Silvany Lima: “Sem desmatamento, a Caatinga melhora a qualidade de vida dos animais e das pessoas”

Como mostra Silvany Lima, pequena proprietária rural de Pintadas, que abriga cerca de 11 mil habitantes na região de Feira de Santana, no sertão baiano, o ativismo feminino pode começar com uma inquietação.

No caso dela e de algumas amigas que frequentavam a mesma igreja, tratava-se do inconformismo ao ver umbuzeiros nativos da Caatinga dizimados para dar lugar à criação de gado, cabras e ovelhas. Com um detalhe: a árvore é uma espécie altamente produtiva de frutas.

Ao pesquisarem para descobrir se havia como aproveitar o umbu economicamente, descobriram que ele poderia ser transformado em polpa. Começaram, então, a lutar pela construção de uma fábrica na cidade e criaram a Cooperativa Ser do Sertão, incentivando a participação das mulheres da região. Hoje, elas comercializam frutas e ajudam a manter as árvores nas propriedades, recuperando a Caatinga.

A iniciativa ainda empoderou as mulheres, que passaram a ter uma renda complementar, e as engajou na divulgação da cultura local com a promoção das cantigas de roda e de samba e das quadrilhas. “Acreditamos que sem cultura não há vida”, contou Silvany ao Mulheres Ativistas do Conexão Planeta.

Como foi abrir uma fábrica de polpa de umbu no sertão da Bahia?

Faço parte de um grupo de mulheres da zona rural e tudo começou com conversas sobre a fruta do umbu, que é nativa da nossa região de Caatinga. Não nos conformávamos de que havia tanta abundância da fruta, que acabava se perdendo porque não tínhamos como aproveitá-la.

Começamos a nos perguntar se haveria alguma coisa para fazer com ela, além de chupar, enquanto a tendência era desmatar a Caatinga. Fomos pesquisar e descobrimos que era boa para fazer polpa para suco.

Não tínhamos nenhum projeto nem dinheiro para montar um negócio, mas procuramos a prefeitura e algumas entidades locais , que nos apoiaram para construirmos uma fábrica de polpa de frutas na cidade.

No início, éramos apenas três, mas hoje um grupo de dez mulheres toca a fábrica. Atualmente, sou apenas fornecedora das frutas. Montamos uma associação, a Ser do Sertão, e mobilizamos as mulheres da região. Somos mais de cem mulheres que colhem o umbu, que não é mais desperdiçado.

O que mudou com a valorização do umbu na região?

Aumentou a quantidade de árvores, que deixaram de ser derrubadas. Também paramos de fazer queimadas. Cuidamos dos umbuzeiros que temos e cultivamos os que vão nascendo.

Assim que começamos a cuidar da terra, a não deixar derrubar mais nenhuma árvore, a Caatinga vem se recuperando e tem melhorado a qualidade de vida dos animais e das pessoas.

Até então, só plantávamos milho, feijão e palma para alimentar os animais. Quando íamos cuidar das palmas, sempre tinha pé de umbu pequeno, que acabávamos arrancando para chupar a raiz.

Quando descobrimos que o umbu poderia ser um sustento a mais para todas, paramos de fazer isso. O umbuzeiro ainda alimenta os animais, que comem suas folhas e frutos, além de trazer sombra que ajuda a baixar a temperatura e a manter a umidade do solo.

Hoje, sabemos que sem as plantas não temos como sobreviver e cuidamos mais da natureza.

Qual o benefício direto para as mulheres que fornecem frutas para a cooperativa?

A iniciativa empoderou as mulheres e aumentou a renda das famílias, que antes dependiam exclusivamente da produção do gado leiteiro, atividade predominante na região.

As mulheres passaram a ser independentes ao terem seu próprio dinheiro, o que melhorou muito a qualidade de vida.

Qual o mercado para a polpa que vocês produzem?

Depois de dez anos que começamos nossa luta, conseguimos uma polpa de boa qualidade. Nossa marca – Delícia do Sertão – é vendida no mercado local e para merenda escolar aqui, em Pintadas, e também em outros municípios da região.

Além da fábrica, abrimos um restaurante-lanchonete na cidade chamado Ser do Sertão, também só com o envolvimento de mulheres.

Como esse processo levou o grupo a também ser ativista cultural?

Somos um grupo de mulheres que aprecia a cultura local porque acredita que sem cultura não há vida. Tentamos preservar e fortalecer nossa cultura para que as novas gerações conheçam cantigas de roda e de samba e quadrilhas.

Participamos de festas, da semana cultural e de grupo de sambadoras. Fazemos até competições com homens para motivá-los a participar já que, por incrível que pareça, são apenas as mulheres que lutam pelo fortalecimento da cultura da região. Conseguimos trazer mais mulheres para dançar e se engajar junto com a gente.

Edição: Mônica Nunes

Foto: Bruno Felin/WRI

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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