Um jardim para chamar de seu

pé de maçã

Nos dias atuais, em que cada vez mais o morar em prédios e edifícios rouba a oportunidade das pessoas terem seu próprio jardim, as novas gerações de crianças e jovens perdem gradativamente o contato com o verde. Tem que se olhar ao passado para lembrar a época em que, nos imensos quintais das casas dos avós, era possível subir em uma árvore e colher, ali direto do pé, jabuticaba, maçã, goiaba, manga ou pitanga. Hoje, muitos dos avós inclusive, também moram em apartamentos.

Mas em meio às grandes cidades européias, surge uma muito bem-vinda alternativa: o uso de pequenos loteamentos de terra para o plantio de vegetais e flores.

Várias vezes por semana, o aposentado suíço Alessandro Selva pega sua bicicleta e percorre um trecho de dois quilômetros entre seu apartamento e o Schrebergarten. Na horta deste aposentado de 78 anos, colhe-se de tudo. “Planto morango, framboesa, abobrinha, tomate, pimentão, beringela, vagem, cebola, cenoura, batata, vários tipos de alface, espinafre, pera, maçã, ameixa, uva e milho verde”, diz orgulhoso.

A horta de Selva foi plantada num jardim comunitário, onde assim como ele, outros moradores de Zurique, podem fazer o mesmo. O aposentado alugou o primeiro pedaço de terra quando tinha 38 anos. Naquele tempo, ele vivia com a esposa e três filhos em um apartamento de dois quartos. “Nessa época, a razão de alugar uma horta era a possiblildade de ter um lugar pertinho de casa que desse a sensação de férias na natureza. Nas noites de verão e nos finais de semana, íamos para lá curtir algumas horas afastados da cidade'”, relembra. “Meus filhos brincavam numa caixa de areia e eu e minha esposa nos dedicávamos a plantar, regar e colher verduras e frutas. Hoje uso o jardim para ocupar parte do meu tempo livre e me manter em forma”.

Na verdade, a ideia dos Schrebergarten ou Kleingarten, nome em alemão para estes espaços urbanos, não é nova. No final da Revolução Industrial, com o crescente número de pessoas migrando das áreas rurais para os centros urbanos, o médico e professor da universidade de Leipzig, Daniel Schreber, publicou um trabalho mostrando como a saúde das crianças estava sendo prejudicada pela falta de exercícios e acesso a áreas de lazer. Em homenagem ao pesquisador, os jardim ganharam seu nome: Schrebergarten.

Em países como Suíça, Holanda, Suécia, Dinamarca e – principalmente, Alemanha -, as hortas urbanas são bastante populares. O que começou como um projeto para melhorar a saúde dos pequenos, transformou-se numa bandeira pela união da família. “Jardins comunitários são sinônimo de saúde, integração, qualidade de vida e proteção da natureza”, afirma Malou Weirich, secretário geral do Office International du Coin de Terre et des Jardins Familiaux. A organização, fundada em 1926, é a maior da Europa e reúne três milhões de associados.

Uso supervisionado

Na maioria dos países europeus, esses terrenos são propriedade das municipalidades e governos estaduais. O tamanho da terra varia entre 50 e 400 m2. Na Suíça, por exemplo, as hortas têm em média 200 m2. Só em Zurique, são 5.500 loteamentos, média de um para cada 69 habitantes. Os usuários podem alugar o terreno por um período pré-determinado e renovar o contrato ao final do mesmo. Existem algumas regras para o uso do local, como por exemplo, não ter fim comercial.

Nos jardins da França, somente fertilizantes naturais podem ser utilizados. A água para irrigação deve ser da chuva, a compostagem é obrigatória e recomenda-se o plantio de flores que atraiam abelhas. Na Suécia e Dinamarca, o uso de agrotóxicos também é regulamentado. “Podemos plantar de tudo, mas devemos respeitar a rotatividade para evitar o empobrecimento do solo. Há uma lista de agrotóxicos e fertilizantes definida pela prefeitura para serem usados na horta”, explica Selva.

Projetos alternativos

Por toda Europa as associações dos jardins comunitários se unem para trocar experiências e também se fortalecer perante a sociedade. Na Holanda, a Federação Nacional dos Jardins Comunitários transformou a sede em centro público, onde as pessoas podem obter informações sobre jardinagem, assistir a palestras, fazer cursos e comprar sementes, plantas e ferramentas.

Na pequena cidade de Mönchengladbach, na Alemanha, os 260 mil habitantes contam com dois mil jardins comunitários. Desde 1971, estas áreas estão protegidas pela lei de planejamento urbano municipal. Um dos principais espaços da cidade está situado próximo a uma casa de idosos e uma escola. Hoje o jardim de Mönchengladbach é o lugar perfeito para que os mais velhos possam caminhar ao lado da natureza e crianças e pais descubram novas plantas e vegetais.

Qualquer cidade do mundo pode ter um Schrebergarten. O nome é difícil, mas o conceito é simples. Um terreno vazio transformado em jardim ou horta para a comunidade. Ganham todos: cidadãos, espaço urbano e biodiversidade. “Até quando a saúde permitir, vou continuar ocupando uma parte do meu tempo livre assim”, garante Alessandro Selva.

Benefícios do jardim comunitário

• Jardineiros e suas famílias estão em contato com a natureza;
• Crianças aprendem que o alimento vem da terra e têm acesso a uma refeição mais saudável;
• União e integração da comunidade;
• Produção local de alimentos;
• Redução do barulho e poluição urbanos;
• Criação de áreas verdes e espaços abertos nas cidades.

Foto: domínio público/pixabay

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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