Tá frio? Não importa! As crianças podem (e devem) brincar ao ar livre: veja como

Tá frio? Não importa! As crianças podem (e devem) brincar ao ar livre: veja como

Os dias estão ficando cada vez mais frios no sul e sudeste do Brasil, e ainda estamos no outono. Mas, mesmo com as baixas temperaturas, é possível e necessário que as crianças brinquem ao ar livre e com a natureza. “Mas, Ana Carol, não vou pegar gripe ou resfriado?”.

Gripes e resfriados são doenças causadas por vírus, que têm alta taxa de transmissão em lugares fechados e de aglomeração. E estar ao ar livre e em áreas naturais é ótimo para desenvolvimento da nossa imunidade.

Brincar no frio é possível e vamos fazê-lo com responsabilidade!

Tá frio? Não importa! As crianças podem (e devem) brincar ao ar livre: veja como

Existe um ditado escandinavo que diz “Não existe tempo ruim, existe roupa inadequada”. Em países como Noruega, Suécia e Dinamarca, as temperaturas são negativas em grande parte do inverno e o hábito de estar ao ar livre faz parte da cultura local.

Estar com a roupa certa garante boas experiências em qualquer situação. Esta é a principal orientação.

Mas afinal, o que é a roupa adequada?

O que gera calor no nosso corpo é o movimento. E as crianças precisam se movimentar muito, diariamente. Faz parte das diretrizes da Organização Mundial da Saúde, que indica atividade física para a primeira infância, ao menos 3 horas de brincadeira livre diariamente, e, para crianças acima de 3 anos, pelo menos 60 minutos de movimento intenso.

Quer melhor lugar para isso acontecer do que em parques ou praças? Por isso, a roupa deve permitir que a criança experimente os movimentos do seu corpo, explore velocidade, flexibilidade e força.

Tá frio? Não importa! As crianças podem (e devem) brincar ao ar livre: veja como
Foto: John Millar / NationalTrust

A roupa não pode impedir que a brincadeira aconteça. Para dias frios, a vestimenta ideal é a roupa térmica, que mantém por mais tempo o calor gerado pelo corpo.

Vestir-se em camadas é um hábito brasileiro, portanto, somos quase experts nessa prática. Mas existem outros fatores importantes a serem observados: coloque primeiro camadas mais leves e adicione as camadas mais quentes para manter o corpo aquecido. Finalize com acessórios de proteção ao vento e umidade: luvas, gorro, cachecol.

Desta forma, é possível regular a temperatura conforme o corpo esquenta ou esfria. Aprender a perceber as necessidades do próprio corpo, quando tirar ou adicionar camadas é uma importante aprendizagem a ser alcançada pelas crianças.

E se estiver muito frio? Eis algumas dicas práticas

Departamentos de saúde de países com baixas temperaturas disponibilizam muitos documentos com orientações para famílias e escolas sobre o brincar no frio.

Usar a roupa certa é sempre a orientação mais frequente, com reforço para o uso de luvas, gorro, cachecol, e vestir-se em camadas, como comentei acima.

Tá frio? Não importa! As crianças podem (e devem) brincar ao ar livre: veja como
Foto: Wakita/Divulgacao

Quanto mais baixa a temperatura, mais orientações para garantir a qualidade da experiência e os benefícios para a criança.

Abaixo de um grau negativo, por exemplo, recomenda-se que, a cada 40 minutos, sejam feitas pausas em locais fechados para que a criança se aqueça.

É claro que estamos no Brasil, onde as temperaturas são bem distintas em todo o território, bem como a percepção e a sensibilidade de quem habita cada lugar.

O frio por aqui não chega perto do de outros países. Mas, compartilhar as experiências de lugares onde o frio é extremo não tem o intuito de copiar procedimentos e, sim, de trazer experiências comprovadas para se viver melhor em dias muito frios.

Resumindo: as temperaturas estão mais baixas que nos outros dias? É possível brincar lá fora com roupas adequadas, diminuindo o tempo, fazendo pausas, alternando períodos de brincadeira em áreas externas e internas, ou seja, criando e adotando oportunidades para se movimentar.

Estar ao ar livre e com a natureza garante o desenvolvimento integral e saudável das crianças, além de ser excelente para o desenvolvimento da criatividade.

Outras orientações

O importante é criar o hábito de brincar todos os dias ao ar livre e com a natureza. Pode dar preguiça e “aquele” desânimo de sair de casa, mas querer estar ‘do lado de fora’ logo se torna hábito, e aí não dá mais pra ficar sem.

Foto: Ana Carol Thomé

As orientações a seguir se somam às anteriores e podem contribuir muito para a permanência das crianças ao ar livre, com saúde e bem-estar, e a tranqüilidade de mamães, papais e professores/as:

  • Beba água: hidratar-se ajuda na regulação da temperatura corporal;
  • Independente da temperatura no ambiente, atente-se às crianças e possíveis sinais de desconforto térmico: gestos, falas e outras expressões. Cada uma tem uma resposta à temperatura e garantir seu bem-estar é sempre prioridade;
  • Atenção ao vento: em caso de ventania, preste atenção principalmente se estiver em áreas com muitas árvores, pois há alto risco de queda de galhos e acidentes.
  • Ventou? Aproveite para encontrar boas áreas para brincar com móbiles, pipas e birutas, que farão as crianças se movimentarem, além de trazer uma alegria imensa para o tempo de brincadeira ao ar livre.

Privilégio de poucos

Infelizmente, a desigualdade no Brasil tem aumentado a cada dia. E brincar no frio, ao sol, ter a roupa certa e acesso a áreas naturais tornou-se, ainda mais, um privilégio de poucos.

É urgente que os governos e a sociedade lutem para garantir o direito de toda criança brincar e se desenvolver, também na estação mais fria.

Participar de campanhas de doação de roupas não resolve o problema, mas é uma atitude emergencial que ajuda a atender quem passa frio neste momento. Só em São Paulo são aproximadamente 32 mil pessoas em situação de rua e esse contingente só cresce.

Cuidado, bem-estar e desenvolvimento integral são direitos de todo ser humano e precisam fazer parte da pauta de qualquer programa de governo.

Por isso, já que este é um ano de eleições, avalie bem os planos dos candidatos de sua região ao governo estadual, à Camara dos Deputados e à presidência do país.

Tenha certeza de que eles querem, de fato, garantir uma vida mais justa e saudável para todos os brasileiros, em especial as crianças e os que estão em situação vulnerável, morando nas ruas e passando fome.

O país não pode errar mais ao escolher seu líder. O voto é um direito, faça bom uso dele.

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Edição: Mônica Nunes

Foto: Erik Odiin/Unsplash

Ana Carol Thomé

É pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural (que dá nome a este blog), do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

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