Sylvia Masini: fotojornalismo como forma de lutar pelos direitos humanos e pela democracia

Sylvia Masini: fotojornalismo como forma de lutar pelos direitos humanos e pela democracia

Há mais de 30 anos, a fotojornalista Sylvia Masini registra a cidade de São Paulo, 14 deles dedicados a espetáculos culturais promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura. Mas, assim que identificou a importância da cultura e da união dos artistas como força social, decidiu que poderia fazer mais para tentar mudar a realidade, reconhecendo o fotojornalismo como um instrumento cultural e político.

Em 2019, integrou o coletivo Fotógrafas e Fotógrafos pela Democracia e, em seguida, passou a colaborar também com o FIP – Festival de Imagens Periféricas, cujo objetivo é aproximar fotógrafos das regiões centrais da cidade com os da periferia, promovendo formas de trocar experiências e trabalhar juntos. A segunda edição deve acontecer em 2023.

Você se considera uma ativista?

Sim, sou uma ativista. Atuar junto ao Fotógrafas e Fotógrafos pela Democracia já é uma ação política. Os atos públicos dos quais participo, que fotografo e compartilho também são minha forma pessoal de somar na luta contra a desigualdade social, o racismo, o machismo, contra a violência aos povos indígenas e a população de rua.

Então, sou ativista há muitos anos. Só não tinha consciência disso por ser tão natural em mim.

O que faz e quem integra o coletivo ‘Fotógrafas e Fotógrafos pela Democracia’?

É formado por um grupo de profissionais que, em 2016, sentiu a necessidade de ir para as ruas por conta do processo de impeachment e registrar o que estava acontecendo. Na época, o coletivo se chamava Fotógrafos contra o Golpe.

O nome mudou para Fotógrafos pela Democracia em 2018, quando foram para as ruas conversar com as pessoas sobre a importância de votar em pessoas com um compromisso maior com a cidade e a população. Dele participam pessoas de várias partes do país que, de alguma maneira, trabalham com fotografia, não apenas jornalistas, mas também antropólogos, professores e pesquisadores.

É um grupo político, independente, sem fins lucrativos e que luta pelos Direitos Humanos e contra o retrocesso político que estamos vivendo.

Há muito tempo, percebemos a necessidade de marcar posição em relação aos gêneros e, agora incluímos fotógrafas ao nome do grupo.

Não faço parte desde o início, comecei depois que saí da Secretaria Municipal de Cultura do Município de São Paulo, onde fotografava espetáculos promovidos pela Prefeitura em toda a cidade, e a Mônica Zarattini me convidou para participar de uma das ações do grupo: um leilão de fotos do ex-presidente Lula, que encontrava-se preso.

Depois, quando Preta Ferreira, ativista do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e seu irmão Sydney Ferreira foram presos de forma totalmente injusta por quase três meses, reunimos fotos sobre o tema moradia de todo o país e colocamos à venda durante dois dias em um varal na Ocupação Nove de Julho, na região central de São Paulo. Arrecadamos uma boa quantia e doamos para a família da Preta e do Sydney para ajudar nos gastos daquele período.

Agora, fomos convidados pela Comissão Arns para fazermos uma parceria com eles, montando um banco de fotos sobre direitos humanos que serão compartilhados pela organização em um site. O grupo começou pequeno, criou um manifesto e, hoje, conta com cerca de 200 fotógrafos associados pelo Brasil inteiro. 

O que levou você a participar desse grupo?

Durante os 14 anos em que fui fotógrafa na Secretaria de Cultura, estive em contato com artistas de teatro, dança, música e presenciei como os espetáculos trazem muito da sociedade, das dificuldades pessoais. Percebi que a cultura é um movimento político e como os artistas são unidos.

E pensava por que os fotógrafos não conseguem organizar um grupo que os represente em questões de direitos e ações dos governos voltadas para a fotografia? A fotografia também fala às pessoas e causa impacto por meio da imagem. Passei a ter consciência que o meu trabalho é político.

E o que é o Festival de Imagens Periféricas?

É um outro movimento que também surgiu de um grupo de fotógrafos, alguns do Fotógrafas e Fotógrafos pela Democracia, formado pela constatação da necessidade de promover encontros de fotógrafos do centro e da periferia no município de São Paulo. Percebemos que existe um distanciamento entre esses grupos e pensamos em promover um diálogo horizontal que nos aproximasse.

Lambe-lambe produzido durante o FIP e exposto em muro de uma escola no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo / Foto: Júlio César Almeida

Contatamos fotógrafos e coletivos da periferia e encontramos grupos bem-organizados. Juntos criamos o FIP – Festival de Imagens Periféricas, realizado coletivamente em março de 2021. Como ainda estávamos na pandemia, realizamos oficinas e diálogos online, tratando de temas como cultura, gente, memória, moradia e sobrevivência, além das diferenças entre o centro e a periferia da cidade. Foi uma experiência maravilhosa, principalmente por trazer uma visão positiva, mas sem romantizar a periferia.

Abríamos as conversas com um desafio no Instagram e as pessoas mandavam fotos relacionadas com os temas propostos, que comentávamos e publicávamos. No final do projeto, ainda em plena pandemia, reunimos todas as fotos enviadas e projetamos em um prédio da Rua da Consolação. A projeção durou quase três horas.

Depois, fizemos a curadoria das fotos, imprimimos ao estilo lambe-lambe e colamos em alguns muros em todas as regiões da cidade: Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro ().

Imprimir e colar as fotos foi o grande final do projeto e quando nos conhecemos pessoalmente, já que, por conta das restrições da covid-19, muitos do grupo só se conheciam virtualmente. Desse processo, surgiu o Bora, formado pelo mesmo grupo que organizou o festival e com o qual realizamos outras 15 oficinas online no ano passado.

Esse é um grupo direcionado para trabalhar com a comunidade?

Sim, somos um grupo de cerca de 30 pessoas que trabalham juntas e se mobilizam para conseguir recursos com o objetivo de ampliar o diálogo, sempre trazendo pessoas novas.

Agora, queremos fazer a segunda edição do FIP, para continuar usando a fotografia como uma forma de expressão e uma forma de nos posicionarmos política e socialmente. Por isso, é um festival onde se discute fotografia, mas que traz muita emoção ao abordar questões como racismo, feminismo e exclusão, entre outros.

A fotografia jornalística, hoje no Brasil, tem atendido a esse anseio: mostrar a realidade?

Há muitos fotógrafos que trazem um olhar diferenciado sobre a Amazônia, por exemplo, fotógrafos que fazem política, ambientalistas que têm um trabalho muito forte. No fotojornalismo independente, acredito que haja um ativismo político, exemplos são Mídia Ninja e Jornalistas Livres.

No jornalismo institucional é mais difícil porque depende da linha editorial que o jornal segue e esse tipo de jornalismo não está com força política de transformação.

Mas há fotógrafos fazendo trabalhos pessoais incríveis, mostrando a vida das pessoas excluídas, esse lado do Brasil que a gente ainda desconhece. A fotografia faz parte da cultura, mas hoje essa área não tem dinheiro, seja para uma exposição ou para um livro.

O atual governo tem destruído todas as leis de incentivo. Vetou as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. Acaba de vetar um projeto que tirava impostos de equipamentos fotográficos. Há uma política gigante contra a cultura.

Edição: Mônica Nunes

Foto: autorretrato

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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