Texto atualizado em 1/4/2022, quando Sonia Guajajara declarou, oficialmente sua pré-candidatura a uma vaga de deputada federal por São Paulo.
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Há mais de vinte anos, Sonia Guajajara luta pela causa indígena no país, e sua atuação firme e comprometida lhe conferiu rapidamente a posição de uma das principais lideranças dos povos originários, que desde 2013 é está à frente da coordenação executiva da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, criada em 2005.
Mas foi em 2018 que Sonia ganhou maior visibilidade e se tornou conhecida do público, ao se candidatar à vice-presidência do país na chapa de Guilherme Boulos, pelo PSoL – Partido Socialismo e Liberdade.
A disputa ao cargo mais importante do Brasil estava centrada em Fernando Haddad, professor universitário, ex-ministro da educação no governo Lula e ex-prefeito de São Paulo, e Bolsonaro, um medíocre deputado federal de extrema-direita, que estava há 28 anos no Congresso, sem apresentar nenhum projeto de lei relevante.
(como sabemos, 38% dos brasileiros escolheram o pior candidato – e a maioria optou por não se comprometer, nem exercer sua cidadania, votando nulo e em branco –, o que nos levou à distopia em que vivemos, e que precisamos começar a exorcizar nas urnas em outubro deste ano)
Disputar a presidência foi ousado e estratégico para os dois líderes de movimentos sociais – indígena e dos trabalhadores sem teto – que, com uma campanha baseada em direitos humanos e respeito aos povos originários e à natureza, se inseriram no cenário político brasileiro, num dos momentos mais conturbados do país.
E talvez tenha sido estratégico também que Boulos protagonizasse, em 22/3, a divulgação não só de sua desistência à disputa ao governo de São Paulo, para buscar uma vaga na Câmara dos Deputados, como o lançamento da pré-candidatura de Sonia, sua colega de partido, também à uma vaga na “casa” que precisa voltar a ser “do povo”.
Em entrevista ao site DCM, ontem, ele declarou: “A Sonia está radicada em São Paulo e, sim, será candidata em São Paulo. Quero fazer campanha junto com ela e ajudar a elegê-la. A voz da Sônia no Congresso Nacional com a bancada indígena botando o dedo na cara da Bancada do Veneno, da Bancada dos Agrotóxicos, vai ser fundamental”.
Em 31/3, Sonia lançou sua pré-candidatura oficialmente na Livraria Megafauna, no centro de São Paulo, e disse que seu desejo é fortalecer a presença de mulheres indígenas nas eleições de 2022, de forma a conquistarem maior representatividade no Congresso.
E, assim, a primeira indígena a concorrer à vice-presidência do país, pode se tornar a segunda indígena eleita deputada federal. A primeira é a advogada Joenia Wapichana, eleita em 2018, como contamos aqui.
Trajetória reconhecida
Sonia Bone Guajajara nasceu na Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, em 1974. Quando completou 15 anos foi convidada pela Funai estudar em Minas Gerais. Formou-se em Letras e em Enfermagem e ainda fez uma pós-graduação em Educação Especial e se tornou mestra em Cultura e Sociedade. Não é pouco.
Seu ativismo começou cedo, mas foi em 2001, em Luziânia, Goiás, que Sonia participou de um grande evento nacional: a pós-conferência da Marcha Indígena, na qual foi debatido o Estatuto dos Povos Indígenas.
No ano seguinte, integrou a coordenação e a organização do Acampamento Terra Livrena Cúpula dos Povos e, em 2003, liderou a Semana dos Povos Indígenas, criada em 1992 pela Lei 8.151 para divulgar e perpetuar costumes e história, e realizada em abril, a partir de 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas.
Nesse mesmo ano, também liderou manifestações no plenário da Câmara dos Deputados e no Palácio do Planalto.
Sua trajetória incansável lhe rendeu muitos ataques, inclusive por parte da Funai, órgão criado para defender os indígenas, mas, que desde 2019, é dirigida por Marcelo Xavier, ex-delegado da Polícia Federal (PF), que defende os interesses de ruralistas. No mesmo período, Xavier também atacou o cacique Almir Suruí. Em 5/5, a Justiça Federal do Distrito Federal mandou a PF arquivar os dois inquéritos: contra Sonia e contra Almir.
Sonia também Integra o Conselho da Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais, ligada ã ONU – Organização das Nações Unidas. E, em 2013, integrou a coordenação executiva da APIB – que reúne organizações indígenas de todas as regiões do país -, passando por dois mandatos que se encerram agora.
Conquistou o reconhecimento como uma das principais lideranças indígenas do país, dando grande visibilidade à causa aqui e no exterior. A luta contra o desenvolvimento a qualquer custo sempre foi árdua, mas os retrocessos e ataques do governo Bolsonaro intensificaram a resistência desse movimento, que teve em Sonia força e inspiração.
Ela integra o Conselho de Direitos Humanos da ONU e, desde 2009, representa os povos indígenas nas conferências climáticas promovidas pelo órgão, nas quais denunciou violações aos direitos dessas comunidades.
A ativista já recebeu diversos reconhecimentos por sua liderança, como o Prêmio João Canuto, concedido anualmente pelo Movimento Humanos Direitos (MHuD), em 2019.
Nesse mesmo ano, ela ainda foi agraciada com o Prêmio Packard da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da UICN – União Internacional para Conservação da Natureza.
Renovação urgente do Congresso Nacional
Este ano, os brasileiros precisam valer a potência de seu voto, elegendo um presidente que nos ajude a reconstruir o país mergulhado por Bolsonaro e os integrantes de seu governo em retrocesso e destruição.
Mas não adianta apenas trocar o presidente!
O Congresso Nacional carece de renovação. O perfil da maioria dos deputados e senadores, ali, é do homem, branco, preconceituoso – por vezes, fanático religioso – e comprometido com interesses escusos”, comprometidos em favorecer os setores que mais aniquilam direitos, desmatam florestas, atacam indígenas, negros, mulheres e pobres e desfiguram as grandes cidades, perpetuando a desigualdade.
A candidatura de Sonia Guajajara à uma vaga na Câmara dos Deputados é um alento. A de Boulos também.
Que eles sejam os primeiros de muitos cidadãos que se apresentarão durante este ano e nos ajudarão a desenhar um novo futuro para o Brasil, com a maioria do Congresso ocupada pelos verdadeiros representantes do povo, experts nas áreas de meio ambiente, educação, alimentação, moradia, agroecologia, indigenistas, feministas, de movimentos negros, LGBTQI+ etc!
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Foto: Divulgação/APIB
Fontes: site da APIB, Brasil de Fato