O artivista Mundano conclui releitura de Portinari com cinzas da floresta e emociona brigadista que inspirou a obra

Foram duas semanas de trabalho intenso, pendurado numa caçamba erguida por um guindaste, e, no último, recebeu o brigadista Vinícius Curva de Vento, retratado na obra e que vive na Chapada dos Veadeiros, para pintar com ele o emblema da 'Rede Nacional de Brigadas Voluntárias'. Emoção pura!

Depois de duas semanas de muito trabalho, realizado numa caçamba erguida por um guindaste na companhia de artistas do grafite, enfrentando o mau tempo e o sol forte e ‘dando um tempo’ por causa da chuva, o artivista Mundano conclui sua maior obra: um painel de mil metros de altura, na empena de um edifício no centro de São Paulo, que batizou de Brigadista da Floresta, “substituindo”, nesta releitura, o Lavrador de Café, de Candido Portinari, pintado há 87 anos.

Como contei aqui, a tinta usada no grafite foi produzida com cinzas e carvão que coletou, durante três semanas, em quatro biomas que têm sido constantemente devastados pelo fogo – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal -, como parte do projeto Cinzas da Floresta.

Para criar as nuances da paleta especial, o artista misturou o pó das cinzas com outras tintas, água, e verniz e deu nomes provocadores aos grupos cromáticos, como Amazônia Destruída, Pantanal em Risco, Cerrado Ganância e Mata Atlântica Devastada.

Foram duas semanas de trabalho intenso, pendurado numa caçamba erguida por um guindaste, e, no último, recebeu o brigadista Vinícius Curva de Vento, retratado na obra e que vive na Chapada dos Veadeiros, para pintar com ele o emblema da 'Rede Nacional de Brigadas Voluntárias'. Emoção pura!
Foto: Reprodução do Instagram

“Essa tinta, grita, mano! Essa tinta queima!”

O brigadista que serviu de ‘modelo’ para a obra de Mundano foi Vinícius Curva de Vento, de 36 anos, natural de São Paulo, que há seis anos “vive na Chapada dos Veadeiros, onde trabalha em contato com a terra e, quando tem fogo criminoso, ele se junta aos voluntários da Brigada São Jorge e da Rede Contra Fogo pra evitar que o Cerrado não vire pó”, conta o artista.

Imagine a emoção de Vinícius, ao voltar à capital paulista – mais especificamente para a região na qual trabalhou próximo à passarela da Rua 25 de março com Avenida Prestes Maia (de onde se tem a melhor vista da obra) – e ver o retrato que Mundano fez dele no Cerrado transformado num super grafite.

Vinícius ficou emocionado, feliz, reflexivo e poético. “Ele voltou pra selva de concreto pra sentir a obra, pintá-la e representar todas e todos brigadistas gigantes que se arriscam apagando o fogo pra proteger a natureza, ou seja, nós mesmos”, contou o artivista.

“Isso aqui é Amazônia, 
Aqui tem Mata Atlântica, 
Ali tem um tanto de Cerrado…. 
Isso não é tinta, não!
Isso aí é vida!”.

“O Curva subiu a 40 metros de altura, colocou a mão no paredão e disse o que sentia”, destacou Mundano:

Essa tinta grita, mano!
Essa tinta queima
Esse desenho queima
Essa tinta pede.


Escutem, pelo amor de Deus!
Escutem pelo que é mais sagrado!
Não percamos mais tempo
Vamos entender, por favor.
É muito sério!
Nunca foi tao sério.

Acabou o tempo da brincadeira!
Agora tá muito sério!
A gente tem que mudar.
Se não, não vai ter amanhã”. 

“Pintamos juntos, com as cinzas da floresta, o emblema da Rede Nacional de Brigadas Voluntárias no coração do brigadista”, diz Mundano no texto lindo que escreveu para falar da presença do amigo, em seu Instagram, ilustrado por fotos incríveis do Cine Delia (como as que uso nesta página) e vídeos.

Foram duas semanas de trabalho intenso, pendurado numa caçamba erguida por um guindaste, e, no último, recebeu o brigadista Vinícius Curva de Vento, retratado na obra e que vive na Chapada dos Veadeiros, para pintar com ele o emblema da 'Rede Nacional de Brigadas Voluntárias'. Emoção pura!
Foto: Cinedelia

De coração cheio

Nesse texto, o artivista ainda destaca uma super reportagem exibida na TV, que inclui uma declaração emocionada do filho de Portinari a respeito da releitura da obra famosa do pai, de 1934:

“Eu achei extraordinário. Essa questão do meio ambiente tomou um relevo que não tinha tanto assim antes. Esse trabalho do Mundano é essencial, é oportuno, atualíssimo!”, declarou, emocionado, João Cândido.

E Mundano ainda conta: “Eu ainda estou digerindo tanta informação e tentando me recuperar fisicamente. Contudo, posso dizer, de coração cheio, que estou realizado e arrepiado de ver as cinzas da floresta revivendo a obra de Portinari, denunciando crimes ambientais, homenageando heróis e heroínas invisíveis, protestando contra o desmonte ambiental e semeando informação pra milhões de pessoas no Brasil e no mundo”. 

E finaliza: “Obrigado a cada pessoa envolvida nessa obra complexa, e isso inclui você que me acompanha, porque arte sem o público não é nada”. Ficou demais!

Protestos e conexões

A cada obra, o artivista Mundano cresce e impacta mais pessoas com seus alertas, que acompanho desde janeiro de 2017 (só aqui, no Conexão Planeta).

Foi assim com os catadores, com o Pimp My Carroça, com o Cataki ou ‘Tinder da Reciclagem’aplicativo premiado! -, com os manifestos pictóricos contra a Vale pela tragédia criminosa em Brumadinho e o derramamento de óleo no litoral nordestino, com os incêndios no Pantanal, contra Ricardo Salles (troféu O Exterminador do Futuro e preso pela natureza), em homenagem ao cacique Aritana (que morreu de Covid-19, no ano passado) ao fazer a releitura do quadro O Grito do Ipiranga.

Sua jornada é feita de abrir caminhos e fazer conexões. Sigamos com ele.

Abaixo, o painel pronto, mensagem forte na paisagem asfixiante do centro de São Paulo, e o post emocionante de Mundano em seu Instagram.

Foram duas semanas de trabalho intenso, pendurado numa caçamba erguida por um guindaste, e, no último, recebeu o brigadista Vinícius Curva de Vento, retratado na obra e que vive na Chapada dos Veadeiros, para pintar com ele o emblema da 'Rede Nacional de Brigadas Voluntárias'. Emoção pura!
Foto: Cinedelia

Foto (destaque): Cinedelia

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “O artivista Mundano conclui releitura de Portinari com cinzas da floresta e emociona brigadista que inspirou a obra

  • 21 de outubro de 2021 em 8:49 AM
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    Adorei conhecer “Conexão Planeta”. A matéria excelente, obrigada Mônica Nunes.

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