PUBLICIDADE

Lolla Angelucci milita pelo direito de mulheres carecas terem uma vida normal, sejam elas vítimas de alopecia, câncer ou qualquer outra doença

Desde criança, Lolla Angelucci enfrenta no dia a dia as dificuldades de ter nascido com alopecia, doença que provoca perda dos cabelos. Usou perucas e lenços até que, já na faculdade de Direito, resolveu se assumir como uma mulher careca e passar por todo tipo de preconceito, que inclui de comentários maldosos até ser abordada na rua. Sem perceber, se tornou ativista de seu direito de existir como é. 

Lolla também é ilustradora e trabalha com voluntariado e responsabilidade social, o que a levou, em um primeiro momento, a criar o Sereias Carecas, projeto para ajudar mulheres com câncer que perdem os cabelos a enfrentar esse momento delicado.

Depois disso, direcionou essa ideia para alopecia, por meio das redes sociais e de encontros com mulheres que precisam de apoio para se aceitarem e para enfrentar o preconceito que, para grande parte delas, vem mesmo de dentro de casa, da própria família. 

Por que você perdeu o cabelo e como foi esse processo?

Tenho alopecia areata, doença autoimune que causa perda dos cabelos. Nasci com falhas no cabelo, que não eram uma falta total, mas o médico avisou minha família que um dia todo o meu cabelo cairia. Acredito que eles não estavam preparados para isso e viviam procurando tratamento, passei por tudo quanto é médico. Era um assunto familiar, em todo aniversário, casamento, só o que ouvia eram perguntas sobre o meu cabelo.

A alopecia tomou grande parte da minha vida durante muito tempo. Fiquei careca entre os 18 e 20 anos, quando estava na faculdade de Direito. Foi um período difícil, no início dos anos 2000, quando o tema de autoestima ainda não era muito valorizado. Lembro que, na faculdade, os meninos davam nota para as meninas publicamente e achávamos isso muito aceitável. Assim, a perda de cabelos foi um processo muito solitário, porque ninguém entendia o peso disso pra mim.

Minha mãe tentou me apoiar da forma que ela sabia, comprando a melhor peruca do peruqueiro mais famoso da cidade, que custou três salários mínimos, o que era muito dinheiro. Usar peruca era muito diferente, porque nunca tinha tido muito cabelo. Aquele negócio pesava na minha cabeça, apertava, era muito desconfortável. Um dia, resolvi que não ia mais passar por isso.

Como se assumiu como uma mulher careca?

Estudava no Mackenzie e trabalhava em uma grande empresa de consultoria, que chamo de máquina de moer gente. Era tudo tão cansativo que, um dia, decidi que iria raspar a cabeça de vez. Naquela época ainda tinha 20% do meu cabelo e usava peruca. Rapei e fui para o trabalho de lenço.

Ao contrário do que imaginei, foi muito tranquilo, pois todos sabiam que eu usava peruca. Virei especialista em lenço que fica certinho na cabeça, usava terninhos coloridos com lenço combinando, dava muito certo. Como foi na época do atentado às Torres Gêmeas, em Nova York, as pessoas achavam que eu era muçulmana.

Os prédios da faculdade eram tombados, não tinham ar-condicionado e era muito quente. Um belo dia resolvi que não precisava de lenço e que iria careca para a faculdade. Esse foi o dia que todo mundo olhou para mim e disse: ‘isso está muito errado, você não deveria estar andando careca na rua’. ]

Até professores e funcionários da faculdade me paravam e perguntavam por que estava sem lenço, fui julgada, e muito. Foi quando percebi que eu tinha o direito de existir da forma que eu era, como uma mulher que não tinha cabelo.

Como era essa militância?

Era uma militância solitária, porque mesmo minha mãe não achava que todo mundo tinha que me engolir. Dizia que, se não quisesse ser apontada na rua, colocasse uma peruca.

Depois de uns dois ou três anos, encontrei um grupo de apoio a mulheres com alopecia e fui a uma reunião, mas vi que também não me representava, porque era um grupo capitaneado por médicos e super focado em divulgação de novos tratamentos e tipos de perucas, mas eu já tinha desistido de tratamentos, que são caros, dolorosos e cheios de efeitos colaterais.

Queria algo que trabalhasse na construção da autoestima e decidi que, se essa representação não existia, eu mesma faria isso. Fui fazendo coisas sem concatenar direito que estava usando minha careca como existência política.

Seu ativismo sempre foi feminista?

Foi, embora eu não soubesse que era. Se me perguntassem na época, diria que não era feminista, mas feminina. Achava que ser feminista era coisa de mulher que odiava homem, essas coisas que pregam pra gente.

Por exemplo, meu namorado foi comigo àquele encontro de mulheres com alopecia e todos diziam que ele era o máximo por ter me acompanhado. E eu pensava que ninguém nunca me achou incrível por ir em encontros de carros usados com ele…

Mudei muito. A militância para encontrar meu lugar no mundo me aproximou de outras causas e de outras pessoas que lutavam por esse mesmo direito. Consegui mudar meu ponto de vista em relação a várias outras coisas, como cotas, racismo etc.

Hoje, no meu trabalho acadêmico para a pós-graduação, pesquiso personagens negros em livros infantis que não reproduzem estereótipos e, também, estou comprando um monte de livro ruim sobre mulheres sem cabelos para escrever um artigo sobre representatividade da mulher careca nos livros para infância. Tive uma curva de aprendizado por acreditar que merecia esse lugar no mundo.

O que você começou a fazer?

Inicialmente fiz uma série de autorretratos que circularam bastante na internet, mas não falava sobre alopecia, só queria que me deixassem existir. Em 2014, me casei e mudei para o Rio de Janeiro. Como deixei meu trabalho, achei que era a oportunidade de me dedicar à arte, vendendo meus desenhos na praia, e atuar com responsabilidade social.

Fui trabalhar em uma ong que promove voluntariado, a Atados, onde fazia mapeamento de organizações que aceitavam voluntários, e acabei visitando o Hospital da Lagoa, especializado em tratamento de câncer.

O coordenador de voluntariado de lá me provocou: ‘você claramente não tem câncer, porém está muito tranquila em relação a ser careca; seria muito legal se viesse aqui fazer um trabalho com as mulheres que passam por quimioterapia, porque a perda dos cabelos é uma coisa que pega muito para o paciente de câncer’.

Ele tinha uma ideia de distribuir lenços como forma de aproximação para conversar com essas mulheres. Na Atados, estávamos organizando grupos de voluntários para fazer projetos e inscrevi este, ao qual dei o nome de Sereias Carecas, porque sou careca e gosto de sereias, e chamei algumas mulheres para participar. 

Apanhamos, no início, para chegar às pacientes, mas foi uma experiência muito rica, principalmente para mim, já que as demais voluntárias nunca tinham sido carecas. Eu chegava com o lenço e perguntava se estavam sozinhas.

A primeira coisa que percebi é que os homens estavam sempre acompanhados de mãe, esposa, filha, mas as mulheres estavam sempre sozinhas durante a quimioterapia. Tinha uma senhora que levava o neto que ela continuava cuidando durante a terapia dela…

Foi quando tive a noção completa de quanto o mundo é desigual para as mulheres, e pude ter conversas muito sinceras sobre não ter cabelo, que é diferente para pacientes com câncer.

Por que é diferente?

Elas não têm cabelo durante o tratamento, é uma condição transitória. Mas, quando perdem o cabelo, deixam de ser uma pessoa, para ser uma coitada. Para elas, a grande questão de sair na rua careca não tinha necessariamente relação com espelho, mas com ser apontada e abordada na rua.

A preocupação delas, ao sair com a família, era que seus maridos e filhos não passassem por esse constrangimento. Isso mostra o quanto a sociedade precisa mudar a forma como encara a mulher careca e todos que estão fora do padrão.

Você continua nesse projeto?

Trabalhei bastante nele, mas voltei para São Paulo. O projeto ainda existe e mantém o nome. Depois disso, em 2017, no Setembro Azulmês de conscientização sobre alopecia -, resolvi durante todos os dias, no meu Facebook pessoal, contar histórias de como era ser uma mulher careca.

Já tinha feito alguns posts antes explicando o que era a alopecia, mas o que queria agora era que as pessoas entendessem o quanto é desagradável ter negado seu direito a uma existência ordinária, andar na rua sem ser abordado. 

Passei a contar minhas histórias, desde as pessoas que gritavam ‘câncer’ pra mim na rua até o cara que disse que não dava para me apresentar em casa. Coisas que queria elaborar e tirar do peito. Uma vez estava com amigos de faculdade em um bar e, como sempre desenho, um deles pediu para eu desenhar uma heroína, mas quando a desenhei careca, ele disse para eu colocar cabelo nela porque estava horrorosa. As pessoas na mesa só perceberam o quanto fiquei arrasada e que aquilo era ofensivo quando levantei chorando e fui embora.

De repente, percebi que as pessoas estavam compartilhando e comentando as histórias e cobravam, no meio do dia, quando a próxima seria postada. Amigas me disseram que isso não poderia ficar restrito ao Facebook.

Criei um site Sereias Carecas, mas era uma militância totalmente voluntária para a qual eu tinha que pagar para fazerem arte etc, por isso desisti. Mas mantive uma página no Facebook e no Instagram e organizei alguns encontros presenciais, que foram muito legais. Comecei a falar do Sereias para todo mundo. Mais mulheres começaram a me procurar, querer conversar e trocar ideias sobre como é existir nesse mundo onde, às vezes, não se é aceita nem pela família. Falei com mulheres que não podiam ficar sem peruca em casa, porque a mãe não aceitava.

Qual o impacto dessa iniciativa?

Consegui inserir o tema em outras iniciativas, como um ensaio fotográfico de um fotógrafo israelense sobre grupos minoritários, para o qual encontrei voluntárias, e também para campanhas, como um ensaio de moda também com mulheres sem cabelos.

Conheci muitas mulheres, com relações muito diferentes com a alopecia, como a Daniele Lemos e a Mariana Amaral, ambas com alopecia universal, que é quando a pessoa não tem nenhum pelo, nem cílios.

As duas se tornaram, em um primeiro momento, minhas consultoras quando tinha alguma dúvida, depois as convidei para me ajudar a manter o Sereias Carecas. 

É duro, porque somos três mulheres muito ocupadas e continua sendo algo que fazemos em nossas horas vagas.

Há pouco tempo, porém, conheci uma moça que nos segue e cuja alopecia avançou muito em um ano. Me contou que raspou a cabeça para se sentir melhor e que foi no Sereias que encontrou apoio e onde há bom conteúdo sobre o tema.

Além disso, se nos mandam mensagens, respondemos, chamamos para conversar. Temos muito cuidado em atender cada pessoa, individualmente. 

Como você divide seu tempo e inclui o Sereias Carecas na agenda?

Não sou de família abastada, por isso optei em fazer Direito. Mas, desde a faculdade, achava que poderia mudar o mundo com o meu trabalho, sempre fui militante, participava do Centro Acadêmico.

Queria trabalhar com ONG, o que acabei fazendo na Atados e, depois na Habitat, organização que trabalha com a causa da moradia, com reformas de casas e acesso à água, na qual também trabalhei com voluntariado por dois anos e atualmente sou voluntária.

Hoje, trabalho com voluntariado corporativo e desenvolvimento social na Coca-Cola Femsa, mas o Sereias também é uma prioridade. 

Nossa luta é para que não existam padrões pré-estabelecidos e para que as pessoas olhem pra gente com normalidade e não precisemos nos encaixar no padrão. As pessoas acham que aceitar a alopecia depende apenas da sua autoestima, se eu me resolver com o espelho, está tudo bem.

Ter autoestima reforçada é bom, mas seria melhor se a sociedade conseguisse entender a existência de corpos divergentes como existências válidas.

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque): arquivo pessoal

Comentários
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Notícias Relacionadas
Sobre o autor
PUBLICIDADE
Receba notícias por e-mail

Digite seu endereço eletrônico abaixo para receber notificações das novas publicações do Conexão Planeta.

  • PUBLICIDADE

    Mais lidas

    PUBLICIDADE