Cores da natureza: beleza extraída de sementes, frutas, folhas, pedras e terra

Nosso mundo é cheio de cores. A medida que os seres vivos foram se transformando e ocupando a superfície da Terra, desde o início da vida, as formas e as cores foram ficando cada vez mais diversificadas. Em qualquer ambiente natural, hoje podemos encontrar as mais variadas cores numa riqueza sem fim. No processo de evolução das espécies a capacidade dos animais de perceber as cores foi também se diversificando nas diferentes espécies. Quando os seres humanos emergiram, há cerca de 200 mil anos, sua capacidade de distinguir as infinitas cores do mundo já era imensa, dada a complexidade de seu sistema nervoso e da acuidade de seu aparelho visual.

A conquista da postura ereta, ou seja, a capacidade de caminhar sobre dois pés, associada ao fato do cérebro ter ficado maior e mais complexo, permitiram que as mãos ficassem liberadas e pudessem manipular e inventar objetos, grandes ou pequenos. Olhando para atrás sabemos quantos mundos já criamos! Criamos formas, novas estruturas e mecanismos, criamos até substâncias novas a partir da combinação das substâncias existentes, mas não criamos cores novas. Tudo o que fazemos é inspirado e depende das bases naturais originais. Em alguma rocha, em alguma pena de pássaro, em algum reflexo na água as cores mais exóticas já existiram.

Quando os seres humanos – que costumamos chamar de primitivos – pintavam sobre as paredes das cavernas, o que queriam representar? Que tipo de tinta inventaram para que elas ficassem gravadas nas paredes até hoje? Qual terá sido o percurso dessas cores até chegar nas paredes? Podemos imaginar as brincadeiras e explorações que faziam para conhecer o seu entorno. E, desde então, como terá sido o processo de produção dos mais variados tons de cores ao longo do desenvolvimento da humanidade? Possivelmente o faziam da mesma forma que um bebê descobre suas primeiras marcas, inicialmente produzidas através de um reflexo de seu movimento e mais tarde de maneira intencional.

Certa vez, estávamos (nós, Rita e Ana Carol) conversando sentadas sob um pé de urucum. Enquanto a conversa acontecia, os participantes de uma de nossas atividades pesquisaram como a cor do fruto por fora se relacionava com as cores de dentro. Usamos nossos próprios corpos como suporte para as primeiras experiências e, depois, experimentamos também sobre outras superfícies. A cor viva da semente de urucum tingiu nossos corpos registrando nossas marcas e as marcas da natureza. As cores surgiram em nossos corpos num misto de brincadeira e de exploração do meio. Foi essa situação que nos fez refletir sobre nossos antepassados e nos perguntar sobre as formas com que usamos as cores da natureza hoje.

Existem muitas maneiras de extrair cores. Utilizar tintas naturais é bastante comum quando estamos trabalhando com crianças pequenas. Esta opção é feita por educadores da primeira infância, principalmente para os pequenos que tendem a colocar tudo na boca. Conversamos com Diana Tubenchlak, arte-educadora, responsável por duas iniciativas muito bacanas: a NoColo, com atividades para bebês e famílias interagirem com arte no Instituto Tomie Ohtake, e a Embalada, que oferece atividades de arte com bebês em diferentes locais pelo Brasil.

A experiência de Diana com arte para bebês é bastante grande, e em muitos desses momentos ela prepara tintas com elementos naturais. Já ouvimos muitos educadores nomearem as tintas feitas com legumes, frutas e outros alimentos de tintas comestíveis. Como a proposta do trabalho não é comer a arte e, sim, que o bebê pinte e deixe suas marcas, Diana prefere usar o nome tintas artesanais. Elas são feitas em casa, de maneira integralmente artesanal. Assim, caso as crianças coloquem a tinta na boca não haverá problemas, pois todos os ingredientes utilizados podem ser ingeridos.

Para os bebês, a receita já chega pronta para a brincadeira. E é nesse contato que surgem as primeiras marcas sobre si mesmo e sobre o mundo. Quando a brincadeira acontece com as crianças maiores, elas podem participar do preparo. Elas podem experimentar diferentes tipos de misturas, testar novas cores e texturas. As cores podem vir de sementes, frutas, folhas, pedras, terras. Vale explorar cada elemento para ver como sua cor pode ser extraída e como ela se transforma.

Mas para quem organiza, esse momento de preparação é essencial. É onde acontecem as transformações físicas e também quando se coloca o carinho e a energia boa para que depois as crianças brinquem com as cores e se encantem com a beleza do mundo natural.

Foto: Ana Carol Thomé

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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