Quando a gente escolhe fotografar a natureza nas suas mais diversas formas, intrinsecamente toma também uma decisão pelo eventual perrengue e desconforto. Porque, sinto informar, nem só de dias ensolarados e amanheceres com luzes incríveis se fazem imagens em ambientes naturais.
Claro que sempre saímos de casa cobiçando essas ditas “condições ideais”, mas, em alguns lugares, elas são quase uma exceção. Em certas regiões da Amazônia, por exemplo, passar três dias no campo sem tomar, pelo menos, um banho de chuva é um luxo! E passar um dia no verão da Patagônia sem que o clima mude pelo menos umas três vezes é uma raridade.
Há alguns meses, eu conduzia um grupo de fotógrafos e amantes da natureza em mais uma expedição de navio pelo Estreito de Magalhães, na Patagônia Chilena. E naquele lugar, não tem jeito: se você quiser conhecer a paisagem espetacular e a vida selvagem que pipoca em todos os cantos, precisa estar disposto a encarar um clima rigoroso. É frio, chove a qualquer momento e venta enlouquecidamente. E apenas vinte minutos depois, podemos voltar àquela calmaria com céu aberto e luzes incríveis que tanto almejamos.
Um dos locais mais afastados que visitamos nessa expedição foi a Baía Azopardo, no fundo do Seno Almirantazgo. Ali há uma ilhazinha isolada com uma ninhal de Albatrozes-de-Sobrancelha, que é uma das minhas paradas preferidas da viagem. Com uma curta caminhada, chegamos a uma encosta coberta por ninhos desse gigante, que pode chegar a até 2,5 metros de envergadura.
Ainda no navio, eu sonhava em fazer imagens com luzes dramáticas. Mas o único drama real foi chegar no local debaixo de chuva, com muito vento e um céu absolutamente cinza. Apesar de não ser exatamente o que eu esperava, esse contexto fez com que os albatrozes estivessem com um comportamento bem interessante.
Cabe ressaltar aqui que, para voar, essas aves são magníficas. Mas para pousar, elas são bem desajeitadas. E era justamente esse mau jeito que proporcionava uma oportunidade legal de fotografia. Como a encosta é íngreme, elas devem pousar precisamente no local do ninho. Mas o vento forte prejudicava muito um procedimento que, mesmo em condições favoráveis, eles já não fazem muito bem.
Desse modo, elas permaneciam num procedimento similar a um avião que precisou arremeter: erravam o pouso, ganhavam altitude, davam uma volta e vinham novamente em rota de aproximação. Assim, para registrar essa imagem do post, era só escolher um indivíduo e acompanhá-lo durante suas tentativas de pouso, torcendo para o fundo ajudar. Nesse momento, apesar do céu encoberto, tive ainda a sorte de uma contraluz interessante. Mas, para mim, as gotas de chuva foram a cereja do bolo da imagem, por expressarem muito o que é o ambiente patagônico.
Ao desembarcar do navio, todos desejavam sol e tempo calmo. Mas, para sair esta foto, acima, o vento, a chuva e o céu encoberto foram os ingredientes essenciais para as condições ideais.
Dados da foto:
– Câmera Nikon D500 + objetiva AFS 70-200 f/2.8G VR II @ 200mm
– ISO 1000 + abertura f/2.8 + tempo de exposição de 1/1600s
– Capa para proteger o equipamento que, em algum momento, foi arrancada e jogada no chão, porque eu sou muito desajeitado para usar essas coisas…