O ninho de tuiuiú pela janela de flores

Há poucos meses, percorri o Pantanal em uma expedição de 23 dias com um grupo de clientes dos EUA. Fotografamos uma grande diversidade de espécies e situações, incluindo onças-pintadas, ariranhas, araras-azuis, sucuris, jaguatiricas, tamanduás, antas, macacos, tatus, capivaras e jacarés, além das belas paisagens e da cultura pantaneira. Se, para ilustrar esta viagem, eu precisasse escolher apenas UMA foto dentre as centenas que fiz, seria esta de um ninho de tuiuiús com filhotes por entre as flores de duas espécies de ipês.

Neste dia, nós havíamos feito um passeio de barco que, mesmo interessante, não tinha rendido nenhuma imagem espetacular. Retornamos à nossa pousada e, apesar da luz já não estar ideal para fotos e com o horário do almoço se aproximando, sugeri de fazermos uma caminhada despretensiosa pela estrada de acesso.

Quando estávamos no meio do caminho, sem motivo aparente me virei para trás e então vi, muito ao longe, o ninho aparecendo por uma pequena janela posicionada caprichosamente entre as duas árvores. Daí foi uma fração de segundo até eu sentir que ali havia uma fotografia promissora: a união de três elementos tão característicos do Pantanal – tuiuiús, ipê-rosa e ipê-amarelo – com a luz ainda a nosso favor, não é sempre que acontece. Pelo contrário, já que geralmente os ipês perdem suas flores em poucos dias e os tuiuiús também só se reproduzem em um período específico do ano.

Chamei os meus clientes – que a esta altura estavam mais à frente conversando, sem muitas expectativas – e mostrei um a um a cena. O espaço por onde dava para ver o ninho era tão restrito que somente uma pessoa por vez conseguia enxergar o enquadramento ideal para fotografar. E assim passamos uma hora documentando esta cena pantaneira, que dificilmente vai acontecer novamente desta maneira.

Enquanto eu clicava e ajudava alguns deles a fazer suas próprias fotos, fiquei pensando nos ensinamentos que passo durante as aulas de fotografia que eu ministro. Venho notando como que o ato de ensinar e compartilhar conhecimentos me ajuda a aprimorar minha técnica e meu olhar fotográficos.

Desde que me mudei da região do Pantanal para o Sul do Brasil, tem sido um saudável desafio buscar oportunidades fotográficas nas áreas naturais disponíveis por aqui. Constantemente, tenho visitado estes locais na companhia dos meus alunos e alunas, durante as aulas práticas dos cursos. Nestas ocasiões, fico ainda mais atento em busca de situações que rendam boas fotos para os estudantes. Então, quando volto ao Pantanal nas expedições fotográficas, sinto que minha maneira de procurar oportunidades também se aprimorou.

Neste caso específico, lembrei de dois conceitos teóricos de nome complicado, cuja aplicação é bem simples e ajuda bastante a aprimorar nosso olhar fotográfico para compor fotos visualmente mais ricas: são os “seis graus de liberdade” e os “movimentos sacádicos”. Dá uma procurada na internet que já vai ter uma ideia sobre ambos, e se um dia você tiver aulas comigo, vai aprender como aplicá-los na prática.

Foto de abertura: Daniel de Granville

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Daniel De Granville

Biólogo com pós-graduação em Jornalismo Científico, começou a carreira fotográfica na década de 90, quando vivia no Pantanal e trabalhava como guia para fotógrafos renomados de várias partes do mundo, o que estimulou seu interesse pela atividade. Já apresentou exposições, palestras e cursos na Alemanha, EUA, Argentina e diversas regiões do Brasil. Em 2015 foi o vencedor do I Concurso de Fotografia de Natureza do Brasil, da AFNATURA, e em 2021 ganhou o primeiro prêmio na categoria “Paisagem” do Concurso Global da The Nature Conservancy. Vive atualmente em Florianópolis, onde tem se dedicado ao ensino de fotografia e continua operando expedições em busca de vida selvagem Brasil afora