O brasileiro Carlos Nobre é nomeado membro da Royal Society, uma das academias de ciências mais antigas do mundo

O brasileiro Carlos Nobre é nomeado membro da Royal Society, uma das academias de ciências mais antigas do mundo

climatologista Carlos Nobre agora é membro da Royal Society, com sede em Londres, uma das mais antigas academias de ciências do mundo, fundada em 1660.

Ele ingressa como Membro Estrangeiro e é o primeiro brasileiro convidado pela instituição desde o ingresso de Dom Pedro 2º, em 1871, que recebeu a honraria por integrar a realeza europeia.

Nobre é mundialmente reconhecido devido a seus estudos sobre o aquecimento global, que incluem mais de 40 anos dedicados à Amazônia.

Com base nessas pesquisas ele declarou que o avanço rápido do desmatamento estava levando a floresta amazônica a um ponto de não retorno, sofrendo processo de savanização, que já se apresenta em alguns trechos intensamente devastados. 

À Folha de SP, ele disse que, caso esse ponto seja atingido, será muito difícil o Brasil cumprir as metas climáticas do Acordo de Paris, e esta é mais uma questão que “atrai a atenção internacional”.

Para o cientista, o título é um reconhecimento internacional por sua longa trajetória dedicada à floresta e ao clima, sinalizando a importância da Amazônia e também da ciência. Mas também uma grande preocupação em salvar a maior floresta tropical do planeta.

“É como um alerta aos riscos que a Amazônia vem correndo e aos riscos das mudanças climáticas para o Brasil”, disse ao site da USP- Universidade de São Paulo, onde atua. “É um risco enorme perdermos a maior biodiversidade e a maior floresta tropical do planeta”, destacou à agência Reuters. 

Sobre a ciência, acredita que a honraria também pode ser um alerta do olhar do mundo para a pesquisa no Brasil, visto que, desde 2019 principalmente, ela tem sido desmantelada. 

“Não que estejamos vencendo esta guerra; está muito difícil. Mas é papel da ciência expor todos os riscos que corremos com o desaparecimento das florestas, dos biomas brasileiros, com o aumento dos extremos climáticos e das queimadas. Tudo isso temos alertado, por décadas”, destacou à USP.

Mais de 60 cientistas agraciados

Junto com Carlos Nobre, foram nomeados outros 9 membros estrangeiros e mais 51 bolsistas, além de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS – Organização Mundial da Saúde, como bolsista horonário

Todos foram escolhidos por suas contribuições notáveis à ciência na área de pesquisa, como também na indústria, na política e no ensino superior.

“Ao longo de suas carreiras até agora, esses pesquisadores ajudaram a aprofundar nossa compreensão sobre doenças humanas, perda de biodiversidade e as origens do Universo”, declarou Adrian Smith, presidente da Royal Society, em comunicado.

“Também estou satisfeito em ver tantos novos bolsistas trabalhando em áreas que provavelmente terão um impacto transformador em nossa sociedade ao longo deste século, desde novos materiais e tecnologias de energia até biologia sintética e inteligência artificial. Estou ansioso para ver as grandes coisas que eles alcançarão nos próximos anos”.

Atuação e prêmio

Carlos Nobre é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1974, e doutor em meteorologia pelo MIT – Massachussets Institute of Technology, desde 1983, quando tornou-se pesquisador do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, intensificando seus estudos sobre a Amazônia.

Foi pesquisador do Inpa – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e diretor do Cemaden – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.

É coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, pesquisador colaborador do IEA – Instituto de Estudos Avançados da USP e senior fellow do WRI – World Resources Institute.

Também atua como diretor científico do Instituto de Estudos Climáticos da Universidade Federal do Espírito Santo e como diretor da Amazon Third Way Initiative/Projeto Amazônia 4.0, que foi tema de documentário premiado em festival europeu em 2021. 

Em 2021, Carlos Nobre recebeu o Prêmio de Diplomacia Científica da Associação Americana para o Avanço da Ciência (American Association for the Advancement of Science – AAAS), como contei aqui.

Concedida desde 2013, a premiação reconhece indivíduos ou pequenos grupos que atuem em comunidades da ciência ou relações exteriores, contribuindo de maneira notável para o campo da diplomacia científica.

No mesmo ano, o físico e professor Ricardo Galvão – exonerado por Bolsonaro em agosto de 2019 quando era diretor do Inpe – recebeu o Prêmio de Liberdade e Responsabilidade Científica que, desde 1980, cientistas que “lutam pela liberdade científica e/ou responsabilidade em circunstâncias particularmente desafiadoras, às vezes pondo em risco sua segurança profissional ou física. Leia também:

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Foto (destaque): Divulgação Volvo Environmental Prize 2016

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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