Antas do Cerrado, no Mato Grosso do Sul, estão sendo contaminadas por agrotóxicos, denunciam pesquisadores

Antas do Cerrado, no Mato Grosso do Sul, estão sendo contaminadas por agrotóxicos, denunciam pesquisadores

A anta (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre da América do Sul e sua presença é essencial para a formação e a manutenção da biodiversidade dos habitats em que vive. Chamadas carinhosamente de jardineiras das florestas por cientistas e amantes da espécie, devido à sua capacidade de dispersar sementes por longas extensões, as antas estão em risco de extinção no Brasil.

Nos quatro biomas em que ocorre – Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e, mais recentemente, na Amazônia – vive ameaças diárias provocadas pela perda e fragmentação de seu habitat, pelo fogo, com os atropelamentos diários em rodovias (principalmente no Mato Grosso do Sul), pela caça ilegal, e, agora, também com o uso de agrotóxicos nas fazendas próximas de seus habitats, que contaminam águas, solo, ar, plantas…

Estudo realizado por cientistas da INCAB-IPÊ (Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, do Instituto de Pesquisas Ecológicas) revela que as antas do Cerrado do Mato Grosso do Sul estão sendo contaminadas com altas quantidades de pesticidas diversos e perigosos, além de metais pesados.

Não é pra menos! Como temos divulgado aqui, no Conexão Planeta, o Brasil vem batendo recordes na liberação e no uso indiscriminado e sem fiscalização de agrotóxicos, principalmente desde o governo Temer. E essa situação que tem piorado consideravelmente com Bolsonaro e sua ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que atendem ao lobby de ruralistas (ela é também) e empresas do setor.

Entre esses venenos estão alguns proibidos em países da União Europeia por causarem danos graves à saúde humana. E, agora, como denunciam pesquisadores da INCAB-IPÊ também em artigo científico publicado na revista Wildlife Research -, atingem animais selvagens.

‘Chumbinho’ – proibido no Brasil – está entre as substâncias detectadas!

Uma das principais conclusões do estudo da INCAB-IPÊ foi a “detecção da alta prevalência de aldicarbe no conteúdo estomacal dos animais analisados”.

Esse pesticida é popularmente conhecido como ‘chumbinho’ e, devido ao seu alto potencial toxicológico, foi banido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), em novembro de 2012, para qualquer finalidade. Então, por que e como continua sendo usado?

O aldicarbe é citado como causa de envenenamento de animais silvestres em todo o mundo. De todas as antas avaliadas pela INCAB, 41% estavam contaminadas, ou seja, testaram positivo para este ou mais produtos químicos.

Com mais um detalhe: algumas das concentrações de pesticidas relatadas no estudo excedem os limites de segurança ambiental. Patrícia Medici – uma das maiores especialistas em antas no mundo, premiadíssima (veja nos links no final deste post), que é coordenadora da iniciativa e uma das autoras do artigo – alerta para os riscos graves desta contaminação.

A pesquisadora Patrícia Médici em foto de Marina Klink, em tempos menos sombrios para a conservação

“Esse é um estudo de longo prazo e conseguimos apontar, agora, com ampla certeza, quais agrotóxicos estão afetando a saúde das antas“, explica a pesquisadora.

“Embora pouco se saiba sobre o impacto da exposição crônica a estas substâncias ao longo de meses ou anos, já sabemos que o índice de pesticidas encontrado nos tecidos, outros órgãos e sangue dos animais é muito superior ao limite permitido de ingestão. E isso pode desencadear processos fisiológicos com implicações importantes para a saúde dos animais afetados, particularmente nas respostas endócrinas, neurológicas e reprodutivas“, alerta.

Solo, água e plantas: tudo contaminado

A identificação dos agrotóxicos nas amostras colhidas pelos pesquisadores confirma que as antas que vivem no Cerrado, no Mato Grosso do Sul, estão expostas a essas substâncias em seu habitat, por contato direto com as plantas, solo e água contaminados.

O resultado da análise do conteúdo encontrado no estômago desses animais indica que eles ingeriram não só plantas nativas contaminadas, como também “itens das culturas agrícolas eventualmente utilizados como recurso alimentar”.

Não se sabe qual a fonte do aldicarbe, mas “a ausência de evidência visual de sua ingestão” sugere que a exposição não está ocorrendo por meio de iscas envenenadas (muitas vezes utilizadas) e, sim, possivelmente, “após a aplicação deste veneno em campos agrícolas por pulverização aérea, que é a forma de aplicação de agrotóxicos mais utilizada no estado”.

“Isso tudo é assustador e prejudicial e não sabemos ainda os efeitos colaterais para esses bichos. É como se as antas se alimentassem de veneno um pouco a cada dia, alimentando uma bomba-relógio em seu próprio corpo. Essa falta de conhecimento sobre a saúde da anta é um grande obstáculo para um planejamento adequado para ações de conservação”, destaca Patrícia.

Pulverização aérea e inseticidas

Antas do Cerrado, no Mato Grosso do Sul, estão sendo contaminadas por agrotóxicos, denunciam pesquisadores
Foto: Pixabay/Domínio público

De acordo com estudos divulgados pela Universidade de São Paulo (USP), a cultura que mais utiliza a pulverização aérea como forma de aplicação de agrotóxicos é a de cana-de-açúcar.

A região avaliada pelos pesquisadores da INCAB-IPÊ apresenta um recorte de paisagem de aproximadamente 2.200 Km² com plantios de cana-de-açúcar, nos municípios de Nova Andradina e Nova Alvorada do Sul.

Outra informação importante: as substâncias mais aplicadas com a pulverização aérea são os inseticidas.

Além do aldicarbe, foram encontrados organofosforadosdiazinon, malathion e mevinphos – nas patas das antas. Essas substâncias podem afetar sua saúde e sobrevivência pois as torna mais vulneráveis a infecções e doenças.

Agrotóxicos, na lista de grandes inimigos da espécie

Uma das principais preocupações reveladas pelos pesquisadores da INCAB-IPE, em seu estudo é a sobrevivência da anta no bioma, em médio prazo.

Já não bastava enfrentar duras ameaças com a perda de habitat e os atropelamentos nas rodovias que cortam as áreas florestais, e a caça ilegal, como comentei acima? A área onde vivem, no Cerrado, é extremamente impactada pela ação humana e pela agricultura e, agora, os agrotóxicos se somam à lista de grandes inimigos da espécie.

“Já está claro que a agricultura em grande escala no Cerrado brasileiro está resultando em pesticidas e exposição a metais em concentrações que excedem a segurança ambiental e pode causar efeitos adversos à saúde das antas e, talvez, de outros animais”, destaca Patrícia.

“Precisamos olhar com mais seriedade para essa questão que afeta os animais silvestres e as vidas humanas. É inadmissível a utilização de agrotóxicos sem critérios e sem fiscalização“, sentencia a pesquisadora.

O trabalho precioso da equipe da INCAB-IPÊ

A INCAB, iniciativa do IPÊ liderada pela conservacionista Patrícia Médici, foi criada para lutar contra as ameaças a que a antas são submetidas diariamente por meio de pesquisa, educação ambiental, divulgação, capacitação de profissionais e do desenvolvimento e implantação de planos de conservação para a espécie e seus habitats nos quatro biomas onde a espécie ainda ocorre: Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado e Amazônia.

“O estudo da saúde da anta tem sido um componente de longo prazo da INCAB. O ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade forneceu as licenças anuais necessárias para coleta de amostras biológicas. Todos os nossos protocolos de manipulação e amostragem de antas foram revisados e aprovados pelos Conselheiros Veterinários da Associação de Zoológicos e Aquários (AZA), pelo Tapir Taxon Advisory Group (TAG) e pelo Veterinary Comitê do IUCN SSC Tapir Specialist Group (TSG)”, destaca sua assessoria.

A iniciativa recebe apoio institucional de organizações como Grupo IUCN, SSC, Tapir Specialist, Associação de Zoos e Aquários, Tapir Taxon Advisory Group, Associação Europeia de Zoológicos e Aquários e Tapir Taxon Advisory Group. E tem sido financiada por várias agências nacionais e internacionais, incluindo mais de 50 instituições zoológicas, 20 ONGs e fundações, 11 empresas e também particulares.

Os principais apoiadores do Programa no Cerrado são a Fondation Segre, o Houston Zoo e a Whitley Fund for Nature. Enquanto que os estudos de saúde da anta no Cerrado são financiados por Chicago Zoological Society, Cleveland Zoo, Conservation, Food and Health Foundation, Idea Wild e Roger Williams Park Zoo.

As análises toxicológicas da pesquisa divulgada aqui foram realizadas pelo Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), do Instituto de Biociências, do Campus da Universidade Estadual Paulista (UNESP) Botucatu, SP.

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Foto (destaque): INCAB-IPE/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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