Desmatamento da Mata Atlântica aumenta em dez estados: só em SP e ES cresce 400%, revela estudo

A Mata Atlântica que ainda resta (12,4%), se distribui por mais de 1,3 milhão de km2, percorrendo 15% do território nacional ou 17 estados. De 2019 a 2020, em dez deles – Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo -, o desmatamento correu solto e cresceu.

No Rio de Janeiro e em Mato Grosso do Sul, dobrou. Em São Paulo e no Espírito Santo, o aumento ultrapassou 400%! O total foi de mais de 13 mil hectares ou 130 quilômetros quadrados.

Estes são alguns dos dados do Atlas da Mata Atlântica estudo realizado desde 1989 pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Inpe, Instituto de Pesquisas Espaciais, lançado ontem como um alerta sobre a vulnerabilidade do bioma celebrado hoje, 27 de maio.

Alguma surpresa? Levando em conta as decisões das administrações públicas – tanto federal, como estaduais e municipais, especialmente no último ano – nenhuma!

Veja: em dezembro de 2019, presidente do Ibama liberou desmatamento em área de Mata Atlântica, contrariando parecer técnico, para beneficiar hidrelétrica e, em abril de 2020, para agradar ruralistas, Ricardo Salles mudou regras de anistia a multas por desmatamento ilegal na Mata Altântica.

Vale destacar que os dois estão sendo investigados pela Polícia Federal do Amazonas, por orientação do STF porque há suspeita de que estejam envolvidos em contrabando de madeira ilegal da Amazônia. Eduardo Bim, do Ibama, está afastado do cargo (por que Salles, não?).

Por outro lado, considerando o resultado do mesmo Atlas nos dois últimos anos – em 2019, Mata Atlântica registra menor índice de desmatamento em mais de 30 anos e, em 2018, Mata Atlântica: desmatamento é o menor registrado desde 1985 – o cenário atual é muito preocupante.

Profundos impactos

Em um ano, a Mata Atlântica perdeu 13.053 hectares (130 quilômetros quadrados) de vegetação. Este total é 9% menor que o registrado em 2018/2019 (14.375 hectares) e representa crescimento de 14% em relação aos anos de 2017/2018 (11.399 hectares), quando foi identificado o menor desmatamento da série histórica.

“Mesmo que tenhamos uma diminuição de 9% do desmatamento em relação a 2018/2019, ali o aumento havia sido de 30%, então não podemos falar em tendência de queda”, destaca Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica.

“Além disso, no que se refere à Mata Atlântica, 13 mil hectares é muito, porque se trata de uma área onde qualquer perda impacta imensamente a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, como regulação do clima e disponibilidade e qualidade da água”, acrescenta. 

Os estados vilões

Minas Gerais, Bahia e Paraná seguem dominando o ranking dos maiores desmatadores, mesmo com pequenas reduções em seus índices: Minas Gerais passou de 4.972 para 4.701 hectares, Bahia foi de 3.532 para 3.230 hectares e Paraná, caiu de 2.767 para 2.151 hectares.

Em maio deste ano, por exemplo, noticiamos que a Justica do Paraná investigava mineradora que havia desmatado 7 hectares de Mata Atlântica dentro de uma unidade de conservação.

Somando estes índices aos dos estados de Santa Catarina (4º) e do Mato Grosso do Sul (5º), representam 91% da perda de vegetação do bioma no período estudado.

“Mesmo que tenhamos uma diminuição de 9% do desmatamento em relação a 2018-2019, ali o aumento havia sido de 30%, então não podemos falar em tendência de queda”, explica Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica.

“Além disso, no que se refere à Mata Atlântica, 13 mil hectares é muito, porque se trata de uma área onde qualquer perda impacta imensamente a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, como regulação do clima e disponibilidade e qualidade da água”. 

Desmatamento zero: antes e agora

A grande questão para o especialista é que alguns estados que estiveram muito próximos de zerar o desmatamento nos dois estudos anteriores – com menos de 100 hectares devastados –, agora registraram aumentos importantes, como foram os casos de São Paulo e Espírito Santo: mais de 400%!

De 2017 a 2019, nove estados apareciam na condição de desmatamento zero ou próximos dessa condição, entre eles, SP e ES. Mas, agora, oito dos 17 estados são classificados assim: Alagoas, Ceará, Goiás, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte.

Piauí e a Lei da Mata Atlântica

Serra da Capivara – Foto: Higor Zupo/Pixabay

Nos estados onde a devastação foi maior, o grande causador foi a produção agrícola. Já em SP e ES, a maior pressão acontece nas áreas metropolitanas e no litoral e é provocada pela especulação imobiliária e pelo turismo (nada sustentável).

Para Luís Fernando, isso ocorre devido à falta de fiscalização. Simples assim. Não é por falta de uma boa legislação.

“Os governos precisam fazer valer a Lei da Mata Atlântica, que não permite a conversão de áreas florestais avançadas, e garantir o desmatamento ilegal zero por meio do combate às derrubadas não autorizadas”, destaca o especialista da SOS Mata Atlântica

O Piauí é um ótimo exemplo de como o respeito e a aplicação a essa lei (comentada, aqui, pela organização SOS Mata Atlântica) podem render bons frutos. Entre 2017/2018, o estado aparecia em 4º lugar no ranking do desmatamento, com 2.100 hectares. No período seguinte, registrou queda na devastação, passando para 1.558 hectares.

Agora, apenas 372 hectares desse estado nordestino foram destruídos. E essa queda drástica, de 76%, registrada de 2017 pra cá, deve ser celebrada!!

Década da Restauração dos Ecossistemas e a Mata Atlântica

O limite mínimo aceitável para a conservação de um bioma é de 30%. Mas, como citei no início deste texto, a Mata Atlântica não tem nem metade disso. São apenas 12,4% neste cenário: suas florestas estão muito fragmentadas e 80% delas fica em propriedades privadas.

Devido à “riqueza de sua rica biodiversidade e de seu potencial no combate às mudanças climáticas“, especialistas consideram a Mata Atlântica como uma das prioridades mundiais para a restauração florestal.

Mais do que isso, sua proteção e seu reflorestamento são fundamentais para a garantia de serviços ecossistêmicos em uma região que abriga 70% da população brasileira e responde por 80% da economia nacional.

Estamos caminhando na contramão desse diagnóstico. E, devido ao aumento das ameaças a este bioma tão vulnerável, a urgência da adoção de ações não só de preservação como também de restauração florestal, torna-se prioridade nas agendas ambiental e climática. Ainda mais nesta Década da Restauração dos Ecossistemas (2021 a 2030), declarada pela ONU em março de 2019.

O objetivo da Década é ajudar a restaurar 350 milhões de hectares de ecossistemas degradados até 2030, como indica o Desafio de Bonn.

Segundo a ONU, até 2019, 57 países, governos subnacionais e organizações privadas haviam se comprometido a executar 170 milhões de hectares de restauração. Se essa meta for cumprida, pode gerar US$ 9 trilhões em serviços ambientais e retirar de 13 a 26 bilhões de toneladas de gases do efeito estufa da atmosfera.

A meta do Brasil é de recompor e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas e restaurar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, a partir da ampliação de cinco milhões de hectares de sistemas de integração de lavoura, pecuária e floresta. Um plano para a Mata Atlântica pode muito colaborar para o cumprimento dessa meta.

“A restauração de ecossistemas é uma solução baseada na natureza para alcançarmos o cenário de redução de 1,5°C de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris. As maiores e mais baratas contribuições que o Brasil pode dar ao combate das mudanças climáticas são as soluções baseadas na natureza”, aponta Luís Fernando, da SOS Mata Atlântica.

“O caso da Mata Atlântica tem tudo para se tornar uma referência para a proteção e a recuperação de florestas tropicais e hotspots ameaçados. Sua restauração geraria benefícios não só para a população e a economia nacionais, mas também para o planeta e a humanidade como um todo”.

Para Malu Ribeiro, diretora de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, os estados que compõem o bioma precisam compreender a Década da Restauração como uma oportunidade para regenerar e recuperar a floresta. Estamos atrasados!

“Deveríamos estar comemorando a renovação, porém ainda estamos falando sobre como conter o desmatamento, que não para de crescer. A sociedade e os gestores precisam encarar essa como uma agenda estratégica para o Brasil principalmente em relação às emergências climáticas”, alerta a especialista.

Como consultar o Atlas

O Atlas da Mata Atlântica 2019/2020 está disponível neste link e também no aplicativo Aqui tem Mata, que apresenta mapas interativos e gráficos com informações atualizadas sobre desmatamento e o estado de conservação de florestas, mangues e restingas nos 3.429 municípios que compõem a Mata Atlântica.

Abaixo, veja a comparação do desmatamento registrado nos períodos 2019/2020 e 2018/2019.

UFÁrea UFUF na Lei MA% UF na LMAMata 2020% matadec mata 19-20variação do anteriordec mata 18-19
AL2.783.0661.523.38255%142.7469,40%7             
BA56.476.04617.988.59132%1.991.64411,10%3.230-9%3.532
CE14.889.445866.8406%63.4897,30%4265%25
ES4.607.4454.606.378100%482.26010,50%75462%13
GO34.024.2821.190.8944%31.1772,60%761%5
MG58.651.39427.621.83947%2.814.99810,20%4.701-3%4.852
MS35.714.7086.386.44018%688.02110,80%851127%375
PB5.646.724599.37011%54.5719,10%  85
PE9.806.7881.689.57817%192.30911,40%38-52%79
PI25.175.5492.661.85211%899.64333,80%372-76%1.558
PR19.929.89819.635.64299%2.314.95411,80%2.151-22%2.767
RJ4.375.0424.375.042100%819.86818,70%91106%44
RN5.280.960350.8397%12.1363,50%14               
RS26.863.78513.845.17652%1.083.2347,80%25273%146
SC9.573.0699.572.179100%2.183.86222,80%88725%710
SE2.193.8191.021.62247%69.1006,80%117-16%139
SP24.821.94817.071.79169%2.341.61813,70%218402%43
TOTAL 340.813.966131.007.45638%16.185.63212,40%13.053-9%14.375

Leia também:
– https://conexaoplaneta.com.br/blog/ate-quando-manteremos-nossos-dividas-historicas-e-impagaveis-com-a-mata-atlantica/
– https://conexaoplaneta.com.br/blog/icmbio-destroi-sinalizacao-do-caminho-da-mata-atlantica-no-parque-nacional-da-tijuca-rj/

Foto (destaque): Lilo Clareto/ISA

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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