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Naine Terena: arte como contranarrativa ao racismo estrutural que afeta os indígenas no Brasil

Artista, pesquisadora e professora, Naine Terena é também comunicadora e curadora de arte e, mais do que isso, uma ativista das causas indígenas e contra o racismo estrutural que assola o Brasil.

Formada em Comunicação Social, mestre em Artes e doutora em Educação, foi curadora da primeira mostra de arte indígena da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Véxoa: Nós sabemos, um marco na arte indígena no país, e uma das curadoras do festival de arte indígena rec•tyty (o Conexão Planeta contou sobre esse festival, aqui).

Em 2021, foi membro do comitê de Indicação do Prêmio PIPA, um dos mais importantes de arte contemporânea no Brasil, e do júri da 13ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo

Naine, que acaba de voltar da Europa, onde representou o país em eventos na Universidade de Manchester e na Bienal de Artes de Veneza, disse ao Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta:

“Existe um racismo estrutural no Brasil que vem junto com a infantilização dos indígenas. Parece que a gente vive sempre de uma forma infantil e tutelada e não tem como ascender. O racismo nos coloca em condição de desigualdade porque pensam que nossa intelectualidade é limitada, que não conseguimos fazer nada além do que está no nosso universo, o que é uma mentira”.

Para ela, as condições de vida enfrentadas na sociedade levam muitos artistas indígenas a serem ativistas. “A arte é um momento de poder falar sobre esses problemas. Por isso, vemos que muitos dos documentários ou obras de arte são focados em fazer denúncias. Estamos falando de trajetórias de vida que trazem questões que precisam ser lançadas ao público para que possamos continuar”.

Como você se envolveu com ativismo na área de artes?

Meu envolvimento com artes começou em Cuiabá, quando eu tinha uns 15 anos e comecei a trabalhar com teatro com minha irmã, que é professora e fazia atividades com as crianças. Nos envolvemos com a comunidade do bairro em que moramos, com o entendimento que o bem-estar de fazer arte é um trabalho coletivo e da importância da articulação com pessoas jovens que vêm de lugares mais periféricos.

Essa atuação direcionou sua carreira profissional?

Fiz graduação em Comunicação Social na Universidade Federal de Mato Grosso. Sou radialista, acho que essa área, na universidade, agora se chama audiovisual. Depois, fiz mestrado em Arte, com ênfase em arte contemporânea, na Universidade Federal de Brasília, e doutorado em Educação na PUC de São Paulo.

De lá para cá, transitei por essas áreas, em um processo de entender como o mundo se conecta com elas, porque são importantes na nossa formação como indivíduos e cidadãos. Gosto de dizer que sempre trabalhei com produção cultural e que isso não tem a ver com a questão indígena especificamente, porque as pessoas acham só podemos trabalhar com essa questão.

É importante salientar isso principalmente agora que tem um grande contingente de jovens indígenas entrando nas universidades em várias áreas. Ser indígena não é algo que se escolhe ser

Mas ser indígena é um fator que influenciou sua carreira?

Como diz o Denilson Baniwa, nossas relações com as comunidades pautam a maneira como a gente se comporta nos ambientes de trabalho e no mundo. Minha família Terena é a materna e mora em Mato Grosso do Sul, e a paterna é bastante mestiça e vive em Cuiabá, onde nasci. Mas entender como vive minha família na aldeia, viver esse dia a dia, pois sempre retornamos para lá, onde mantemos nossa casa, me pautou bastante.

Muitos dos meus amigos de juventude são pessoas da aldeia que estão comigo até hoje. Estou agora montando algumas obras para levar para a Alemanha, nas quais uso retalhos como upcycling: os reaproveitamentos todos que lembro da infância, de algumas fotos que tenho de roupas feitas de barras de calças que brincamos hoje que eram feitas de papelão ou marronzão.

Era o que tinha, me formei nisso. Mas trago todas as comunidades por onde transitei, que são as pessoas da periferia, pessoas negras, pobres, indígenas, que às vezes não se reconheciam como indígenas. Me satisfaz transitar entre esses mundos.

Como você começou a trabalhar com curadoria de arte e como essa atividade ajuda na militância?

Foto: Téo Miranda

Costumamos dizer que a curadoria é um lugar de poder, por conta das escolhas e da forma como contamos as histórias. Tenho aprendido bastante com as curadorias que temos feito com os artistas indígenas, tentando fazer ou refazer alguns percursos desconhecidos do público, principalmente daquele que aprecia esse universo das Artes, que frequenta galeria, museu, mostras, festivais, bienais. Conseguimos, por meio dessas produções, fazer um processo educativo sobre a realidade indígena. É mais uma possibilidade de falar com as pessoas.

Eu tinha terminado o mestrado e estava tentando o doutorado quando parti para curadoria de um projeto próprio na minha comunidade, em Aquidauana (MS), que foi uma capacitação com audiovisual e fotografia produzidos por professores indígenas. Trabalhamos com professores de cinco ou seis aldeias e levamos esse material para uma exposição na cidade.

Lembro que, na divulgação, eu falava que eram fotos e vídeos indígenas sem me remeter a nenhuma categoria de arte. Já tinha o entendimento de que a ideia de arte para o indígena é diferente, varia de povo para povo, de comunidade para comunidade, de artista para artista, sem se encaixar nas perspectivas canônicas ocidentais.

Gosto muito do que chamam de artesanato, do processo de feitura disso, da mulher e do homem indígena que está produzindo, no qual tão importante quanto o resultado é o contexto das produções.

Depois disso, vieram outros trabalhos em Cuiabá, alguns não relacionados à questão indígena, até chegar esse encontro com a Pinacoteca de São Paulo, que é o grande boom de toda essa história, por ser uma instituição grande e que tenta fazer algumas alterações no seu formato de trabalho, inclusive, em seu próprio acervo, que agora conta com 13 obras de artistas indígenas.

A exposição ‘Véxoa: nós sabemos’, que ficou em cartaz entre outubro de 2020 até março de 2021, veio num momento em que outros indígenas faziam essa inserção dentro do espaço das artes em outras instituições, com outras demandas e pensamentos. Uma grande parte desses artistas também está trabalhando no que chamamos de ativismo, buscando a visibilidade da existência de seus povos.

Estou ligada a pessoas da literatura, audiovisual e comunicação indígenas e todos esses movimentos focam nesse ativismo que acho vir mais de ativar. Ativar uma memória que não foi contada. E está ligado a colocar em cena o que vivemos no dia a dia. 

As condições de vida que temos dentro da sociedade nos leva a ter que ser ativistas. A arte é um momento de poder falar sobre isso. Por isso vemos que muitos dos documentários ou obras de artes plásticas são focados em fazer denúncias. Estamos falando de trajetórias de vida que trazem questões que precisam ser lançadas ao público para que possamos continuar.

Conte sobre o projeto da Universidade de Manchester no qual está envolvida.

É voltado para cultura e antirracismo e inclui pessoas de vários países. Me envolvi a partir de convite da pesquisadora Jamille Pinheiro Dias, que era pós-doutoranda na Universidade de Machester: sua pesquisa era sobre a luta antirracista no Brasil, com foco na questão indígena.

Como a Pinacoteca havia reduzido a visitação por conta da pandemia, ela propôs que Manchester fosse parceira para que a Véxoa alcançasse mais gente. Há muitas questões sobre racismo envolvidas em uma exposição de artistas indígenas, com uma interdisciplinaridade grande.

A universidade entrou como parceira na produção de lives com os artistas, como uma maneira de alcançar as pessoas que não podiam ir à Pinacoteca. Também foi produzido um vídeo sobre a exposição e o entendimento de cultura e luta antirracista. Agora, estamos escrevendo o texto final para o livro, que será lançado no final do ano contando todo esse processo.

Havia a ideia de fazer vários encontros sobre os diversos projetos nos países, o que não aconteceu por conta da pandemia, apenas esse último em Manchester no qual levaram todos os colaboradores, professores e pesquisadores para uma troca de informações. Tivemos conversas para falar de lutas, porque eram grupos negros e indígenas de vários países, alguns se denominavam simplesmente ‘marrons‘. 

Na mesma época, fui convidada para ir à Bienal de Veneza, por Wanda Nanibush, gestora de um museu do Canadá, que promove anualmente uma reunião de artistas e curadores indígenas para falar das suas produções e vinha acompanhado o Véxua.

Fizemos uma participação virtual no ano passado e, neste ano, nos convidaram para participar presencialmente no pavilhão nórdico em Veneza no espaço doado por eles aos Sami, povo de indígena da Noruega. Até então, o Brasil não tinha participado efetivamente de alguma ação como essa.

Como você vê o racismo contra indígenas no Brasil?

É muito difícil falar de racismo no Brasil porque as pessoas naturalizaram muitas coisas por conta de nosso processo histórico. Às vezes, nem sabem o que é racismo ou têm um entendimento diferente. Tudo ficou também muito relacionado às pessoas negras e, quando se fala no tema, parece que é somente a eles que estamos nos referindo.

Por isso, nós indígenas vivíamos todo dia situações que só começamos a saber do que se tratava quando entendemos o que era racismo, que havia uma palavra para essas situações e que as pessoas que as praticavam eram racistas.

Percebemos que o racismo é um pensamento de superioridade e vemos que esse pensamento vigora completamente no Brasil em relação aos indígenas. A obra que apresentei em Manchester traz um pouquinho do que quero dizer: se chama Minha Avó Foi Pega no Laço.

Por que as pessoas acham que isso é natural? É totalmente racial você pegar alguém no laço, só acontece porque a considera muito inferior a você, quase um bicho. Pegar uma pessoa humana, uma mulher de uma raça diferente no laço é uma coisa horrível, mas ainda se ouve muito no Brasil: “mas eu tenho sangue indígena, minha avó foi pega no laço…”.

Como mudar essa situação?

Precisamos mostrar que não é natural, que muitas dessas falas são, sim, racistas. Existe um racismo estrutural que vem junto com a infantilização dos indígenas. Parece que a gente vive sempre de uma forma infantil e tutelada e não tem como ascender. É por isso que gosto de enfatizar que trabalho também em áreas que não a indígena e que desenvolvo assessoria para artistas não indígenas também. O racismo nos coloca em condição de desigualdade porque pensam que nossa intelectualidade é limitada, que não conseguimos fazer nada além do que está no nosso universo, o que é uma mentira.

Você acredita que os movimentos artísticos indígenas que têm se destacado podem ajudar a mudar essa percepção?

Ajudam, inclusive a nós mesmos, pois quando nos envolvemos nesses movimentos, nos vemos como agentes dessas histórias. Precisamos nos ver dentro desses universos como pessoas que têm qualidades, intelectualidade, conhecimentos, para poder falar por nós mesmos e fazer o combate.

Quando conseguimos nos conectar com pessoas não racializadas, podemos perceber que há um termômetro de como a sociedade reage e como podemos reagir como um contraponto, na construção das contranarrativas

Que outros movimentos indígenas têm se destacado nesse cenário?

Temos um grande movimento de mulheres indígenas no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, temos o nosso movimento das mulheres Terena, com mulheres que estão no dia a dia lutando para fazer essa presença existir.

Temos mulheres que são professoras, enfermeiras, doutoras em alguma área de especialização, mulheres que são artesãs e mulheres que fazem das práticas diárias um motivo de existência. Venho dessas mulheres e faço parte delas. Nada do que eu faço é desconectado de onde venho. Venho delas e por elas.
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Edição: Mônica Nunes

Foto: Téo Miranda

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