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Mundano homenageia líder indígena assassinado em 2020, em mural pintado com tinta produzida com cinzas da Amazônia e terra indígena, no centro de SP

Atualizado em 4/11/2022

Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi brutalmente assassinado em abril de 2020. Líder indígena de seu povo, era incansável na luta contra as invasões de seu território, em Rondônia: era um guardião da floresta. Na época, a polícia alegou que tratava-se de acidente, mas, os agentes que investigam o assassinato de Ari – ‘Operação Guardião Uru’ em sua homenagem – acreditam que ele foi dopado e espancado até a morte. Em julho deste ano, um suspeito foi preso.

Em discurso na cerimônia de abertura da conferência climática da ONU (COP26), em Glasgow, Escócia, em novembro do ano passado, para grandes líderes mundiais, a jovem liderança Txai Suruí contou sobre Ari, seu grande amigo, e todos que morrem defendendo a terra de invasores que querem apenas explorá-la e destruí-la.

Em 28 de outubro, Txai visitou o mural que o artivista Mundano começou a pintar em 22 de outubro – na companhia dos parceiros André Hullk, Na Marra StopmotionCarolina Folego e André Firmiano (assistência artística) e da equipe da Parede Viva (produção) – numa imensa parede (empena) num edifício localizado na Praça João Mendes, próximo à Catedral da Sé, no centro de São Paulo.

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Lá, agora está sua homenagem a Ari e a todos os ativistas indígenas assassinados desde que Bolsonaro assumiu a presidência em janeiro de 2019.

Txai Suruí na visita ao mural que homenageia seu amigo Ari Uru-Eu-Wau-Wau, guardião da floresta de seu povo, assassinado em 2020 / Foto: reprodução de vídeo

Em frente à obra, ela contou em vídeo publicado no Instagram do artista:

A gente está vivendo um momento decisivo no planeta, está passando pela maior crise que a gente já viveu, a crise climática, que pode determinar o nosso futuro. E há pessoas que estão na linha de frente dessa crise, lutando pra manter as nossas vidas e manter a floresta em pé. Essas pessoas são os guardiões da floresta, são os povos originários, são os povos da floresta“.

E a ativista prosseguiu: “Estou hoje aqui, hoje, na frente da pintura que representa o Ari Uru-Eu-Wau-Wau, que foi um guardião da floresta, que participava do monitoramento da terra de seu povo, uma das mais ameaçadas do Brasil e foi assassinado por isso. Mas não só o Ari! Aqui estão os nomes de outros ativistas que também doaram suas vidas pela floresta e pela vida de todos nós” (assista no final deste post).

Para desenhar o mural, Mundano se baseou no retrato que o fotógrafo Gabriel Ushida fez de Ari pouco tempo antes de ser assassinado (abaixo) / Foto: reprodução do Instagram
Ari Uru-Eu-Wau-Wau em foto de Gabriel Ushida

Releitura com cinzas da floresta e terra indígena

Como tem feito em seus últimos trabalhos, Mundano escolheu uma obra de um artista que admira para fazer sua releitura e homenagear o líder indígena.

Desta vez, selecionou uma das 18 obras do pintor Lasar Segall: Bananal, de 1927.

Realizada durante o movimento modernista, retrata um senhor negro e idoso, chamado Olegário, que vivia como escravo na fazenda Santo Antonio, de propriedade da família Silva Telles (amiga de Segall), que ficava em Araras, interior de São Paulo.

Vale destacar que Segall conheceu Oligário quando passou sua lua de mel com Jenny Klabin Segall na fazenda, em 1925. Depois de captar as feições do idoso em desenhos a grafite, decidiu pintá-lo.

Bananal, obra de Lasar Segall, de 1927, que inspirou Mundano na criação do mural para Ari / Foto: Pinacoteca de São Paulo

Antes de se aprofundar nas técnicas e cores de Bananal, Mundano pesquisou a vida (este ano celebra-se seu centenário) e a obra do artista: primeiro, visitou o Museu Lasar Segall e, em seguida, foi à Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde está a obra original: óleo sobre tela, de 87 cm por 127 cm (ele contou no Instagram).

Os materiais para a execução da obra gigante já estavam selecionados e coletados: cinzas das queimadas na Amazôniaque colheu em viagem pelo bioma no ano passado – e terra indígena do Marco Zero, onde nasceu a cidade de São Paulo, como ele mostrou na mesma rede social.

Em 2021, Mundano viajou por quatro biomas – Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica – coletando resíduos das queimadas para a realização do mural Brigadista da Floresta, que Mundano entregou à São Paulo há um ano exatamente, como contei aqui. Veja, neste outro post, a preparação da tinta para a nova pintura.

A última etapa: nomes de indígenas assassinados

Ontem, em 3/11, Mundano contou em seu Instagram que “a parte mais difícil do mural foi escrever centenas de nomes de indígenas e ativistas que perderam suas vidas defendendo a de todos nós”.

Com as cinzas da floresta, escrevemos seus nomes no céu da releitura de Lasar Segall, 100 anos após a Semana de Arte Moderna. Todos eles tinham a mesma luta: proteger a natureza. Mas cada um tinha uma família , um território e um sonho que foi interrompido”.

Foto: Amauri Nehn/reprodução Instagram

E finalizou: “À família do Ari Uru-Eu-Wau-Wau e de todos e todas que dedicaram suas vidas, deixamos aqui a nossa homenagem, nosso carinho e admiração. E, mais que isso, nosso grito de Basta!”.

Foto: Amauri Nehn/reprodução Instagram

Brasil é o pais mais letal para ativistas

De acordo com relatório da organização Global Witness, o Brasil teve o maior número de ativistas, ambientalistas e indígenas assassinados na última década (contamos aqui). Em 2012, 26 pessoas foram assassinadas ao tentar defender o meio ambiente.

E desde 2012, o Brasil é o país que registra o maior número de mortes: 342. Em relação ao ano anterior, as mortes aumentaram significativamente no Brasil, como resultado dos constantes ataques a ativistas e ambientalistas incentivados pelo discurso do presidente Bolsonaro, que, por diversas vezes, desqualificou aqueles que tentam proteger o meio ambiente, sejam indivíduos ou organizações.

Vale destacar que esse número pode ser muito maior, visto que representa apenas dados oficiais.

O processo de criação, em imagens

A seguir, vídeo Demarcação do Marco Zero, realizado pelo Cine Delia, que mostra um pouco da história de Ari Uru-Eu-Wau-Wau e do processo de criação do mural assinado por Mundano e pintado na companhia de amigos também artivistas.

Também reproduzo alguns dos posts publicados por Mundano em seu Instagram que também apresentam detalhes desse trabalho, entre eles a pintura dos nomes de indígenas e indigenistas com a qual o artivista finalizou o painel, além da visita de Txai Suruí ao mural em homenagem a seu amigo.

Foto (destaque): Amauri Nehn, reprodução do Instagram de Mundano

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