
Aos 28 anos, a maranhense Cricielle Muniz leva seu ativismo para tantas áreas quanto consegue dar conta. Líder do Movimento Popular da Juventude em Disparada, em São Luís, foi uma das fundadoras de um cursinho pré-vestibular – De Boas, Arte, Cultura e Educação Popular -, para ajudar jovens periféricos a acessar a universidade. Também é militante feminista e participa ativamente da Marcha das Mulheres, além de ter coordenado a implantação dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, da ONU, no Maranhão (que depois foram substituídos pelos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável).
Com a chegada da pandemia da Covid-19, Cricielle foi uma das idealizadoras da iniciativa Solidariza, que recolhe doações para distribuir cestas básicas, principalmente para famílias chefiadas por mulheres que não conseguem trabalhar neste momento. “Buscamos minimizar as consequências da pandemia por meio de doações, mas são ações paliativas. O vírus tem sido seletivo por aqui, escolhendo raça e classe social. É preciso pensar em uma sociedade menos desigual para quando a pandemia acabar.”
Para que isso aconteça, Cricielle, que é formada em Direito, defende maior participação feminina nos espaços de poder.
O que a fez se tornar uma ativista?
Algo nos move quando estamos desconfortáveis com a situação que nos rodeia. Venho da Ilhinha de São Francisco, em São Luís, no Maranhão, filha de mãe doméstica e pai autônomo com seis filhos. Sou uma jovem negra da periferia, fruto de várias políticas sociais, como Bolsa Família e Fome Zero, que me proporcionaram estudar. Já no ensino fundamental participava do Grêmio Estudantil e lutei para conseguirmos uma quadra na escola, pois não tínhamos educação física.
Em 2013, participei do movimento contra o aumento de passagens, porque via o impacto que o custo da condução tinha na minha família e comunidade, e desde então me envolvi com ativismo em várias áreas, inclusive a partidária (sou filiada ao PT). Dizem que sou várias pessoas, por atuar com juventude, feminismo, sustentabilidade e até contra a intolerância religiosa, pois também sou evangélica.
Minha meta, como mulher negra, é ocupar os espaços de decisão. Me formei em Direito, pagando os estudos com meu trabalho. Agora espero voltarem as provas para tirar a carteira da OAB para poder advogar.
Quais são suas atividades no movimento de juventude?
Sou conselheira municipal de Juventude de São Luís e participo do Movimento Popular da Juventude em Disparada, criado em 2017 com o objetivo de provocar diálogos com a sociedade para além dos partidos políticos. Estamos presentes em 12 estados. Aqui em São Luís, junto com o movimento negro, fundamos há três anos o De Boas – Arte, Cultura e Educação Popular, um cursinho pré-vestibular voltado a possibilitar o acesso à universidade aos jovens da periferia, além de trazer também arte e cultura para eles.
O De Boas é coordenado por jovens universitários voluntários, a maior parte estudantes de Direito. Também oferecemos consultoria jurídica popular para a comunidade. Dou aulas principalmente de redação, faço palestras e levo convidados para falar sobre direitos humanos e direito do consumidor em rodas de conversa semanais. Falamos sobre gênero, raça, classe – recorte temático com o qual trabalho.
E o feminismo, como entra em sua vida?
Desde 2014, faço parte da Marcha das Mulheres, por meio do Conselho Municipal de Juventude. Atuamos para empoderar e dar autonomia às mulheres, tanto do meio urbano como rural. Desenvolvemos ainda atividades para fortalecer os movimentos, como manter um brechó e conseguir doações de roupas.
Você também se dedica à pauta ambiental?
Fui coordenadora dos Objetivos do Milênio no Maranhão, a agenda da ONU que definiu os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030 (Agenda 2030). Trabalhamos para conscientizar e capacitar os gestores do executivo municipal dos 30 municípios de menor IDH do Estado sobre como implantar os ODS. Embora não esteja mais na coordenação, continuo participando, como representante do grupo de mulheres.
Também acompanho pautas municipais de São Luís, como o Plano Diretor, no qual querem reduzir em 40% a atual zona rural para urbana. Isso tem consequências territoriais e culturais para cidade, além de obrigar moradores a pagar IPTU e ter contas de luz mais caras, por exemplo.
Como ficaram essas atividades com a pandemia?
Foram todas suspensas. Nossa última atividade na Marcha das Mulheres foi a passeata de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, antes da pandemia. Também suspendemos as aulas do cursinho, pois a maior parte dos alunos não tem internet. Imprimimos apostilas para que possam estudar em casa.
Com isso, nosso grupo sentou para conversar sobre como poderíamos colaborar. Em um primeiro momento, pensamos em arrecadar sabão e álcool em gel, mas vimos que as pessoas precisam mesmo é de comida.
Assim, criamos em 29 de março, o Solidariza, para ajudar sobretudo mulheres que sustentam as famílias sozinhas e que, com a pandemia ficaram sem poder trabalhar, como as empregadas domésticas.
Como atua o Solidariza?
Fazemos coletas de doações durante a semana e, aos sábados, distribuímos cerca de 70 cestas básicas, a partir de uma parceria com a Central Única das Favelas. Como respeitamos os protocolos de isolamento, as cestas são entregues para representantes das organizações. Já distribuímos mais de 2,5 toneladas de alimentos.
Infelizmente, o Estado diz para ficar dentro de casa, mas a periferia não sabe o que é isolamento social. Evitar lugares aglomerados é quase impossível para quem vive em um cômodo com mais de três pessoas, sem acesso à água ou ao saneamento. Sou a realidade disso.
No meu bairro, na periferia de São Luís, não há delivery, tem que ir ao mercado e à feira. O acesso à saúde é difícil e não existem testes, e, sem teste, não há internação. Na comunidade em que moro, a água chega dia sim, dia não. É preciso encher a caixa d’água e baldes. São Luís está entre as 20 cidades com pior investimento em saneamento básico.
Vivemos uma realidade difícil e o vírus escolhe classe social e raça. Aqui, a Covid-19 é seletiva em um processo que potencializa as desigualdades. Não sabemos como esse processo vai terminar, mas não quero que volte à normalidade.
Temos que refletir sobe qual sociedade queremos daqui para frente. O Solidariza busca minimizar as consequências da pandemia por meio de doações, mas estas são ações paliativas.
Como você vê a participação da mulher na política?
Um dos maiores inimigos das mulheres é a desigualdade social, que reflete na desigualdade política, principalmente para mulheres negras, que não estão em espaços de decisão. O estudo Democracia de Quem?, do pesquisador Pedro Telles para o Instituto Update, mostra que 85% dos membros do Congresso Nacional são homens, 76% são brancos e quase 50% possuem mais de R$ 1 milhão em patrimônio, ou seja, estão entre os 0,1% mais ricos do país, enquanto 27% da população vive na extrema pobreza.
Em São Luís, temos apenas três vereadoras. Na Assembleia Legislativa no Maranhão são oito mulheres, cinco delas esposas de prefeitos do interior do estado. Não nos encontramos nesse espaço. As mulheres precisam reivindicar seu lugar de fala.
Este ano de 2020 tem sido desafiador nesse sentido por ser um momento atípico. Não podemos ter contato direto com as pessoas e nem todas têm acesso à internet. Mas temos que falar e disputar a narrativa. Ser um contraponto para reforçar a luta antirracista, que ganhou força com o movimento estadunidense após o assassinato de George Floyd, pois esses problemas acontecem muito próximos da gente, com política e polícia opressoras. Jovens e mulheres, principalmente as negras, precisam voltar a encantar a sociedade brasileira.
Edição: Mônica Nunes
Foto: arquivo pessoal
Woman Power!!