Projeto de reflorestamento da Caatinga usa canos de PVC para acelerar crescimento de mudas e prolongar tamanho da raiz de espécies nativas

Projeto de reflorestamento da Caatinga usa canos de PVC para acelerar crescimento de mudas e prolongar tamanho da raiz de espécies nativas

*Por Luís Patriani

A Caatinga pede socorro. Região semiárida com maior densidade populacional do mundo, o único bioma exclusivamente brasileiro precisa de ajuda para não virar um imenso deserto no futuro.

Com quase metade de sua área total destruída – cerca de 840 mil km2 -, este símbolo de resiliência, diversidade de espécies e endemismo vive um processo contínuo de desertificação que já atinge 13% de seu território, segundo estimativa do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal). 

Marcada por plantas que se adaptaram à rigorosa sazonalidade das chuvas, como o icônico umbuzeiro (Spondias tuberosa), que tem a capacidade de armazenar água na raiz, a Caatinga não consegue mais se apoiar apenas no processo evolutivo e nas peculiares transformações da sua flora para sobreviver em face do desmatamento e ao aquecimento global.

Uma ideia simples e inovadora da equipe do Laboratório de Ecologia da Restauração (LER) do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no entanto, pode virar o jogo no cenário dos projetos fracassados de restauro da Caatinga feitos até o momento – transplantes de mudas usando métodos convencionais têm altos índices de mortalidade da vegetação, na casa dos 70%.

A técnica desenvolvida pelo laboratório da UFRN, por sua vez, eleva, em média, de 30% para 70% a taxa de sobrevivência das espécies. O método utiliza canos de PVC para acelerar o processo de crescimento e prolongar o tamanho da raiz de plantas nativas que encontram dificuldade em extrair água em solos degradados e salinizados.

Projeto de reflorestamento da Caatinga usa canos de PVC para acelerar crescimento de mudas e prolongar tamanho da raiz de espécies nativas
Monitoramento de um angico plantado na área do experimento
Foto: Gislene Ganade.

De pasto a floresta 

Na primeira etapa do manejo, feita em uma estufa chamada de “casa de vegetação”, as espécies são germinadas dentro de canos de PVC com pequenas bolsas de água na base, estimulando o desenvolvimento do órgão até o fundo. Após dois meses, quando as raízes atingem um metro de comprimento, as plantas são levadas para uma área deteriorada dentro da Floresta Nacional de Açu, no interior do Rio Grande do Norte. Feito o transplante, o tubo é retirado e reutilizado em futuros replantios, com quase 100% de reaproveitamento.

O resultado do reflorestamento em alta escala se revelou surpreendente. A área de teste, com 3.5 hectares, foi utilizada por décadas como pastagem e, mesmo depois de abandonada por quinze anos, não conseguia ter uma regeneração natural. Cinco anos depois da fase de replantio de 4.704 plantas, iniciada em 2016, transformou-se em uma floresta diversa, atraindo espécies da fauna e recuperando a saúde hídrica do ecossistema.

Projeto de reflorestamento da Caatinga usa canos de PVC para acelerar crescimento de mudas e prolongar tamanho da raiz de espécies nativas
Trecho da área do experimento, na Floresta Nacional do Açu, cinco anos após o replantio
Foto: Gislene Ganade

De acordo com a professora Gislene Ganade, autora e coordenadora do estudo, que foi premiado pelo programa Dryland Chanpions da Organização das Nações Unidas ainda na primeira fase de experimentos, em 2015, a estratégia é eficiente porque a planta chega à natureza mais desenvolvida na parte do tronco e da folha, assim como sua raiz, capaz de sustentar esse porte maior. Robusta, ela enfrenta o estresse do campo com grandes reservas de glicose, amido e água, permitindo que possa esperar até que as chuvas retornem.

“Uma coisa bem interessante nesta tecnologia é que a gente está acelerando o tempo que a planta cresce na casa de vegetação, dando o máximo de recurso possível para uma situação mais crítica do campo”, diz Gislene. “Quando você replanta, ela está com um tamanho como se tivesse passado dois anos ao invés de poucos meses. E o resto a própria história evolutiva das plantas da Caatinga se incumbe de fazer.”

Outra conclusão do estudo que potencializa a eficácia do novo método é a importância do uso de plantas facilitadoras, conhecidas como “plantas enfermeiras”, capazes de melhorar a qualidade do solo com a fixação de nutrientes e a redistribuição da água para outras espécies mais frágeis se beneficiarem.

Combatendo a desertificação 

Segundo Gislene, doutora em Ecologia pelo Imperial College da Universidade de Londres, o processo de desertificação, que é o primeiro degrau para um ambiente virar um deserto, se deve a uma combinação de fatores. Entre eles, destacam-se a salinização da área superficial do solo por conta de irrigação errada feita com água salobra, o corte e a queima da vegetação para uso de madeira e produção de tijolos e telhas, além do pisoteio do rebanho de gado e cabras.

“A exposição do solo erodido e sem vegetação ao sol faz com que o calor extremo puxe a água do fundo para cima, trazendo  junto o sal das camadas inferiores da terra”, explica Gislene. “E uma superfície salinizada acarreta grandes dificuldades de estabelecimento da flora, porque o sal concorre com as plantas pela água, mesmo que chova.”

Para a pesquisadora, um dos desafios para um projeto de restauração da Caatinga bem sucedido é a criação de mais áreas de proteção ambiental usando informações sobre como as plantas nativas responderão no futuro às mudanças climáticas e ao aumento de temperatura.

“Algumas plantas vão mudar de endereço. Imagina a consequência disso para a restauração”, diz Gislene. “Você restaura agora e daqui a setenta anos é capaz dessa planta desaparecer naquele lugar. O clima vai mudar de um jeito que ela não conseguiria viver lá no futuro.”

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Gislene Ganade na área do experimento. Foto: Gustavo Paterno.

No Parque Nacional do Catimbau, sertão de Pernambuco, o método do cano de PVC criado por Gislene vem sendo utilizado por uma equipe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para frear o avanço da degradação e impedir que chegue à desertificação. Seu coordenador, o professor Felipe Melo, destaca o trabalho da colega e ressalta que seu objetivo está focado na restauração como uma ferramenta de promoção de segurança hídrica, energética e alimentar para a população do sertão.

“A Caatinga se degradou sem alcançar desenvolvimento humano da população”, argumenta Felipe. “Estamos tentando entender o papel da restauração em itens de segurança do sertanejo, como a disponibilidade de água – que, por sua vez, está associada a manutenção de nascentes. Também estamos testando espécies de plantas que forneçam lenha, importantes para a segurança energética, e plantas como fontes alimentícias, como a forragem para bode, por exemplo”.

Tendo em vista o sucesso do projeto de restauro na Floresta Nacional de Açu, Gislene deposita parte da confiança na prória capacidade de sobrevivência da Caatinga: “O bioma parece ser difícil de ser restaurado, mas tem uma resposta rápida. Foi assim que evoluiu ao longo do tempo, respondendo rápido as chuvas porque tem muito nutriente armazenado no solo”.

*Texto publicado originalmente em 29/04/21 no site do Mongabay Brasil

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Fotos: Carlos Roberto Fonseca (abertura) e demais Gislene Ganade

Mongabay Brasil

Agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento. Seu objetivo é inspirar, educar e informar

3 comentários em “Projeto de reflorestamento da Caatinga usa canos de PVC para acelerar crescimento de mudas e prolongar tamanho da raiz de espécies nativas

  • 13 de maio de 2021 em 7:22 AM
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    É um absurdo e uma vergonha usar PVC em vez de bambú ou pura terra compactada junto com musgo em superficies com aguas correntes, suaves e muito limpas com todas as fontes minerais naturais.
    A ignorancia é um grave pecado e isso tem que ser multado e retificado imediatamente. Principalmente a exigencia de indenizaçao dos suministradores do PVC.
    Os pecadores todos não podem se esconder. Tem que ser denunciados publicamente. E o processo passado pelo Tribunal do Brasil para diagnosticar e aplicar as multas e indenizações severas e correspondentes para terminar continuamente com os delitos meio ambientais que ocorrem no Brasil .
    Na verdade toda a America Latina deveria por-se a trabalhar corretamente e com dignidade sobre esses abusos , essas ilegalidades, esses delitos com a Natureza de forma geral e correta.
    O Brasil e toda a America Latina e na verdade todos os continentes do Planeta tem a obrigaçao de formar , criar e regenerar todas as riquezas e nunca destruí-las. Em todos os reinos, das águas puras e virgens, dos vegetais, animais e minerais. De forma legal com as Leis próprias da Natureza, respeitanto tudo.
    É indignante , porque é um delito atrás do outro sem parar. Isso tem que acabar imediatamente. Ser exterminado completamente. Antes que o Planeta colapse e extermine com tudo de forma drástica e muito mais contundente que possam imaginar. Uma impressionante falta de amor a vida virgem, saudável, genuína e bela .

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  • 13 de maio de 2021 em 7:28 AM
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    Espero que os jornalistas desse lugar leiam os comentarios e ajudem a vida virgem do meu País e de minhas terras. Vou procurar saber sobre esse assunto. Um jornalista tem muitas obrigações e nao somente publicar, escassos acontecimentos sem maiores investigações. De fornecedores e cadeias de delitos por exemplo que ficam ocultas nessas publicações. , na maioria das vezes. Façam de forma interrompida se for necessario, mas façam, e sobretudo de forma integral, íntegra e completa. Sem ocultar nada.

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  • 13 de maio de 2021 em 11:04 PM
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    Prezada Ana Maria, o cano não fica na terra, ele é retirado durante o plantio e reutilizado indefinitivamente para fazer novas mudas em casa de vegetação! O cano funciona como uma espécie de vaso de grandes dimensões que ajuda a produzir uma planta robusta de raiz grande capaz de sobreviver às condições estressantes de seca e salinidade superficial do solo, propiciando a restauração de áreas em processo de desertificação! É boa a ideia de se usar material biodegradável para esses vasos, testamos por exemplo vasos feitos de palha de Carnaúba pela comunidade local. Infelizmente eles protegem menos a raiz de impactos durante transporte e plantio e também ressecam mais rapidamente a raiz do que o canos de pvc. Seguiremos de qualquer forma aprimorando a tecnologia! Importante ressaltar que canos de PVC usados para outros fins podem ser reutilizados sendo transformados em vasos para produção de mudas e replantio de florestas para o combate à desertificação! Veja nesse link uma filmagem que explica como é feito o plantio com mais detalhamento!

    https://www.youtube.com/watch?v=81cddGOv9wg&t=124s

    Obrigada por ter se interessado pela matéria, Gislene Ganade

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