mais o Mapa, ampliar a base de usuários – tanto empreendimentos como consumidores – e implementar funcionalidades.

Você diria não a uma girafa rosa? A pesquisa vai até o final de junho. Não perca!

Fotos: Reprodução

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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