Após 20 anos sofrendo maus-tratos, Chicó poderá passar o resto de sua vida sendo bem-cuidada, com respeito e no meio de outros animais de sua espécie. Apesar de não poder ser solta na natureza, pois a macaco-aranha-de-testa-branca viveu em cativeiro as últimas duas décadas, enfim, terá paz. Seu caso ganhou as manchetes nacionais quando, em março, ela foi resgatada de uma propriedade rural em Sorriso, a 423 km de Cuiabá, no Mato Grosso. A polícia chegou até o local depois de denúncias que relataram os abusos.
O proprietário, que responderá pelo crime de maus-tratos a animais, teria postado vídeos nas redes sociais fazendo com que Chicó fumasse e ingerisse bebida alcoólica. Além disso, ela vivia acorrentada.
Durante quatro meses, a macaco-aranha-de-testa-branca esteve no hospital veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Sinop, onde foi treinada para desenvolver novamente alguns instintos naturais, como pular e usar as mãos para comer, já que como ela vivia no chão o tempo inteiro, se comportava praticamente como um cachorro.
Também chamada de macaco-aranha, coatá-da-testa-branca, cuamba (Pará) ou guatá (Mato Grosso), a espécie está na lista de primatas ameaçados de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio).
Em julho, finalmente Chicó ganhou um novo lar. Ela foi levada para o Parque Zoobotânico Vale, em Parauapebas, no Pará. Depois de passar por um período de quarentena, agora divide um ambiente grande, com outros três indivíduos da mesma espécie.
“Apesar de ter chegado saudável, ela tinha um vínculo muito forte com humanos, muito dependente das pessoas e sempre que alguém se aproximava, ela pedia afago e carinho, e apresentava algumas dificuldades de locomoção. Agora ela já iniciou escaladas nos poleiros do recinto e está usando seus longos membros e sua calda preênsil para se mover”, revela o veterinário Nereston Camargo.
O macaco-aranha-de-testa-branca está na lista de espécies em risco de extinção
Já o biólogo Tarcísio Rodrigues ressalta que Chicó recebeu uma “segunda chance”. “Criar animais silvestres sem autorização é crime! A Chicó é uma espécie de primata, endêmica da Amazônia, que está ameaçada de extinção. Ficou tanto tempo sob cuidados humanos que não há mais condição para ser reintegrada na natureza. Nesse sentido, o zoológico se torna a segunda chance para ela”, diz.
O macaco-aranha-de-testa-branca (Ateles marginatus) possui o pelo do corpo todo preto e apenas a fronte da cabeça com uma mancha branca, com listras da mesma cor dos lados da face. Pode medir entre 34 a 50 cm e pesar até 6 kg. Em cativeiro, vive cerca de 30 anos.
A maioria dos animais do Parque Zoobotânico Vale chegou ali através de órgãos ambientais, como Ibama, ICMBio e Secretarias de Meio Ambiente. Eles são oriundos de apreensões ou entrega voluntária de criações ilegais. Também são originários de permuta com outros zoológicos do país ou nasceram em cativeiro no próprio parque. A instituição faz parte ainda do Programa Nacional de Conservação da Espécie sob Cuidados Humanos, juntamente com a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB), ICMBio e Ministério do Meio Ambiente.
O novo lar de Chicó: ela terá bastante espaço e companhia
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Fotos: divulgação
Cada animal inocente que se liberta, somos nós que nos libertarmos com ele e sua felicidade conquistada é a nossa conquista. A corrente do Bem, formada, foi capaz de vencer mais essa, graças a Deus.