
Parece que não há um momento em que se possa respirar com alívio atualmente. Pandemia, milhares de mortes, aumento do desmatamento, desmonte ambiental, crises políticas… E o cenário, infelizmente, continua sombrio. Dados recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que o número de queimadas na Amazônia, entre 1o e 21 de junho de 2020, é o maior dos últimos dez anos para esse período: foram detectados 1.469 focos.
Segundo o Inpe, esse número é 30% mais alto do que no mesmo período de 2019, quando foram observados 1.125 focos. A taxa atual é 50% acima da média dos dez anos anteriores (2010 a 2019), em torno de 980.
“Os dados mostram um pouco da expectativa para esse ano. Há alguns fatores que fazem esses números serem preocupantes, como o desmatamento, que continua subindo – lembrando que o desmatamento é combustível para queimadas”, destaca Edegar Oliveira – diretor de conservação e restauração do WWF-Brasil.
O estado do Mato Grosso concentrou 60% a dos registros realizados nos 21 primeiros dias de junho: 915.
Junho é quando começa o período de seca na Amazônia, quando há redução de chuvas na região, e então começa-se a chamada “temporada do fogo”.
Como mostramos nesta outra matéria, da Coalizão Ciência e Sociedade, é preciso ressaltar a diferença entre queimada e incêndio.
Em geral, as queimadas são associadas a práticas agrícolas e podem ter ligação ou não com desmatamentos. O fogo é uma ferramenta de baixa tecnologia que muitos produtores utilizam para a limpeza de pastos e remoção de resíduos de cultivos como forma de preparo da terra para o plantio. Queimadas fazem parte do repertório de manejo da terra dos agricultores tradicionais que praticam o corte-e-queima como técnica ancestral para a subsistência da família. Essa prática é aceitável perante a lei, se feita dentro das normas, e supõe a volta da floresta após o cultivo.
A questão-chave é quando as queimadas escapam ao controle, e o fogo atinge áreas de vegetação nativa causando incêndios. Além disso, existem também as queimadas associadas aos desmatamentos, realizadas para eliminar as árvores que foram derrubadas e permanecem secando no chão, com o objetivo de mudar o uso do solo para agricultura ou pecuária.
Aumento também do desmatamento
Na semana passada noticiamos no Conexão Planeta que o último monitoramento do Imazon apontou que a Amazônia perdeu 649 km2 de floresta nativa em maio: a segunda maior taxa de desmatamento registrada nesse mês desde 2011 (leia mais aqui).
O aumento das queimadas na região amazônica não é sinônimo apenas de maior destruição da floresta, mas também um impacto sobre a saúde das comunidades e povos indígenas que vivem lá. A fumaça agrava problemas respiratórios, um fator preocupante, ainda mais em tempos de pandemia de COVID-19.
Em 2019, quando a Amazônia sofreu com incêndios gravíssimos, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz constatou que o número de crianças internadas dobrou no início do período das queimadas.
“A sobreposição da curva da queimada com o Covid pode sobrecarregar ainda mais o sistema público de saúde local”, alerta Oliveira.
Vale lembrar ainda que, esse salto no registro dos focos de queimada acontece mesmo com a presença das Forças Armadas na área, com a Operação Verde Brasil, que foi prorrogada pelo presidente Jair Bolsonaro até 11 de julho.
“Os dados do desmatamento mostram que a ação governamental não está sendo suficiente para controlar as ilegalidades na região e isso pode resultar em mais focos de incêndios em uma área maior”, diz o diretor de conservação do WWF-Brasil.
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Foto: Agência Pará/Fotos Públicas