Os dois sexos apresentam o mesmo comportamento. Mas as fêmeas fazem mais do que eles. Foi isso o que perceberam pesquisadores da Universidade de Sydney ao analisar horas e horas de gravações de polvos interagindo no fundo do mar e descobrir que esses animais jogam detritos, como conchas, lodo e algas, no ar e contra indivíduos da mesma espécie.
Usando GoPro câmeras subaquáticas, instaladas de maneira não invasiva, os cientistas puderam observar o comportamento em dez espécies de polvos encontradas na Baía de Jervis, na Nova Gales do Sul, na Austrália.
“Os polvos juntam esse material em seus braços, segurando-o em sua teia de braço e impulsionando-os usando seu sifão, um funil próximo à cabeça, às vezes a vários metros do corpo”, explica Peter Godfrey-Smith, professor da Universidade de Sydney e principal autor do artigo científico que traz mais detalhes sobre a pesquisa.
O que os pesquisadores notaram é que as fêmeas tendem a fazer mais isso do que os machos. Em uma situação, uma delas repetiu dez vezes o mesmo comportamento, jogando resíduos sobre um macho que tentava acasalar. Ao mesmo tempo, ele tentava se defender do ataque.
Todavia, em outros casos, os cientistas ainda não sabem se a estratégia é intencional ou não. Em algumas ocasiões, a ação faz parte da limpeza da toca. E vale lembrar também que a região de Jervis é extremamente povoada por polvos, tanto que é chamada de “Octópolis”, então os possíveis “ataques” podem não ser propositais.
“Eu especularia que muitos dos arremessos direcionados são mais como uma tentativa de estabelecer algum ‘espaço pessoal’, mas isso é uma especulação, é muito difícil saber quais podem ser seus objetivos”, diz Godfrey-Smith.
Momento em que a fêmea joga lodo sobre o macho
Entretanto, os cientistas conseguiram comprovar uma relação entre a cor do polvo e a intensidade de seus arremessos.
“Os polvos que exibiam cores uniformes (escuras ou médias) arremessavam significativamente com mais frequência e alto vigor, enquanto aqueles que exibiam um padrão de ‘olhos claros e escuros’ arremessavam com menos força”, afirma o autor principal do estudo. “Arremessos de polvos que exibem padrões corporais uniformes (especialmente padrões escuros uniformes) atingem outros polvos com uma frequência significativamente maior do que em outros padrões corporais, explica.
Há muito tempo a ciência demonstra como os polvos são animais extraordinários e apresentam um sistema nervoso bastante complexo. Tanto é que, em 2021, o governo do Reino Unido reconheceu que eles são seres sencientes, ou seja, são capazes de terem sentimentos, como dor, prazer, fome, sede ou alegria.
Outros estudos anteriores já tinham revelado, por exemplo, como os polvos apresentam duas fases de sono, de maneira muito similar aos seres humanos. E em uma delas, inclusive, eles mudam de cor.
Ilustração acima mostra como o polvo faz para arremessar os detritos para o ar
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Foto de abertura: pixabay/domínio público