Após morte da mãe, filhotes de lobo-guará são levados para zoo de Brasília, para no futuro, poderem voltar à natureza

Após morte da mãe, filhotes de lobo-guará são levados para zoo de Brasília, para no futuro, poderem voltar à natureza

*Atualizado em 11/09/20

Há nove meses a lobo-guará Caliandra era monitorada por meio de um colar GPS pelos pesquisadores do Onçafari*. As informações sobre seu comportamento auxiliavam nos estudos e pesquisas científicas relacionados à espécie, a Chrysocyon brachyurus. Sabia-se que a fêmea tinha dado à luz recentemente.

Todavia, durante dois dias, o instrumento de monitoramento de Caliandra deixou de emitir sinais. Preocupado, o time do Onçafari decidiu ir a campo e descobrir qual era o problema. O colar poderia ter simplesmente caído ou deixado de funcionar. Foram até a toca, localizada nos arredores da Fazenda Trijunção, em Goiás.

Mas, infelizmente, a notícia não era boa. A loba-guará tinha morrido (ainda não se sabe a causa). Seu corpo foi encontrado a cerca de dez quilômetros do local. Entretanto, seus cinco filhotes continuavam vivos. Acredita-se que tenham nascido no dia 1o de junho e ficaram órfãos no último dia 23.

No dia 25, ou seja, depois de provavelmente terem ficado dois dias sem comer, os animais foram resgatados pelo pessoal do Onçafari por recomendação do CENAP/ICMBio (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros).

Graças a um planejamento muito rápido e ágil, os filhotes foram encaminhados para o Berçário do Zoológico de Brasília, o lugar mais próximo da região e que tinha condições de cuidar apropriadamente dos pequenos animais. A viagem foi de carro e durante todo o trajeto, biólogos acompanharam as condições dos lobinhos.

Um dos cinco filhotinhos resgatados

Após a chegada ao zoológico, os filhotes passaram por um exame clínico inicial para avaliar condições como frequências cardíaca e respiratória, temperatura, nível de hidratação e peso.

“Realizamos uma análise bem detalhada, pesagem e, depois, os alimentamos. No geral, eles estavam clinicamente bem, mas com indícios de desidratação, já que ficaram 48h sem os cuidados da mãe. Além disso, observamos que as mucosas estavam pálidas, indicando uma possível anemia”, relatou a médica veterinária Fernanda Mergulhão.

De acordo com o zoo, os filhotes passarão ainda por exames mais detalhados para diagnosticar possíveis infecções no sangue e parasitas nas fezes. Depois disso, receberão uma dieta adequada para cada indivíduo.

“Como esses filhotes já estão em fase de pré-desmame, iremos iniciar uma alimentação sólida, que inclui carne, rações e frutas”, explica Lucas Carneiro, zootecnista responsável pelo setor de alimentação e nutrição animal.

Para Mario Haberfeld, fundador do Onçafari, é possível que esses animais sejam devolvidos à natureza no futuro. Para isso, precisarão passar por treinamento e em um certo momento, começarem a manter um distanciamento de humanos.

Em 2016, em parceria com outras organizações, o Onçafari conseguiu fazer a reintrodução, bem-sucedida, de duas onças-pintadas, na vida selvagem, como mostramos nesta outra reportagem.

O lobo-guará brasileiro

Espécie típica do Cerrado brasileiro, o Chrysocyon brachyurus é o maior canídeo selvagem da América do Sul. Infelizmente, ele encontra-se ameaçado de extinção, devido principalmente à destruição de seu habitat pelo desmatamento.

O nome guará vem da língua indígena e significa “vermelho”. Com aproximadamente 90 cm de altura, pesa, em média, 23 kg. De hábitos solitários, macho e fêmea se encontram somente para reproduzir e cuidar dos filhotes.

Após morte da mãe, filhotes de lobo-guará são levados para zoo de Brasília, para no futuro, poderem voltar à natureza

O lobo-guará é um animal de atividade noturna, que tem o olfato extremamente sensível e orelhas longas, que conferem a ele uma excelente capacidade auditiva também. Pode detectar suas presas a uma grande distância. Suas pernas longas facilitam a locomoção.

Assim como outras espécies, usa sua urina e fezes para demarcar território. Apesar de carnívoro, o lobo-guará gosta muito de frutas. Uma inclusive, leva seu nome: a fruta-do-lobo.

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O Zoológico de Brasília tem usado suas redes sociais com frequência para dar notícias sobre o desenvolvimento dos filhotes de lobo-guará. Em meados de julho, anunciou o nome dos lobinhos, escolhidos através de uma votação popular na internet: Mangaba, Araticum, Pequi, Seriguela e Baru.

Em agosto, o zoo divulgou esta foto abaixo, em que um dos filhotes aparece. À medida que crescem, as características da espécie ficam cada vez mais visíveis, como a cor avermelhada, as pernas compridas e pretas e o focinho e orelha alongados.

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*O Onçafari trabalha no Pantanal, Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica com o objetivo de promover a conservação do meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento socioeconômico das regiões em que está inserido por meio do ecoturismo e de estudos científicos. O projeto é focado na preservação da biodiversidade em diversos biomas brasileiros, com ênfase em onças-pintadas e lobos-guarás.

Presente há três anos no Cerrado, o Onçafari atua na Pousada Trijunção, uma fazenda com mais de 33 mil hectares no coração do bioma. Localizada na divisa dos estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás, o animal em foco desta base é o lobo-guará.

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Fotos: ivanmattoss_(filhotes) e divulgação Onçafari (lobo-guará adulto)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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