Vítimas do tráfico, saguis do Cerrado e da Caatinga podem levar macacos da Mata Atlântica à extinção

Por Sibélia Zanon*

Um dos efeitos mais devastadores do tráfico ilegal de animais silvestres no Brasil é a multiplicação de saguis nas grandes cidades. Isso ocorreu com duas espécies em particular: o sagui-de-tufo-preto (Callithrix penicillata), nativo do Cerrado e também conhecido como mico-estrela, e o sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), com origem no Nordeste brasileiro.

Ambos foram traficados em grande número nas décadas de 1980 e 90, culminando com sua introdução na Mata Atlântica do Sudeste.

“Atualmente esses dois animais são comuns no Sudeste. O aporte na natureza, vindo do tráfico, pode até ser menor, mas com a soltura que ocorreu no passado eles se reproduziram numa quantidade absurda”, explica Fabiano Melo, professor do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais.

Inicialmente adquiridos como animais de estimação, os saguis acabaram sendo abandonados em massa pela população nas matas próximas aos grandes centros urbanos, onde se multiplicaram. O problema é que, quando os pequenos primatas foram introduzidos no Sudeste, já havia duas espécies endêmicas de saguis na região. Atualmente, ambas constam na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

O sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), nativo de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro está “em perigo” e o sagui-da-serra (Callithrix flaviceps), que ocorre numa área pequena de Minas Gerais e Espírito Santo, está “criticamente em perigo”.

Dificilmente encontrado na natureza, o sagui-da-serra-escuro deveria ser preponderante no Sudeste, mas, em vez disso, ele integra a lista dos 25 primatas mais ameaçados de extinção do mundo.

Na mesma lista estão outros dois primatas brasileiros, o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), sagui endêmico da Amazônia, e uma subespécie do bugio-ruivo (Alouatta guariba guariba), nativo da Mata Atlântica no Brasil e Argentina.

Sauim de Coleira – Foto: Zoológico de Brasília/Toninho Tavares,
Agência Brasília, FotosPúblicas

Mistura genética

Não é novidade que as espécies invasoras proliferaram no Sudeste, interferindo no equilíbrio do bioma e ameaçando os saguis nativos, mas estudo liderado pela cientista Joanna Malukiewicz indica que o problema pode ser ainda mais grave.

“Uma das maiores revelações da pesquisa foi mostrar que, por meio do cruzamento, o material genético das espécies exóticas teve entrada na genética das espécies nativas”, diz a bióloga. Ou seja, quando as espécies nativas cruzam com as invasoras, elas geram filhotes híbridos e férteis, que continuam proliferando naturalmente. “Essas espécies todas acabam cruzando e no Sudeste estamos com uma mistura de populações de saguis exóticos, nativos e híbridos”, acrescenta Joanna.

Durante cinco anos, a bióloga e sua equipe reuniram e analisaram 49 amostras de animais e, com base no DNA mitocondrial, detectaram a presença de três espécies de saguis exóticos e quatro espécies de híbridos entre os saguis nativos do Sudeste. O aspecto preocupante revelado pela pesquisa foi que saguis com aparência igual ao sagui-da-serra-escuro não eram puros e tinham material genético da espécie invasora.

Fabiano Melo, também coordenador do Centro de Conservação dos Saguis-da-Serra da UFV, diz que a pesquisa mostrou ser tarefa árdua encontrar animais de genética pura. “Estamos com menos indivíduos nativos na natureza do que imaginávamos. Precisaríamos pegar os animais e fazer análise de DNA para separar os indivíduos puros dos híbridos”.

Entre os saguis analisados na pesquisa, estavam saguis-da-serra-escuro criados em cativeiro no Zoológico Municipal de Guarulhos. Os resultados comprovaram que eles têm a genética realmente pura. Isso significa que haveria indivíduos nativos para uma eventual reintrodução no bioma. “Para reintroduzir espécies raras de saguis à natureza é muito importante conferir que os animais são de fato puros e não híbridos”, afirma Joanna.

Distribuição aproximada das espécies de sagui do gênero Callithrix no Brasil e origens geográficas das amostras que serviram à pesquisa, conforme indicado por símbolos de letras maiúsculas. No mapa, estão ainda indicados os biomas onde as diferentes espécies de Callithrix ocorrem naturalmente (Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica). Por Joanna Malukiewicz 

Além de sofrerem com a fragmentação florestal, o tráfico e a hibridação, os primatas foram acometidos recentemente pelos surtos de febre amarela e zika vírus.

O bugio foi a espécie mais afetada pela febre amarela, mas saguis também morreram durante o surto. Publicações registraram muitas mortes de saguis híbridos, o que poderia apontar para o fato de que os híbridos seriam mais suscetíveis à febre amarela. Contudo, espécies híbridas são mais comuns do que as puras nas áreas urbanas atingidas pelos surtos.

“Faltam informações sobre a suscetibilidade dos primatas brasileiros à febre amarela, zika e outros vírus, mas estudos biomédicos mostram que saguis sofrem de alguns sintomas desses vírus de forma parecida com casos humanos”, diz Joanna, que desenvolve no momento um estudo para entender a vulnerabilidade genética dos primatas a essas doenças.

No Brasil, há seis espécies de saguis do gênero Callithrix com distribuição distinta e natural. Cada espécie tem aparência diversa e vocaliza de forma diferente. Esses aspectos consistem num mecanismo natural de isolamento reprodutivo, chamado pré-zigótico. Porém, o mecanismo é frágil e, ao conviverem no mesmo território, as espécies acabam cruzando e, com o tempo, passam a reproduzir apenas indivíduos híbridos. “Com isso, percebemos uma deterioração genética das espécies”, explica Fabiano.

Além da ameaça aos saguis nativos, a chegada dos invasores causa outros desequilíbrios. Hábitos alimentares diversos podem alterar a flora, como por exemplo a preferência por determinados frutos, e a dispersão de sementes diferentes. Também a fauna é afetada. “Os saguis invasores são predadores exímios, comem muitos ovos e filhotes de pássaros. As espécies nativas estão sofrendo muito”, afirma Fabiano.

O sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita) é um primata endêmico da Mata Atlântica do Sudeste. Com a perda de habitat e a invasão de saguis do Cerrado, a espécie tornou-se um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo. Foto: Orlando Vital

38 milhões de animais traficados por ano 

A legislação brasileira proíbe o tráfico de animais desde 1967 e a Lei de Crimes Ambientais, de 1998, classifica o tráfico de animais silvestres como crime de menor potencial ofensivo. Por causa do caráter clandestino, é difícil mensurar o tamanho do mercado ilegal de compra e venda de animais.

Calcula-se que, no Brasil, 38 milhões de animais são retirados da natureza por ano, e de cada dez traficados, nove morrem antes mesmo de chegarem ao destino final. Entre as espécies mais apreendidas no Brasil estão as aves. 

Estudo publicado sobre o tráfico na Amazônia entre 2012 e 2019, mostra que o destaque das apreensões da região vai para os peixes e as tartarugas. Os primatas continuam chamando atenção por seu apelo de bicho de estimação, e pela caça para consumo da carne.

Segundo a ONG Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres), a maioria dos espécimes silvestres comercializados ilegalmente é proveniente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Elas são escoados por rodovias federais para as regiões Sul e Sudeste com chegada nos principais pontos de destino: Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, são vendidos ou exportados por meio dos principais portos e aeroportos dessas regiões.

Os saguis nativos do Sudeste continuam restritos à sua região de origem. “Ninguém levou os saguis do Sudeste para os outros biomas, até porque seria difícil eles sobreviverem. Estão adaptados às condições da Mata Atlântica do litoral, mais úmida e com maior disponibilidade de alimentos. Já os saguis invasores se dão bem no Sudeste porque ocorrem no Cerrado e na Caatinga, ambientes bem mais hostis”, explica Fabiano.

Muito carismáticos quando jovens, os saguis atraem as pessoas, que querem ter o bicho como pet. Porém, depois de um tempo, elas reconhecem no animal comportamentos indesejados ou acham que dão trabalho e soltam o sagui na mata mais próxima, de forma inconsequente. Esse comportamento foi se repetindo por décadas e gerou o desequilíbrio atual.

Hoje, os saguis são vistos nos quintais das casas ou caminhando pelos cabos da rede elétrica ou telefônica de bairros urbanos. Constantemente, as pessoas se aproximam e oferecem alimentos, o que é fortemente contraindicado pelos especialistas.

Alimentar os animais pode causar danos intestinais, desequilíbrio hormonal e proteico, danificando a sua saúde. “O contato direto deve ser evitado porque nós somos capazes de transmitir doenças e vírus humano, como o Herpesvírus simplex Tipo 1, que podem matá-los. Por outro lado, há o risco de os saguis transmitirem raiva para o ser humano”, alerta Joanna.

E Fabiano acrescenta: “Se o animal ficar recebendo comida, ele pode se reproduzir com maior velocidade e ocupar ainda mais espaço que seria da espécie nativa”.

Foto (destaque): Leszek Leszczynski / O sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus) é uma espécie nativa do Nordeste, originária de áreas de Cerrado e Caatinga, mas se tornou comum na Mata Atlântica do Sudeste, onde vem se misturando aos saguis nativos

*Este texto foi originalmente publicado no site da agência Mongabay Brasil, em 19/10/2020

Mongabay Brasil

Agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento. Seu objetivo é inspirar, educar e informar

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