Publicações registram a biodiversidade no território Guarani no extremo sul da cidade de São Paulo

Não cansa de me surpreender o fato de uma cidade como São Paulo ter em seus limites geográficos amplo remanescente de Mata Atlântica, com ocorrência de grandes mamíferos e Terras Indígenas. Há cidades na cidade. O que, na verdade, faz muito sentido, pensando no tamanho da capital paulista.

Minha ligação afetiva com essas cidades na cidade, em especial com aquelas que se localizam no extremo sul, vem de alguns anos, de estudo, de escutas, de amigos e amigas que me pegaram pela mão e desvendaram parte daqueles mundos.

Que me proporcionaram pisar aquela terra, ouvir aquelas histórias, ampliar meu repertório cultural. E, com isso, a forma como me coloco no mundo. O respeito àquela riqueza e diversidade passaram a ser parte de mim.

E é nesse movimento que trago aqui a notícia da publicação de dois levantamentos muito importantes sobre a biodiversidade da Terra Indígena Tenondé Porã, no âmbito do projeto Ligue os Pontos.

As publicações Flora Tenondé Porã: levantamento florístico na TI Tenondé Porã e Os agricultores Guarani e a atual produção agrícola na Terra Indígena Tenondé Porã SP foram lançadas em versão impressa (foto), com tiragem limitada destinada aos Guarani, bibliotecas e outros espaços públicos.

Foto: Divulgação/Guarani

No caso da Flora Tenondé Porã, também foi lançada a versão digital. A publicação sobre os agricultores Guarani já estava disponível online, como contei, aqui no Conexão, em setembro de 2020.

“A Terra Indígena Tenondé Porã foi muito feliz por ter sido contemplada com esse trabalho, que teve a participação efetiva das lideranças nesse olhar e no desenvolvimento para construir algo sistematizado. É essa oportunidade de mostrar, de trabalhar, registrar e sistematizar nosso trabalho na Terra Indígena, de recuperação de solos degradados, de árvores frutíferas nativas, de sementes tradicionais, aqueles alimentos que nunca mais tinham sido vistos, ” avalia a liderança indígena Jerá Guarani.

Espécies únicas

Foto: Ulleo/Pixabay

Jerá conta que, quando tinha 22 anos, começou a se interessar pela alimentação Guarani, ao ouvir senhores e senhoras que falavam da comida tradicional que ela desconhecia.

“Eles falavam sobre muitas espécies de milho, e eu só conhecia a amarelinha, que é a escolhida pelo jurua (“homem branco’). O lamento das pessoas que tinham comido tudo aquilo quando eram crianças, mas que nunca mais tinham visto. Isso mexeu muito comigo, mas trouxe também toda a euforia e a força de fazer o máximo que podia para tentar trazer aquilo de volta, ainda que muito do conhecimento compartilhado ali parecesse um sonho, de tão longe que estava”, completa Jerá.

Hoje, eles já recuperaram mais de 50 tipos de batata doce, mais de nove tipos de milho Guarani e o amendoim preto.

O levantamento florístico realizado na Terra Indígena, ainda que preliminar, porque realizado em parte dela por ter o trabalho de campo interrompida por causa da pandemia da covid-19, registrou mais de 300 espécies. Todo o trabalho de campo contou com participação ativa de representantes da comunidade Guarani, e foi realizado pela equipe do Herbário Municipal da Prefeitura.

“Produzimos uma lista de informações que vão servir para planos de manejo. Sabendo que há espécies raras, ou com potencial econômico, isso é elemento para projetos que podem ser desenvolvidos, seja para turismo, para melhorar agricultura, melhorar as condições de alimentação”, diz Ricardo Garcia, coordenador do Herbário Municipal.

“O trabalho de campo começou em meados de 2019. Nossa última coleta foi em fevereiro de 2020, e com a pandemia tivemos que interromper o campo. Não deu tempo de ir em todas as aldeias por causa disso. Fizemos todo um trabalho de processamento em laboratório, para que as espécies possam entrar na coleção cientifica”.

“Há esperança em se tornar selvagem”

Foto: Divulgação/Guarani

Durante o lançamento das publicações, Jerá destacou a relação do povo não indígena com a cultura da leitura e da escrita, e que a sistematização e reprodução desse conhecimento pode fortalecer a importância da conservação e do cuidado com a Terra Indígena e a natureza da região.

“As mãos dos seres humanos destroem tudo em nome de um progresso que não faz sentido. A gente tem conhecimento que tem jurua (branco) apontando isso há muito tempo, escrevendo, anotando formas científicas seguras, ainda que isso não seja suficiente, porque o planeta está morrendo. Então não é porque está escrito que o problema vai ser resolvido”, conta ela, que acrescenta:

“Mas esse material pode vir para fortalecer tudo isso. A fauna, a flora, tudo que temos de mais rico no planeta. A gente tem expectativa que publicações como essas, de fato, sejam um instrumento para acordar as pessoas para a realidade crítica que nós vivemos no país e no planeta”.

A líder Guarani aponta, ainda, a fragilidade da região onde está inserida a Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo, em Área de Proteção Ambiental ameaçada por loteamentos clandestinos cada vez mais frequentes.

“Vou divulgar ao máximo possível essas publicações, chamar mais pessoas por meio delas para também se tornarem selvagens. Tenho falado para os jurua que a civilização está destruindo o nosso planeta. Há uma esperança se a gente se tornar selvagem, se muitos, muitos e muitos outros juruas se tornarem selvagens. E aí quem dera que a política do país fosse selvagem, porque mataria menos e teria menos corrupção”.

Tornemo-nos selvagens, começando pela leitura dessas publicações que traduzem todo o cuidado Guarani com a recuperação e a manutenção da biodiversidade. Você pode baixar os dois livros nestes links: Flora Tenondé Porã: levantamento florístico na TI Tenondé Porã e Os agricultores Guarani e a atual produção agrícola na Terra Indígena Tenondé Porã SP.

A seguir, assista ao evento de lançamento das duas publicações:

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque): Ulleo/Pixabay

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22 e com a AMAZ aceleradora de impacto. Atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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