Sonia Guajajara usa máscara criada pela artista Néle Azevedo para a campanha de 5 anos do ‘Acordo de Paris’

A campanha Maskbook não foi criada neste ano de 2020 devido à pandemia da Covid-19, mas, sim, em 2015, para celebrar o Acordo de Paris firmado, em dezembro daquele ano, por 190 países na Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU – a COP 21, na capital francesa.

A iniciativa foi lançada pela organização Art Change 21, em colaboração com a artista chinesa Wen Fang, e adotou a máscara de proteção como símbolo e base de suas ações.

Desde então, a organização participa de todas as conferências do clima e tem ampliado sua abrangência e participantes: hoje, reúne mais dez mil pessoas de mais de 40 países.

Assim, anualmente, a Maskbook convoca artistas e personalidades ao redor do mundo para criar e utilizar máscaras – respectivamente -, com destaque para uma questão urgente: a relação entre saúde humana e meio ambiente, ligada não só as consequências do aquecimento global, como à poluição do ar e às pandemias

“A imagem provocadora e de ansiedade da máscara se transforma em uma expressão de otimismo e compromisso com o planeta“, declara o site da iniciativa. Mal sabiam os organizadores que, cinco anos mais tarde, o equipamento escolhido por eles como símbolo da campanha se tornaria vital para a humanidade – ao mesmo tempo e por um longo período – com a covid-19.

A campanha

Este mês, em 12 de dezembro para ser mais precisa, em parceria com o Ministério da Europa e Relações Exteriores, o projeto Maskbook celebrou o 5º aniversário do Acordo de Paris, com uma grande campanha “destinada a todos que desejam manifestar, de forma criativa, seu apoio à implementação do Acordo, e a todos que desejam se juntar à luta contra as alterações do clima e à preservação do planeta”.

“Esta mobilização visa nos unir, reunir nossos talentos e nos lembrar como as questões climáticas são nossa prioridade número um!

Os compromissos do Acordo de Paris precisam ser totalmente implementados. Então, vamos manter o ímpeto até a COP26, que acontecerá em Glasgow, na Escócia, no final de 2021.

Homenagem aos povos da floresta

Foto: Néle Azevedo

Apesar da conduta desprezível do governo brasileiro em relação aos compromissos para redução de gases de efeito estufaque lhe custou a ausência no encontro organizado pela ONU no último sábado, como contamos aqui -, o país foi muito bem representado na nova campanha pela artista plástica Néle Azevedo e pela líder indígena Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib – Articulação dos Povos Indigenas Brasileiros

Em seu perfil no Instagram, Sonia contou sobre a participação na campanha e ilustrou com a foto de João Américo, em destaque neste post.

Já Néle, produziu dois posts: um no qual reproduz a página publicada pela embaixada da França no Brasil. E outro, no qual mostra foto de sua criação (acima). Ela conta sobre a experiência:

“Fui convidada pelo governo francês para representar o Brasil na campanha. No convite, me pediram para criar uma máscara para uma personalidade, mas não me disseram quem era. Concebi a máscara e, quando ela ficou pronta, soube que Sonia Guajajara a usaria. Foi mesmo uma feliz coincidência”.

E a artista destaca um pouco mais sobre seu trabalho e o engajamento pelo meio ambiente e os povos originários:

“Venho bordando os nomes dos povos indígenas do Brasil desde 2018 porque são esses povos que sustentam a floresta em pé. Os indígenas são a própria extensão do que entendem como sendo a terra-floresta. Não uma fonte de recursos, mas um ser que tem alma e respira!”.

Sobre sua criação, ela explica: “o nome da máscara é ‘Vida para todo o planeta!’. Ela foi feita à mão. Utilizei folhas de louro in natura e, nelas, bordei nomes de etnias indígenas que habitam florestas desta terra que se denominou Brasil, e as protegem. E, ao fazê-lo, produzem a vida para todo o planeta. Tomei emprestado da folha de louro o seu simbolismo vindo da Grécia, berço da civilização ocidental”.

Sua obra traduz sensibilidade e muita força. Belíssima!

Comento com Néle que este trabalho para a Maskbook me fez lembrar de outro, de sua autoria – Monumento Mínimo, uma instalação com pequenos homenzinhos de gelo, de 2005 -, criado devido à outra reflexão, mas que acabou ficando muito identificado com as mudanças do clima. Ela comenta: 

Apesar de não ter sido pensado devido à questão climática, esse trabalho foi incorporado ao seu conceito em 2009, quando fiz uma intervenção em Gendarmenmarkt Berlin – praça localizada no centro histórico da cidade -, a convite da organização WWF. Na Alemanha, as imagens do Monumento Mínimo tornaram-se símbolo das ameaças do aquecimento global“. Foi muito interessante: vale ver as imagens.

Personalidades e artistas engajados

Do lado direito de Sonia Guajajara está Ana Hidalgo, prefeita de Paris, que propôs batizar
um espaço público na cidade com o nome de Marielle Franco, no ano passado

Saiba quem são as personalidades “mascaradas” de forma muito especial por artistas comprometidos com a crise climática e a campanha da Art Change 21:

PERSONALIDADES
Layne Beachley (Austrália), Nadine Chandrawinata (Indonésia), Fadila El Gadi (Marrocos), Christiane Endler (Chile), Patricia Espinosa (UNFCCC / México), Olivier Giroud (França), Donald Grant (EUA), Sônia Guajajara ( Brasil), Anne Hidalgo (, prefeita de Paris, França), Esther Mahlangu (África do Sul), Catherine McKenna (Canadá), Jessica Minh Anh (Vietnã), Octopizzo (Quênia), Ridhima Pandey (Índia), Marcel Pinas (Suriname), Manuel Pulgar-Vidal (Peru), Jun-Yeol Ryu (Coreia do Sul), Jean-Pascal Tricoire (França), Laurence Tubiana (França), Darren Tulett (Reino Unido), Naoko Yamazaki (Japão), Fabiola Yáñez (Argentina), Liu Ye (China).

ARTISTAS
Joko Avianto (Indonésia), Néle Azevedo (Brasil), David Corvalán (Chile), Mark Dion (EUA), Harsha Durugadda (Índia), Fadila El Gadi (Marrocos), Ender (França), Wen Fang (China ), Jérémy Gobé (França), Andrea Juan (Argentina), Cyrus Kabiru (Quênia), Janet Laurence (Austrália), JeeYoung Lee (Coreia do Sul), Lucy Orta (Reino Unido/França), Marcel Pinas (Suriname), Luke Rudman (África do Sul), Johanne Simonet (França), Studio Orta (Reino Unido), Giancarlo Valverde (Peru), VUNGOC&SON (Vietnã), Marc Walter (Canadá), Tokujin Yoshioka (Japão).

Criatividade à enésima potência e um rosto conhecido por trás da máscara:
Juliete Binoche, à esquerda, na última fileira. Você identifica mais algum?

Quer ver todas as máscaras já criadas desde o início da campanha? A coleção é vastíssima e muito diversificada, cheia de criatividade e ideias estapafúrdias. Clique aqui

Abaixo, reproduzo o filme transmitido pelo Ministério da Europa e Relações Exteriores em suas redes sociais, que mostra todos os envolvidos nesta celebração pelo clima.

Foto (destaque): João Américo para campanha Maskbook/Art Change 21

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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