Svenja Schulze, ministra de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, está no Brasil para se encontrar com as ministras Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, e Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.
Em entrevista ao jornal Folha de SP na semana passada, antes de seguir à Brasília, ela declarou que a Alemanha está disposta a doar mais de R$ 1,1 bilhão (€ 200 milhões) ao país, para apoiar um “programa imediato” para os cem primeiros dias do governo Lula – “em acordo com o governo”.
O ministério de Schulze é responsável pela doação do país ao Fundo Amazônia – dedicado à conservação das florestas e à mitigação das mudanças climáticas -, mas seu interesse, agora, vai além.
Ela quer ouvir representantes do governo sobre as prioridades de investimentos pra traçar “planos velozes de cooperação” nas áreas social, de florestas e energia. E contribuir para resolver o fosso social, porque temos certeza que a proteção do clima não funciona sem resolver os problemas sociais”.
Schulze também comentou a situação do povo Yanomami e que vai tratar do caso com as ministras Sonia e Marina para buscar formas de cooperar.
No que tange ao Fundo Amazônia, ela destacou a necessidade de reabilitar os recursos de R$ 3,3 bilhões, inutilizados por Bolsonaro. Mas certamente não precisa se preocupar com isso porque o governo Lula já sinalizou aos parceiros desse mecanismo (Alemanha – a maior doadora – e Noruega), que se trata de prioridade e deve ser usado rapidamente em ações de fiscalização ambiental e de combate ao desmatamento na Amazônia.
Logo depois das eleições, a Alemanha anunciou novo contrato de doação para o fundo, no valor de cerca de R$ 194 milhões (€ 35 milhões).
De acordo com a Secom (Secretaria de Comunicação Social do governo), o pacote oferecido pelo país inclui, entre outras iniciativas:
- 35 milhões de euros para investimento imediato no Fundo Amazônia (oferecido logo depois das eleições);
- 31 milhões de euros em apoio aos estados da Amazônia (que vão de encontro às reivindicações dos governadores do Consórcio da Amazônia Legal na COP27, conferência de clima da ONU, no Egito); e
- 80 milhões de euros em empréstimos a juros reduzidos.
Agricultura e hidrogênio verde
Estas são duas outras áreas nas quais o governo alemão pretende atuar. Daí também seu interesse em manter boas (e próximas) relações com o Brasil, “pode ser bem interessante para todos, inclusive para nós, quando o Brasil começar a produzir hidrogênio em grande escala”, destaca Schulze.
A produção de hidrogênio verde (a partir de energias renováveis) faz parte dos planos da indústria brasileira para substituir fontes fósseis de energia. Sua exportação para países europeus também.
A ministra enfatizou a importância do país tornar-se autossuficiente em energia para não ser dependente como a Alemanha. E fez um mea culpa: “Essa é a experiência dolorosa pela qual a Alemanha passa agora, porque estava completamente dependente do gás russo”.
Sua prioridade, agora, é ser independente da Rússia (para não ser chantageado), mesmo que isso signifique aumentar emissões de gases de efeito estufa. “Doeu muito ter que religar as usinas de carvão“, contou. “Eu era ministra [do meio ambiente] quando a lei da proteção do clima foi aprovada, então esse passo agora foi muito custoso”.
E completou: “Apesar disso, queremos eliminar o uso do carvão mais cedo, mais rapidamente”.
Hipocrisia?
Levando em conta a permissão do governo da Alemanha para que a Usina de Garzweiler – em Lützerath – aumente sua extração de linhito, um dos tipos de carvão mineral mais poluentes que há no planeta, é difícil acreditar nessa intenção.
Hoje, Lützerath é apenas o nome do que, no passado, foi um vilarejo numa área rural a pouco mais de seis horas de carro de Berlim. Há dois anos, ativistas acampados tentam impedir que o que resta da cidadezinha seja demolido para que essa, que é uma das maiores minas de carvão a céu aberto da Europa, seja expandida.
Ela transformou-se numa zona de combate entre milhares de manifestantes, representantes de organizações ambientais, polícia e a gigante da área energética RWE.
Em meados de janeiro, milhares de alemães protestaram contra a expansão da usina. A ativista Greta Thunberg uniu-se a eles e acabou presa.
Estima-se que embaixo do solo onde outrora existia o vilarejo estejam 280 milhões de toneladas desse minério. E lá devem ser deixados, Schulze!
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Foto: Adriano Gambarini