Como perceber a natureza que somos?

Em reflexões sobre as questões relativas à criança e natureza, sempre nos perguntamos sobre como expressar para os nossos leitores o sentimento profundo de identidade e pertencimento tanto no mundo natural quanto no mundo social, aos quais estamos inevitavelmente ligadas.

E há uma história que gostamos muito de contar em nossos encontros nos parques e que pode nos ajudar a ilustrar o que queremos dizer. Ela veio de uma experiência recente que uma de nós – a Rita – teve durante uma visita ao Jardim Botânico de Londres, o Kew Garden. Ela conta:

“Era começo da primavera, ainda estava muito frio, mas as flores se abriam com uma intensidade incrível. Em todo o Jardim, as plantas que produzem flores das mais variadas regiões do globo estavam florindo, oferecendo um espetáculo de uma beleza indescritível com muitas cores, texturas, aromas.

Num maravilhamento absoluto, aos poucos fui sentindo quase um excesso, devido à enorme concentração de flores. Ao refletir sobre isso, percebi que não estava acostumada a ver e sentir tantas flores de uma vez. Fiquei imaginando que, devido ao fato do inverno no hemisfério norte ser tão severo e sem cores, eles plantam muitas espécies com flor para equilibrar, na primavera. Aqui, em São Paulo, onde moro, tem flor o ano inteiro. As árvores utilizadas na arborização urbana e as plantas menores nas praças e jardins se revezam e nos trazem alegria e cor durante o ano todo.

Continuando meu passeio, avistei estufas e entrei na de plantas tropicais. Qual não foi minha surpresa e intensa emoção quando fechei a porta e senti aquele calor úmido, plantas verdes, algumas poucas flores, alguns pássaros. De repente, percebi que estava chorando, pois uma emoção muito forte tomou conta de mim. Meu corpo inteiro parecia estar em festa! Fiquei ali curtindo aquela sensação de identidade e pertencimento. Apesar de nosso planeta ser um lugar único e eu me sentir parte de toda a comunidade terrestre, meu coração é tropical. Aqui nasci, cresci, desenhei meu traçado no mundo a maior parte do tempo e, espero, estar por aqui quando chegar a hora de me despedir”.

Com certeza, essa sensação aconteceu com a Rita porque ela viveu muitas experiências do lado de fora, ao ar livre, desde criança. É crescendo junto da natureza que nossos vínculos se estreitam e a sensação de pertencimento se torna encarnada. Estar com a natureza não é um evento especial e atípico, mas algo que faz parte da rotina de cada um e da sua essência.

Crianças crescendo dentro de salas sem janelas, em frente a telas, com ar-condicionado… Que relação de pertencimento podem desenvolver com o mundo? Como podem falar do seu lugar, das suas histórias, das suas cores, dos seus cheiros, da sua temperatura se não vivem isso?

É crescendo num relacionamento direto e sensível com a natureza, conhecendo o nosso mundo como ele é que vamos poder ter uma relação de intimidade e de reciprocidade com ela.

Imagem: Will Cornfield /Unsplash

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

4 comentários em “Como perceber a natureza que somos?

  • 28 de setembro de 2020 em 8:28 PM
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    Infelizmente as crianças de hoje, na maioria das vezes não dispõe dessa oportunidade de conectar-se com o ar puro,o cheiro da mata , das flores, os sons emitidos por diversos animais, o som da água trilhando os rios e refrescando seu entorno .
    Lamentável, que estão perdendo essa essência, lembro-me de tantas vezes que estive em conexão com a natureza, e isso me deixa triste, pois cada vez mais podemos perceber o distanciamento e a afastamento dessa geração com algo tão precioso que é sentir e valorizar o meio ambiente.

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  • 29 de setembro de 2020 em 8:47 PM
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    Como percebo, através desse texto que pertenço a uma geração que andava com os pés no chão, que olhava ao redor e ao derredor, que brincava com a natureza se escondendo nela, subindo nas árvores e embalando no sono a dormideira no simples tocar. Percebia o caminho da formiga e sentia cheiros das plantas, da chuva e rolava na lama e na grama.
    Hoje vejo uma geração em meios as cores das telas que lhe mostram paisagens incríveis, mas não exalam o cheiro das flores, o morder da formiga e nem o descansar embaixo da sombra da mangueira sentindo gosto do fruto..
    É hilário saber que a geração da era do conhecimento tem tão pouca praticidade e contato com a essência criada que une macro e micro, o olhar o céu repleto de estrelas e repousar os olhos no verde de uma planta a vencer o concreto.
    Precisamos resgatar e aproximar nossas crianças do mundo real, do meio em que eles vivem. Para que eles possam dizer:: EU PERTENÇO.

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  • 1 de outubro de 2020 em 11:06 AM
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    Durante a leitura do texto, veio-me à memória as minhas experiências mais significativas com a natureza, época em que passava minhas férias escolares na área rural, na casa dos meus avós. Era incrível esse contato, essa ligação, essa conexão com a natureza, nós nos divertíamos tanto quanto se estivéssemos em casa com nossos brinquedos, a visão daquele verde intenso e imenso, o cheiro das plantas e das árvores, o barulho da brisa e dos animais nos dava a sensação de liberdade, de felicidade. É incrível o “poder” da natureza de (re)inventar a vida! Infelizmente as crianças de hoje estão trocando o real pelo virtual.

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  • 4 de outubro de 2020 em 7:23 PM
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    A natureza sempre foi para mim um refúgio, para aonde vou sempre que preciso refletir, retomar minha paz interior e/ou tomara decisões. Me sinto privilegiada por ter nascido e vivido os primeiros anos de minha existência numa cidade pequena que tinha muita mata e serra no seu entorno, na minha casa também sempre houve quintal e uma horta e minha mãe conversava com as plantas. Cresci presenciando isso e passando férias n o sítio da minha tia Maria, ali gostava de correr pelo pasto, observava as estrelas, brincava com os vagalumes e nadava num riacho próximo, mas gostava mesmo era de ficar em cima do pessegueiro, subia no pé e observava os passarinhos. Ir para o sítio era o momento mais esperado do ano, meu tio me ensinava sobre as plantações, ali não tinha energia elétrica e dormíamos cedo , mas o dia era uma festa de cores e vida.

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