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Clube internacional de exploradores reconhece cinco brasileiros por ações que promovem a conservação

Clube internacional de exploradores reconhece cinco brasileiros por ações que promovem a conservação

Desde 1904, o The Explorers Club reúne os maiores exploradores do mundo, entre eles nomes mundialmente conhecidos como Neil Armstrong, Jane Goodall e Edmund Hillary. Com sede em Nova York, EUA, a organização tem apoiado e promovido expedições científicas de todas as disciplinas e unido seus membros “em laços de bom companheirismo”.

Em 2021, a organização lançou o programa The Explorers Club 50 (EC50) – que destaca ‘changing makers’ nessa área – para desafiar a forma como tradicionalmente a organização pensa a exploração, redefinindo-a. 

Para tanto, anualmente seleciona 50 pessoas extraordinárias que estão fazendo um trabalho notável para promover a ciência e a conservação, mas permanecem fora do radar e fora dos holofotes”. Em sua análise, são profissionais que exploram, inspiram e criam o futuro – “o futuro do planeta, a vida nele e as possibilidades ilimitadas que nos aguardam”. 

Até agora, foram analisados 1.618 candidatos de profissões variadas – cientistas, jornalistas, integrantes de ONGs etc – de 51 países. E escolhidos 200 exploradores que, como membros do EC50, participam de eventos organizados pelo clube, ganham acesso a uma rede de colegas internacionais e, com isso, podem ser beneficiados com oportunidades de financiamento para novas pesquisas e projetos.

“Nossa missão é abordar a exploração como um empreendimento comunitário e estou orgulhoso de como cada um dos nossos 200 homenageados se unem em prol deste objetivo”, conta Richard Wiese, presidente emérito da organização e presidente do EC50.

The Explorers Club é presidido por Richard Garriott de Cayeux, empresário do setor de jogos e filho do astronauta Owen Garriott. Na direção honorária estão Jeff Bezzos, fundador da Amazon, e Buzz Aldrin, engenheiro e um dos primeiros astronautas a pisar na lua.

Os primeiros brasileiros a integrar o EC50, no ano passado, foram o fotógrafo e biólogo Leo Lanna, fundador do Projeto Mantis, e a montanhista e médica Karina Oliani, especializada em emergência e resgate em áreas remotas (contamos aqui).

Este ano, cinco brasileiros estão entre os 50 nomes selecionados por suas contribuições especiais para a exploração, a conservação e a ciência. São eles: 

  • Coronel Ângelo Rabello, ex-policial ambiental e diretor do Instituto Homem Pantaneiro (IHP);
  • Lvcas Fiat, designer naturalista, artista visual, contador de histórias e conservacionista, do Projeto Mantis;
  • Fernanda Avelar Santos, geóloga e cientista marinha, se dedica à pesquisa e detecção de poluentes em áreas marinhas, especificamente, rochas de plástico, como as que encontrou na remota Ilha da Trindade, em 2019;
  • Luigi Cani, paraquedista, palestrante e semeador, já dispersou 100 milhões de sementes na Floresta Amazônica; e
  • Luiz Rocha, cientista e mergulhador, curador de Ictiologia (estudo dos peixes) da Academia de Ciências da Califórnia, em São Francisco, é membro do The Explorer Club desde 2015.

O anúncio dos integrantes da ‘Class of 2024’ foi feito em fevereiro, mas a cerimônia que reuniu tantas personalidades interessantes para oficializar a escolha dos novos ‘changing makers’ do EC50 aconteceu em 20 de abril, em Nova York. De 19 a 21 deste mês, eles participaram de ações da organização, entre elas a reunião anual do clube.

O EC50 classifica os nomeados em quatro grupos e os brasileiros estão concentrados em dois: 

  • Defensores: exploradores que tecem vozes, nutrem a unidade e estimulam a mudança com paixão implacável e propósito resoluto;
  • Alquimistas: abraçam a criatividade e nos inspiram a ver o mundo de novas perspectivas. Sua abordagem de exploração é uma mistura de diversas paisagens, táticas excêntricas e coragem inabalável. Lvcas, Fernanda e Luigi estão neste grupo;
  • Guardiões: que se unem para salvaguardar culturas, pessoas, comunidades e o mundo. “Sua dedicação visionária à defesa da conservação molda nosso caminho coletivo para frente”. Entre eles estão Rabelo e Rocha; e 
  • Inovadores: são os arquitetos do amanhã, que abrem novos caminhos em desafios desconhecidos. Estão criando soluções, ultrapassando limites e desencadeando mudanças com criatividade ilimitada e visão inabalável.

A seguir, conheça cada um delesPara não perder nenhuma informação contida nos depoimentos publicados no site da organização, optei por reproduzir, na íntegra, parte de suas declarações. O texto ficou longo, eu sei, mas aproveite: seus relatos são preciosidades!

Ângelo Rabelo: preservar a cultura na linha de frente

Ex-policial ambiental, fundou o Instituto Homem Pantaneiro (IHP) em 2002, que trabalha com diversos programas de apoio ao desenvolvimento sustentável do Pantanal. Desde 1980, dedica sua vida à proteção da cultura e da vida selvagem nesse bioma. 

Clube internacional de exploradores reconhece cinco brasileiros por ações que promovem a conservação

Durante os anos 1980 e início dos 1990, lutou contra a caça ilegal e o tráfico de animais. Foi baleado e escapou da morte. Voltou ao Pantanal e tornou-se comandante da Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul. Hoje, enfrenta desafios para ajudar a melhorar a economia da natureza na maior planície alagável do mundo, uma parte única do planeta Terra.

Rabelo foi nomeado ao The Explorers Club 50 pelo casal sul-africano Dereck and Beverly Joubert (foto abaixo). Os dois se dedicam à proteção da vida selvagem na África, fundaram e dirigem a WildLife Films, tendo contribuído com a pesquisa e os estudos para a criação do filme Rei Leão. Receberam a medalha de EC50 em 2021.

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Dereck and Beverly Joubert com Ângelo Rabelo
Foto: divulgação/IHP

“O que me motiva é o pensamento positivo e a determinação de que as ações podem fazer uma grande diferença num processo que está claramente tendo um grande impacto negativo no Pantanal. Mesmo com o grande sofrimento gerado por ações negativas como a caça e atividades irregulares que ameaçam o bioma e as pessoas que dele dependem, sou uma pessoa determinada e ativa que trabalha para protegê-lo. Este trabalho envolve compreender as diferenças e as ameaças específicas que podem perturbar o equilíbrio do Pantanal.

Minha principal motivação é trabalhar em busca de resultados práticos para a conservação ambiental. Sempre me esforço para agir e liderar, mas também acredito no diálogo, na articulação e na política. É assim que pretendo construir estratégias que beneficiem diretamente a vida selvagem, as comunidades e, em maior escala, o país e o mundo, garantindo a preservação do Pantanal.

Não há dúvida de que o aspecto mais significativo do trabalho do IHP são os resultados visíveis hoje, com a redução da caça e do tráfico de animais em comparação com as décadas de 1980 e 1990. No entanto, o trabalho não está concluído, por isso devo continuar a esperar e a trabalhar por mais melhorias.

Sei, pela experiência de morar no Pantanal há mais de 40 anos, que os locais têm know-how para proteger o bioma. E trabalhando com o conhecimento da ciência é possível fazer a diferença no mundo. Minha vida tem sido dedicada ao Pantanal e, se voltasse atrás, não mudaria nada”.

Clube internacional de exploradores reconhece cinco brasileiros por ações que promovem a conservação
Ângelo Rabelo, do IHP, com sua medalha do The Explorers Club 50
em frente à sede da organização em Nova York
Foto: divulgação

Lvcas Fiat: beleza elusiva na noite escura das florestas

Designer naturalista, artista visual, contador de histórias, conservacionista, explorador da National Geographic e palestrante do TED, Lvcas Fiat mergulha nas noites escuras da floresta tropical da Amazônia em busca de novos e raros louva-a-deus, testemunhando a beleza e a maravilha da vida selvagem ao lado de seu parceiro Leo Lanna, que também é membro do EC50, como contamos aqui.

Foto: Leo Lanna/Projeto Mantis

Com o Projeto Mantis e a agência OOTECA, Lvcas usa o design para expandir a percepção e a compreensão do público sobre o planeta, num extenso e exuberante trabalho multimídia, no qual o branding encontra a ciência e o design comunica a conservação – “em última análise, iluminando e dando voz às descobertas e histórias da floresta tropical e de seus habitantes”. 

Sua abordagem artística e criativa converte a percepção pública em conhecimento e conservação, também em outras iniciativas das quais participa com a OOTECA, como o Instituto Juruá e o Projeto DoTS (Documentação de Espécies Ameaçadas).

Em 2017, maravilhado com a abundante vida selvagem observada em uma caminhada noturna na Mata Atlântica, larguei a carreira publicitária para me juntar a Leo Lanna (meu, agora, marido) em sua organização, o Projeto Mantis. 

Leo e Lvcas fotografam a fluorescência de um pequeno e raro sapo,
usando câmera e flash mod para produzir luz ultravioleta pura
Foto: Sávio Cavalcante/divulgação

Desde então, posso ser encontrado com mais frequência na natureza, sob o véu da noite. Lá fora, sob as estrelas brilhantes, testemunhei milhares de criaturas no seu habitat natural intocado e tive a sorte de ajudar a descobrir novas e raras espécies de louva-a-deus.

Só no Brasil, estimamos que existam mais de 700 espécies únicas de louva-a-deus, mas apenas 250 foram registradas

Passei os últimos sete anos à procura destas espécies desconhecidas pela ciência – e embora esta viagem não pudesse ser mais desafiante, é maravilhosamente gratificante. As florestas tropicais estão repletas de animais e mistérios desconhecidos – mas como podemos proteger o que não conhecemos?

A ciência pode projetar números, adotar nomenclaturas e identificar pontos críticos estatísticos, mas muitas vezes comunica dentro de uma câmara de eco acadêmica – deixando as pessoas normais fora da conversa. É aí que acredito que a imaginação e as artes podem tornar a ciência e a conservação importantes para todos, em todos os cantos da sociedade. 

Com o Projeto Mantis, e em parceria com conservacionistas, cientistas e ativistas, procuro garantir que mais pessoas redescubram e sintam a beleza e a maravilha dos nossos fascinantes e frágeis ecossistemas – especialmente as florestas tropicais. 

Esforço-me por encher o imaginário coletivo de curiosidade e espanto, reconectando os indivíduos com a natureza para que possam compreender que o maior esforço da humanidade deve ser proteger e restaurar as nossas maravilhas naturais.

Só podemos expandir as fronteiras do nosso conhecimento até onde vai a nossa curiosidade.

De nossas expedições, trago cores, sons, texturas, formas, comportamentos e sentimentos do sertão em que vivo para responder a perguntas tão autênticas e sinceras – quero que as pessoas se conectem novamente à sua terra.

Através de uma combinação de multimídias – fotografia, narrativa, arte, ciência e comunicação – queremos gerar mudança e um futuro plausível para toda a vida neste planeta vibrante. Quando saímos em expedições em busca de seres extraordinários, deixamos um legado de admiração e espírito de proteção ao mundo natural.

Lvcas maneja delicadamente um dos maiores louva-a-deus
da Mata Atlântica: a fêmea de Stagmatoptera pia
Foto: Daniel Venturini/divulgação

À medida que aumentam as ameaças aos ecossistemas do nosso mundo, sinto a necessidade de evocar emoção, estética e imaginação para ajudar a dar voz e a pintar um quadro para a ciência, as florestas tropicais e a vida selvagem. Não há nada mais inspirador do que a natureza, o invisível, a busca pelo desconhecido e a nossa vibrante biodiversidade. 

Dedico-me a construir um futuro no qual o design, a arte e a tecnologia possam expandir a percepção e a compreensão dos ecossistemas e dos seres fantásticos que neles habitam. 

Ao promover o trabalho cada vez maior do Projeto Mantis, centrado na diversidade biocultural, melhorando e compartilhando minhas habilidades por meio de expedições em florestas tropicais e criando obras de arte impactantes, espero capacitar mais florestas tropicais e povos para alcançar uma natureza próspera.

Como artista, desenvolvo obras de arte que habitam a imaginação e histórias familiares que permanecem não contadas. O visual, o estético, o poético, os sonhos sempre foram importantes na nossa relação com a natureza, seja para as comunidades indígenas ou para os primeiros naturalistas que desenvolveram a ciência e a exploração modernas. 

Desde que entrei no Projeto Mantis, expandindo nosso trabalho para múltiplos públicos e comunidades, consegui resgatar esse papel fundamental da arte e da subjetividade como aliadas da ciência e da conservação.

Tornei-me um designer naturalista que desvenda as noites da floresta tropical, partilhando-as com públicos maiores e inspirando parceiros, sejam artistas ou cientistas, a mergulhar na sua natureza local e genuína com suas mentes e seus corações”.

Fernanda Avelar Santos: poluição e rochas plásticas 

Geóloga e cientista marinha, Fernanda Avelar Santos – a única brasileira nomeada este ano – possui vasta experiência em geologia ambiental, com especialização em ambientes marinhos e ilhas oceânicas

Durante o doutorado, pesquisava a Ilha da Trindade, uma porção de terra no meio do Oceano Atlântico, localizada a 1.167 km de Vitória (ES) e a 2.400 km da África supervisionada pela Marinha brasileira, onde poucas pessoas podem chegar.

Lá, investigou riscos geológicos, o que a levou à descoberta inesperada de plastistones – rochas formadas por plástico derretido (contamos aqui), que intensificou a preocupação com a poluição persistente, especialmente em áreas remotas críticas como essa ilha, que abriga tartarugas verdes

Como pesquisadora de pós-doutorado e bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), se concentra nos estudos das rochas plásticas, explorando fatores que controlam depósitos sedimentares e estudando a distribuição, acúmulo e degradação de lixo plástico em sedimentos marinhos e de praia. 

Neste EC50, foi nomeada por Joe Grabowski, biólogo, mergulhador e comunicador de ciência da turma de 2018 da Universidade Federal do Paraná.

“Minha viagem foi desencadeada por uma paixão inabalável pela exploração, alimentada em grande parte pela minha admiração por Charles Darwin – a minha principal influência. Fascinada por seu trabalho inovador e pelas ilhas essenciais que estudou, incluindo algumas no Brasil, senti-me atraída por ambientes marinhos e ilhas oceânicas

Fernanda coleta sedimentos na Praia das Tartarugas,
na Ilha da Trindade, para análise microplástica
Foto: arquivo pessoal

Meu envolvimento no trabalho com rochas plásticas se aprofundou durante meu doutorado, quando pesquisava na Ilha de Trindade, onde me aprofundei pela primeira vez em riscos geológicos. A descoberta inesperada de plastistões mudou o curso da minha exploração, obrigando-me a desvendar as complexidades da poluição plástica no ciclo geológico. O desejo de compreender e mitigar o impacto dos fenômenos induzidos pelo ser humano no planeta motiva-me diariamente.

Um momento crucial em minha exploração aconteceu na extensão isolada da Ilha da Trindade, onde o único acesso é por meio de navios da Marinha do Brasil, após dias de viagem desde o Rio de Janeiro. 

Ao longo de uma expedição de mais de 60 dias, fiz uma descoberta inesperada: os plastitones. Numa área de praia de 12 m2, surgiram rochas formadas por plástico derretido, revelando a intrincada interação entre a poluição induzida pelo ser humano e o ecossistema remoto e aparentemente intocado.

O aspecto mais significativo do meu trabalho reside na profunda curiosidade e tristeza que sinto ao estudar as plastistones. O exame de cada um deles desvenda não apenas suas complexidades científicas, mas também as implicações mais amplas da poluição persistente, especialmente na região com a maior concentração de ninhos de tartarugas verdes no Brasil. 

Meu trabalho ultrapassa os limites da exploração ao transcender os estudos geológicos tradicionais. Me aprofundo na microescala, explorando a estrutura, a composição mineral e a composição química dos plastistones. Esta abordagem não só fornece informações sobre as consequências geológicas das atividades humanas, mas também sublinha a necessidade urgente de responsabilidade coletiva na preservação do planeta

Na essência, minha exploração é alimentada por uma profunda ligação aos ambientes marinhos, uma paixão por diversas paisagens e um compromisso inabalável em descobrir a realidade da poluição plástica nos oceanos”.

Fernanda não pode participar do encontro do EC50 deste ano, “por questões de logística”, mas como no ano que vem ela vai morar fora do Brasil, “estarei mais próxima de Nova York”, a organização a convidou a participar do evento de 2025 e usufruir do contato com outros exploradores.

Luigi Cani: queda livre para o bem

Um dos paraquedistas mais renomados do mundo, Luigi Cani já realizou mais de 14 mil saltos e mais de 150 projetos cinematográficos ao redor do mundo. Detém 11 recordes mundiais, incluindo o de velocidade em queda livre de 552 km/h e salto e aterrissagem com o menor e mais rápido paraquedas do mundo. 

Com 25 anos de carreira, já foi destaque em mais de 60 países com suas aventuras ganhando manchetes em redes nacionais de TV. Treinou equipes militares de elite de vários países, incluindo os US Navy Seals, a Força Aérea dos EUA, os Sky Hawks do Canadá e os Red Devils da Inglaterra. É apresentador, produtor executivo e palestrante motivacional desde 2011, com sua palestra You Can Fly

Luigi solta sementes de plantas nativas na Floresta Amazônica: “Tive que mergulhar no ar
320 km/h para poder abrir a caixa de meia tonelada de sementes
em queda livre e soltá-las na altitude certa”
Foto: arquivo pessoal

Também é conhecido no Brasil por suas participações em programas de TV, como Mestre dos Ares no Fantástico, Homem Pássaro no Esporte Espetacular, Radicani no Caldeirão e Cani nas Alturas no Domingão, além de fazer parte do elenco do Canal OFF.

Há alguns anos, Luigi decidiu tentar plantar 100 milhões de sementes numa área desmatada de 160 km2 na Amazônia. Uma expedição que parecia impossível de ser concretizada, em especial por questões jurídicas. Após 5 anos, obteve 12 autorizações legais para lançar 100 milhões de sementes no coração da floresta amazônica

Richard Wiese, presidente emérito do The Explorers Club e presidente do EC50, foi quem nomeou Luigi para a edição deste ano.

“Minha equipe e eu passamos dois meses coletando sementes de plantas nativas em uma área próxima da floresta tropical. Mas levar quatro toneladas de equipamentos para o meio da selva amazônica foi o trabalho mais difícil que já fizemos. 

Depois que colocamos o equipamento na floresta, veio o mergulho. Tive que mergulhar no ar a 320 quilômetros por hora para poder pegar a caixa de meia tonelada de sementes em queda livre e soltá-las exatamente na altitude certa. 

Foi tão difícil e eu estava tão concentrado que acidentalmente prendi a respiração por mais de dois minutos. Quase quebrei meu pulso e alguns dedos, mas valeu a pena.

Quando criança sempre sonhei em voar, o sonho humano mais antigo e poderoso. À medida que crescia, compreendia que queria perseguir esse sonho.

Depois de muito tempo em queda livre, percebi que cada um pode voar em seu campo. Agora, quero ajudar outras pessoas a aprender a voar e a sair de suas zonas de conforto. 

É um desafio, porque a maioria das pessoas resiste à mudança, seja ela individual ou global. No entanto, precisamos de grandes mudanças para tornar o mundo melhor do que é hoje. A possibilidade de crescimento é incrível, mas é preciso que mais pessoas estejam dispostas a aprender e a trabalhar juntas.

A parte mais significativa do meu trabalho é ajudar a indústria a progredir e a quebrar marcos em tecnologia. Os avanços na tecnologia não significariam nem metade se não fosse pelos milhões de pessoas que inspiramos. 

No passado, tentei fazer todos os anos um projeto que nunca havia sido tentado antes, seja em um local épico ou quebrando um novo recorde – maior, mais longo ou mais rápido (ou todos os 3!).

Ao explorar neste nível, aprendi a respeitar a Mãe Natureza e a importância de ajudar os outros a compreenderem a importância da conservação. Agora que tenho 52 anos e não tenho mais a mesma fome de perigo, quero que meus projetos tenham ainda mais sentido e ajudem as pessoas e o planeta.

Luiz Rocha: mergulhar mais profundo para o futuro dos oceanos

Presidente de Ictiologia e codiretor da iniciativa Hope For Reefs da California Academy of Sciences, Luiz Rocha passou mais de seis mil horas estudando peixes debaixo d’água e publicou artigos científicos e livros sobre evolução, conservação, taxonomia e ecologia comunitária de peixes de recifes de coral. 

Seu trabalho tem sido apresentado em muitos meios de comunicação populares e apoia esforços de conservação em todo o mundo. 

Atualmente, seu principal interesse é a exploração de recifes de coral profundos, pouco conhecidos (entre 60 e 150m de profundidade). Para tanto, faz o mergulho técnico com rebreather (aparelho com o qual respira novamente o gás expirado, prolongando o tempo de uso).

Rocha tem focado principalmente na descrição da fauna dessas profundezas e na defesa da proteção dos recifes profundos. Em julho de 2021, ganhou o Rolex Awards for Enterprise devido a esta pesquisa (como contei aqui).

Neste EC50, foi nomeado por Richard Garriott de Cayeux, presidente da organização.

“Cresci em João Pessoa, cidade costeira do Brasil e sempre quis ficar perto dos peixes e explorar os oceanos desde que me lembro. Adorava explorar poças de maré durante as marés baixas, e comecei a mergulhar com snorkel assim que comecei a nadar e a mergulhar assim que consegui segurar um tanque nas costas. 

Tudo isso foi movido pela curiosidade e pela necessidade de explorar. E quando falamos de oceano, quanto mais fundo se vai, mais interessante se torna a exploração

Isso naturalmente me levou a tentar aprender a mergulhar mais fundo e a explorar os lugares mais remotos. Nunca tive meios pessoais para fazê-lo e rapidamente aprendi que o que precisava para realizar meu desejo de explorar era uma profissão compatível. Então me tornei biólogo.

Mas muito cedo também aprendi que as atividades humanas tinham impacto profundo nos oceanos, tanto em nível local como global. 

Quando estava no ensino médio, escrevi uma proposta para criar uma área marinha protegida no meu local favorito de mergulho com snorkel, ao longo da costa. Isso não se tornou realidade no início dos anos 90, mas pessoas da minha comunidade deram continuidade à proposta e hoje a área está protegida. 

Por isso a conservação sempre andou de mãos dadas com a minha vontade de explorar e compreender os oceanos. Hoje, utilizo muitas ferramentas diferentes, desde taxonomia básica (descrições de espécies), passando por ecologia de comunidades, à biologia molecular de ponta, com o objetivo de produzir dados que possam ajudar nos esforços de conservação de recifes de coral em todo o mundo.

Rocha fotografa peixes em um recife raso nas Ilhas Marshall
Foto: Tane Sinclair-Taylor/divulgação

Mergulhar nas profundezas (150m ou 500 pés) requer muito treino, preparação e mentalidade certa. Os riscos são elevados e pequenos erros podem ter consequências graves. 

A logística envolvida é muito complexa: é necessário movimentar muitos equipamentos e os consumíveis (por exemplo o hélio que respiramos nessas profundezas) são difíceis de encontrar, especialmente em locais remotos (que invariavelmente são os mais interessantes). 

Além disso, devido aos riscos e aos custos elevados, é quase impossível obter financiamento por meio de agências científicas tradicionais. Tudo isso torna a exploração de recifes profundos por cientistas muito rara: estimo que não haja mais de dez cientistas mergulhando nas mesmas profundidades que minha equipe e eu mergulhamos em todo o mundo.

Esse ecossistema é tão desconhecido que encontramos novas espécies de peixes em quase todos os mergulhos e, quando começarmos a amostrar outros grupos de animais, o número de espécies não descobertas aumentará para centenas. 

É assim que ultrapasso limites, levando a exploração científica através do mergulho técnico mais profundo do que nunca e a formar mais cientistas para dar continuidade. 

E o mais importante: tudo isso é feito da forma mais pública possível. Publico em revistas científicas acadêmicas, mas a última coisa que quero é que a minha ciência fique trancada dentro da torre de marfim. Portanto, compartilhar minhas descobertas com o público também é uma das minhas principais prioridades”.

Rocha e sua equipe chegam à superfície do Oceano Índico após
explorarem um profundo recife de coral
Foto: Franck Gazzola/Rolex


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Fotos (montagem): arquivo pessoal (Ângelo, Fernanda e Luigi), Leo Lanna (Lvcas Fiat) e Franck Gazzola/Rolex (Luiz Rocha)

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