A petulância dos representantes e aliados do governo Bolsonaro é enorme. E o mais recente exemplo disso é a presença de Marcelo Xavier, presidente da Funai, na 15ª Assembleia Geral promovida pelo FILAC, o Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e Caribe, que está acontecendo esta semana em Madri, na sede do Ministério das Relações Exteriores da Espanha.
A presença de Xavier numa reunião internacional realizada para tratar da situação dos povos indígenas pelo mundo pode ser traduzida como escárnio. O que fazia ele lá? O que teria a dizer sobre a política antiindígena adotada pelo governo de Bolsonaro desde 2019?
Um grupo de pessoas questionou sua audácia e, indignado, Ricardo Rao, ex-funcionário da Funai, levantou-se e o denunciou para a plateia, destacando que ele “não é de digno de estar entre vocês” e que “o Itamaraty é uma vergonha!” por levá-lo à reunião. “O Itamaraty está sendo babá de miliciano!”.
O indigenista prosseguiu com as acusações, cada vez mais contundentes: “Este homem é um assassino! Este homem é responsável pela morte de Bruno Pereira! Este homem é responsável pela morte de Dom Phillips! Miliciano!”.
Ele se referia ao indigenista licenciado da Funai e ao jornalista inglês assassinados no Vale do Javari, Amazonas, em 5 de junho, quando se dirigiam a Atalaia do Norte com o intuito de entregar dossiê para a Polícia Federal, que continha informações sobre a rede de narcotraficantes e pescadores ilegais que atuam na região, seus algozes.
Durante o discurso de Rao no FILAC, um funcionário do Itamaraty se dirigiu a Xavier que, em seguida, se levantou e saiu. Enquanto o presidente da Funai se dirigia para a saída, o indigenista gritava: “Você é um miliciano, Xavier! Bandido! Vai embora, mesmo! Vá pra fora!”.
Não havia clima para sua permanência diante das acusações e, de acordo com o jornalista Jamil Chade (em sua coluna no UOL), o indigenista deixou a sala em seguida (assista ao vídeo no final deste post).
Exílio em 2019, para não morrer
Enquanto as buscas pelo indigenista Bruno Pereira e pelo jornalista Dom Phillips eram realizadas, outro ex-funcionário da Funai ganhou destaque na imprensa (como na agência Amazônia Real) ao contar sobre as ameaças que vinha sofrendo e o levaram a se exilar para não ser morto.
Era Ricardo Henrique Rao, que trabalhava no órgão desde 2010, mas fugiu do Brasil em 28 de novembro de 2019. Ele foi morar na Noruega, pedindo asilo em Oslo. Um ano depois foi exonerado (retroativamente) por Marcelo Xavier, num ‘processo sórdido’ que transformou o indigenista em devedor da Funai.
Rao era agente do órgão no Maranhão e estava cansado de viver com medo: recebia ameaças de morte constantes – ‘com direito’ a arma apontada para sua cabeça por um investigador carioca – e via companheiros sendo assassinados.
A gota d’água pra ele foi o assassinato do líder indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava o grupo Guardiões da Floresta no Maranhão, e foi morto numa emboscada (seus assassinos serão julgados por júri popular).
Como Bruno, Rao foi perseguido por fazer seu trabalho, ou seja, fiscalizar e proteger povos indígenas de invasores. Mas a situação piorou muito com o governo Bolsonaro: além de criminosos ambientais, o servidor também começou a enfrentar a milícia, como também processos administrativos que “se transformaram em instrumentos para silenciar e constranger os funcionários considerados indesejados”, disse à Chade.
Ele pediu asilo em Oslo logo depois de protocolar um dossiê na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, no qual denunciava milicias, madeireiras e traficantes no Maranhão.
À Amazônia Real, Rao disse que evitou fazer a denúncia à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal porque ‘vazariam na mesma hora e não ia dar tempo de correr”. Mas seu empenho foi em vão: a comissão ignorou o documento.
Rao recebeu status provisório de asilo e viveu na casa de pastores luteranos numa comunidade na cidade portuária de Kristiansand, por cerca de dois anos. Como tem nacionalidade italiana, em abril mudou-se para Roma, onde vive em uma ocupação na zona central e se mantém com o dinheiro que sua mãe lhe envia todo mês.
De acordo com a agência Amazônia Real, ele integra de um grupo de ativistas que “pretende apresentar denúncia na Justiça Penal italiana contra Bolsonaro, em nome dos cidadãos italianos que viviam no Brasil e morreram de covid-19, devido à atuação do governo na pandemia. O objetivo é tornar Bolsonaro réu em uma corte internacional. Estão fazendo levantamento das vítimas italianas para entrar com a ação – estimam que algumas dezenas de italianos morreram no Brasil durante a pandemia devido a atos diretos do governo, e têm até setembro para finalizar seu relatório”.
Ao mesmo tempo, Rao escreve um livro.
O desejo de voltar ao Brasil
O indigenista declarou à Jamil Chade que “a milícia controla hoje a Funai, por isso, sempre recebemos ameaças. Bruno recebeu, eu recebi e até minha mãe recebeu. Agora, a diferença é que as ameaças se cumprem. Quem faz a ameaça acha que pode matar. Afinal, o Bolsonaro falou, não é?”.
E lembrou que o discurso de ódio se materializou com a morte de indígenas antes mesmo de Bolsonaro assumir a presidência, apenas com base na possibilidade de sua vitória.
Mas Rao revelou também que, um dia, quer voltar ao Brasil: “Não sei como. Eu tentei fazer barulho antes. Bruno ficou e morreu”.
Depois das eleições de 2 de outubro, com a vitória de Lula – a única possível contra a barbárie do governo Bolsonaro –, quero crer que seu desejo pode se transformar em realidade em menos tempo do que eu ou ele imaginamos.
Agora, assista ao vídeo em que Ricardo Rao acusa Marcelo Xavier de miliciano e indigno de participar do encontro em Madri, pelo post que ele publicou em seu Twitter:
URGENTE! Marcelo Xavier, presidente miliciano da FUNAI, é expulso de um evento da ONU em Madri! Compartilhem! pic.twitter.com/zf537y5Ohh
— RICARDO RAO (@RICARDORAO7) July 21, 2022
Fontes: Jamil Chade e Amazônia Real