Beatriz Diniz: “Precisamos saber mais e usar melhor os recursos das redes sociais para espalhar nossas causas”

Com atuação dedicada às pautas ambientais, a comunicadora Beatriz Diniz passou a militar ativamente no Twitter para que organizações voltadas às causas de direitos humanos e ambientais usassem melhor essa plataforma.

Para tanto, articulou e organizou um treinamento oferecido pela própria plataforma para esse grupo, criou uma newsletter e dá consultoria sobre o tema. Em alguns casos, entra em contato com a pessoa ou a organização para dar alguma dica que considera imprescindível.

Em tempos de acirramento nas redes sociais, Beatriz conta, aqui no blog Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, sobre sua trajetória e motivações, além de ajudar a pensar em como podemos fazer melhor uso de seus recursos.

“Precisamos saber mais e usar melhor os recursos para espalhar nossas causas. As plataformas de mídias sociais são espaços de disputa de narrativas e a extrema direita ganha da gente”, destacou.

“A primeira coisa que deveríamos fazer é agir em rede nas plataformas: nos compartilhar, validar e comentar aliados, mesmo que não estejamos com tempo de ler tudo ou concordemos totalmente. Essa é a forma como dizemos para as plataformas que o conteúdo nos interessa”.

Como você se tornou ativista?

Sou apaixonada por comunicação. Me formei em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, mas não sou repórter, sou produtora de conteúdo e editora. Enquanto estudava, participei do primeiro Dia da Terra no Brasil como voluntária na produção. Depois, na Rádio e TV Búzios, que era uma proposta interessante de jornalismo ecológico e comunitário, e com projetos como o SOS Região dos Lagos, fazíamos grandes shows em áreas ameaçadas, como em Massambaba, onde Gilberto Gil cantou.

Depois de formada, me mudei para o Mato Grosso do Sul a convite de uma amiga da faculdade que é de lá. Trabalhei em campanhas eleitorais a partir de 1992, quando ainda eram baseadas em jornalismo, dados. Fui convidada para trabalhar na Secretaria Municipal de Cultura de Campo Grande e comecei a ter contato com políticas públicas.

Morei 14 anos na cidade e foi onde desenvolvi minha carreira. Conheci organizações não governamentais e passei a fazer assessoria de comunicação e de imprensa para o Movimento Popular de Mulheres, o Centro de Documentação e Apoio aos Movimentos Populares (Cedampo) e a Comissão de Direitos Humanos da OAB/MS.

Trabalhei, ainda, na Secretaria de Estado da Educação, em uma época em que o Ministério da Educação capacitou todos os assessores de comunicação das secretarias estaduais para ampliar a pauta de educação. Isso foi importante porque apliquei esse conhecimento em todas as políticas públicas para as quais trabalhei.

Como se aproximou da pauta ambiental?

Isso aconteceu em Mato Grosso do Sul. Mas, no final de 2005, quis voltar para o Rio de Janeiro por conta da família. Quando cheguei foi difícil conseguir uma colocação e, como meio ambiente e sustentabilidade eram tendências, fiz uma extensão na Fundação Getúlio Vargas em Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Socioambiental Corporativa.

Nos fóruns do curso, percebi que meus comentários faziam muito sucesso na turma, então, passei a publicar sobre o tema nos meus perfis do Facebook e do Twitter. Quando o Facebook lançou as páginas, resolvi experimentar e criei o Eco Lógico Sustentabilidade.

Paralelamente, atuei na comunicação de um dos postos do Sistema Nacional de Emprego (Sine), ligado à União Geral dos Trabalhadores (UGT), o maior da cidade do Rio de Janeiro e o primeiro informatizado e online no país. Consegui parcerias com o programa Bom Dia Rio e com o jornal Extra para divulgar semanalmente vagas de empregos. E fiz uma especialização em Gestão Ambiental enquanto seguia produzindo conteúdo para o Eco Lógico.

Essa página era trabalho voluntário?

Sim, eu produzia conteúdo sobre meio ambiente, sustentabilidade e clima, relacionando com economia e comunicação. Comecei ainda antes do Facebook, enviando para minha rede de contatos via e-mail. Depois, criei a página, e funcionava bem porque o Facebook ainda entregava conteúdo, era possível burlar o algoritmo usando hashtags, marcando pessoas.

Mas o modelo de negócios mudou, você hoje pode ter uma página, mas não tem alcance. Essa é a grande diferença entre Twitter e Facebook.

Foi por isso que apostou no Twitter?

Isso. A vantagem do Twitter é que ele entrega. Se você olhar qualquer tweet seu, mesmo que não tenha nenhuma curtida ou comentário, vai ver que ele foi entregue, às vezes até para mais de 100 pessoas. Claro que seu conteúdo pode não ter interação, mas ele foi entregue.

A partir disso, você pode olhar para sua publicação e ver o que poderia ter usado, em termos de linguagem ou técnica, para alguém interagir. Fazer uma pergunta, por exemplo, porque o Twitter é uma rede que gosta de conversas. Isso é uma técnica.

Como você iniciou o trabalho para o bom uso do Twitter com organizações e ambientalistas?

Em 2014, quando terminei a especialização, meu trabalho de conclusão de curso em Gestão Ambiental demonstrou como a comunicação pode colaborar para a sociedade entender melhor a sustentabilidade e como aplicar princípios da gestão ambiental e da política de responsabilidade social à comunicação de empresas socioambientalmente responsáveis.

Eu escrevia para o EcoDebate, Envolverde e revista Ecológica (que não existe mais) e levava tudo isso para o Twitter, por perceber que, no Facebook, o esforço era muito grande para falar com a mesma bolha. Já o Twitter é uma plataforma com vários recursos para distribuir conteúdo

Hoje, as organizações ambientais, de direitos humanos e políticas públicas precisam investir na gestão profissional das plataformas de mídias sociais, pois estão acostumadas com métodos de comunicação do século passado.

Não adianta gerar pauta no Jornal Nacional e não distribuir a matéria, não usar técnicas do marketing digital, inclusive, porque repetição é sinônimo de relevância. É a técnica que a imprensa usa para dar destaque a uma matéria: repete os tweets de cinco em cinco minutos e diz para a audiência que é relevante.

Os ativistas estão utilizando bem as redes sociais?

Um exemplo é a análise da Carina Pensa, que coletou dados do Twitter antes da última COP do Clima sobre perfis que estavam falando sobre mudanças climáticas, usando hahstag e o termo mudanças climáticas. A extrema direita usou muito mais do que os ambientalistas.

Durante a COP, a Lori Regattieri fez um painel em que acompanhou Instagram, Facebook e Twitter e mostrou que, quem mais falou sobre mudanças climáticas durante a conferência, foram Ricardo Salles (então, Ministro do Meio Ambiente) e Bia Kicis (deputada federal do partido do governo). Comentei sobre isso na edição 4 da minha newsletter.

Como isso acontece?

A extrema direita se apropria dos termos usando repetidamente nas redes para negar. É importante gerar uma matéria na Folha de São Paulo, mas esse conteúdo é aberto apenas para assinantes e, para ter realmente repercussão, precisa circular, chegar no “zap” das pessoas.

Então, se uma matéria foi publicada, é preciso usar o marketing digital para uma distribuição massiva e repetitiva, incluindo os termos-chave.

O trabalho de orientação para as organizações, sobre o uso do Twitter, foi voluntário?

Foi porque eu passei a usar mais o Twitter e a entender a plataforma. Organizações, comunicadores e meios especializados devem ter o seu tom de voz definido para serem facilmente reconhecidos com credibilidade.

Desde 2018, sou também voluntária do Voz das Comunidades, jornal comunitário do Complexo do Alemão, fundado pelo Renê Silva quando tinha 11 anos.

Fui colunista de meio ambiente e sustentabilidade. Em um treinamento para a equipe sobre como usar a plataforma, conheci o profissional responsável por políticas públicas do Twitter e sugeri um treinamento só para ambientalistas. Foram meses de articulação até que conseguimos realizar, no início de 2020, um evento presencial em São Paulo com transmissão online.

Organizei-o com o apoio da Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, e chegamos a mais de 150 ambientalistas, comunicadores e jornalistas inscritos. Com esse contato direto, por exemplo, o Projeto Saúde & Alegria recuperou sua arroba original. Essa era uma questão antiga: a conta havia sido roubada antes das milícias digitais e, por isso, estava suspensa. Finalmente, foi devolvida.

O que aconteceu depois disso?

Foi um treinamento básico, que explicava como o Twitter funciona, mas não dava o “pulo do gato”, as técnicas. Então, comecei a falar mais sobre isso, dar dicas. Quando a conta da pesquisadora Erika Berenguer foi invadida, ajudei para que fosse recuperada rapidamente, fiz um spaces’ com ela e a Adriana Ramos e, depois, ainda fiz uma ‘sequência’ com informações: o que fazer se sua conta for invadida, como se proteger. Percebi que havia demanda e comecei a produzir uma newsletter. 

(*NOTA DO CONEXÃO PLANETA: no Twitter, ‘SPACE é uma conversa de áudio ao vivo; quanto à ‘SEQUÉNCIA’, que também é chamada de ‘FIO’, é um recurso utilizado para completar a informação do tweet principal com mais tweets, sem limite; esses textos adicionais aparecem junto com os comentários de seguidores e os seus).

Hoje, sou a eiiamoreco comunicação de propósito. Propósito no sentido de intencional, que é como deve ser a produção de conteúdo especializado para engajamento, informação e inspiração.

Aplico treinamentos e faço consultoria de marketing digital e Twitter para conteúdo relevante voltados para ativistas e comunicadores. Apliquei esse treinamento gratuitamente para jovens da Greve pelo Clima e do podcast Ju Pimenta do Engajamundo.

E consegui começar a atender organizações, projetos e meios como a Política por Inteiro, Clima de Eleição, CPT Nacional, ClimaInfo, Justa Moda e revista Cenarium.

Uma das questões que enfatizo nos treinamentos, na newsletter e nas minhas publicações é que nosso comportamento nas redes também é uma forma de nos dar segurança, para não atrair odiadores e odiação.

Estamos lidando com milícias digitais, não podemos esquecer disso, e isso não vai acabar amanhã.

Como fazer para fazer frente a essa guerra de informações?

É preciso entender que as plataformas de mídias sociais não vão banir a extrema direita porque ela é lucrativa, publica e interage muito, usam seus recursos ao extremo. A primeira coisa que deveríamos fazer é agir em rede nas plataformas: nos compartilhar, validar e comentar aliados, mesmo que não estejamos com tempo de ler tudo ou concordemos totalmente. É como dizemos para as plataformas que o conteúdo nos interessa e é de um aliado.

Além disso, as organizações precisam investir em gestão profissional das plataformas de mídias sociais e atualizar sua presença digital. As plataformas se atualizam a partir das atualizações umas das outras e é um negócio frenético a serviço da economia de consumo. 

O modelo de negócio inaugurado pelo Zuckerberg com o combo Facebook-Instagram-WhatsApp consolida a economia extrema de consumo.

Eu tenho um perfil da eiiamoreco no Instagram para divulgar produtos de design com causa que vendo no Colab55. Se eu coloco “olhem essa camiseta, ela é 100% sustentável, de algodão…”, o Instagram entrega para cinco pessoas, se eu começar com a frase “compre agora”, entrega para 80.

É possível que as redes sociais melhorem?

As redes sociais, como já conhecemos, não existem mais, são plataformas de mídias sociais, o que inclui aplicativos de mensagens, como Whatsapp e Telegram. É um negócio, vai sempre se atualizar pra atender ao mercado.

Por isso é que nós precisamos saber mais e usar melhor os recursos para espalhar nossas causas. As plataformas de mídias sociais são espaços de disputa de narrativas e a extrema direita ganha de nós. Só ganhamos quando chega uma Anitta!

Furar a bolha nas redes é possível?

Sim, mas tem que usar as técnicas de marketing digital: sequências e tuitaços no Twitter são recursos que já bateram no teto, precisa combinar com momentsspaces, e chamar seguidores se quiser furar a bolha.

Por exemplo, o perfil Fiscal do Ibama tem mais de 151 mil seguidores, se quiser fazer um twittaço é bom avisar ele, além de chamar também microinfluenciadores. E precisamos saber usar os recursos para dialogar mais com nossos seguidores, como as comunidades no Twitter. 

Qual o papel do jornalismo nesse processo?

O jornalismo vai pautar meio ambiente, clima e sustentabilidade todo dia, por bem ou por mal. Atualmente estamos vendo que a imprensa está pautando por mal, obrigada pelo contexto de desmonte da política pública de meio ambiente e da facilitação de crimes ambientais.

Edição: Mônica Nunes

Foto: Sarah Soares

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.