26 ararinhas-azuis são enviadas ao maior zoológico do mundo, que está em construção na Índia

26 ararinhas-azuis são enviadas ao maior zoológico do mundo, que está em construção na Índia

*Texto atualizado em 03/11/23 para incluir a nota enviada ao Conexão Planeta pelo Ministério do Meio Ambiente sobre o envio das araras ao zoológico da Índia.

A promessa da Reliance Industries, a maior empresa do setor privado da Índia, é que o Green Zoological, Rescue and Rehabilitation Kingdom, será o maior zoológico do mundo. O empreendimento, atualmente em construção, está localizado em Jamnagar, a 300 km de Ahmedabad, uma das cidades mais populosas do país.

A Reliance Industries está envolvida nas áreas de refino de petróleo, petroquímica, gás, varejo e indústria têxtil. Movimenta algo em torno de US$ 100 bilhões por ano. Seu CEO é o bilionário Mukesh Ambani. Segundo reportagens dos jornais locais, a abertura do zoológico foi uma ideia de seu filho, Anant Ambani, de 28 anos, que seria apaixonado por animais.

Por causa da pandemia, as obras de construção atrasaram, mas há expectativa de que o zoológico seja inaugurado no ano que vem. Todavia, muitos animais já chegaram na região onde ele estará situado, entre eles, 26 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii), espécie endêmica do Brasil, ou seja, que só existe na natureza (ou melhor, existia) em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo.

Vítima do tráfico ilegal de aves e a cobiça de grandes colecionadores europeus, que não economizaram esforços (e muito dinheiro) para poder ter um exemplar da famosa ave brasileira, a ararinha-azul acabou sendo extinta no país.

Todavia, em 2020, 52 ararinhas-azuis foram trazidas de um criadouro da Alemanha para o Brasil para o início de um processo de reintrodução na natureza. O projeto era uma parceria entre o governo brasileiro e a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP)*, de Berlim, e também, a Pairi Daiza Foundation, na Bélgica.

Em 2022 ocorreram as primeiras solturas no Refúgio de Vida Silvestre criado especificamente para a espécie, uma unidade de conservação projetada para as reintroduções, em Curaçá, na Bahia. E no final do ano passado já foram observados alguns indivíduos acasalando.

A informação de que 26 ararinhas-azuis foram enviadas para o futuro zoológico da Índia consta num documento da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), o qual a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) teve acesso.

As aves teriam sido vendidas pela ACTP da Alemanha ao Green Zoological, Rescue and Rehabilitation Kingdom.

“Em fevereiro desse ano, a ACTP transferiu 26 araras-azuis e quatro araras-azuis-de-lear para o zoológico particular do bilionário indiano Mukesh Dhirubhai Ambani, que já declarou estar construindo o maior zoo de espécies raras do mundo. Segundo um documento da CITES, os “significativos valores” envolvidos não configuram “comércio” já que serão aplicados em projetos de conservação. Mas o documento não informa os valores e nem onde e quando esses recursos serão, de fato, aplicados”, denuncia a Renctas.

Ainda de acordo com o documento da Cites, a exportação das ararinhas-azuis foi autorizada pelo governo da Alemanha porque faz parte de um programa de reprodução em cativeiro e também porque existiria uma população em segurança da espécie na Índia.

Um dos trechos do documento da CITES que fala sobre a negociação das ararinhas
(Imagem: divulgação Renctas)

Uma organização indiana entrou com uma ação no país questionando a capacidade científica do novo zoológico em cuidar de tantos animais, mas o processo foi desconsiderado pela justiça. O zoológico parece ter apoio federal. Em julho, o ministro do Meio Ambiente e do Clima, Bhupendra Yadav, visitou as obras do mega-empreendimento.

Quando aberto, o zoológico terá dez “grandes áreas”, entre elas, e a maior, a “ilha exótica”. Informações preliminares da Reliance Industries apontam que serão 1.689 animais pertencentes a 79 espécies. Destas, 27 serão exóticas, como onças-pintadas, capivaras, jacarés caiman – espécies da América do Sul -, além de hipopótamos pigmeus, girafas, zebras, cangurus, rinocerontes brancos e elefantes africanos… E ararinhas-azuis!

A empresa afirma que muitos desses animais foram resgatados em outros países e são reabilitados. Em março desse ano, 250 tigres, leões e leopardos foram levados do México para o Green Zoological Rescue and Rehabilitation Kingdom.

O Conexão Planeta entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ibama, representante da CITES no Brasil, para saber da posição do governo brasileiro sobre a transferência das ararinhas-azuis para a Índia. Em nota, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que o Ibama e ICMBio não foram consultados sobre o envio das araras brasileiras ao zoológico da Índia e que esses órgãos são completamente contra a comercialização das espécies (leia mais aqui).

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*Em 2018, uma denúncia do jornal britânico The Guardian levantou uma série de fatos sobre Martin Guth, proprietário da Association for the Conservation of Threatened Parrots. De acordo com a reportagem, o alemão, que ficou preso durante 5 anos por crimes de extorsão e sequestro, poderia ter envolvimento com tráfico ilegal de aves.

O Conexão Planeta repercutiu a denúncia no Brasil na época e fez várias matérias sobre o assunto. Descobriu que muitos biólogos e criadores no país já tinham ouvido falar sobre a má fama de Guth, mas todos relataram medo em denunciar o criador (leia mais aqui).

Há uma petição internacional, que já tem 54 mil assinaturas, que pede uma investigação ao governo alemão sobre o criador de aves ameaçadas. Mas segundo o Bundesamt für Naturschutz (BfN), Agência Federal para a Conservação da Natureza da Alemanha, não há indícios de ilegalidade no trabalho da associação.

Procurado pelo Conexão Planeta, o ministério do Meio Ambiente, ainda sob a gestão de Edson Duarte e de Ricardo Salles, nunca se posicionou sobre as denúncias.

Em entrevista por e-mail, Martin Guth disse que sua ficha criminal está limpa e prefere não envolver sua vida pessoal com o projeto das ararinhas.

Entretanto, entidades de conservação internacional, como a Rare Species Conservatory Foundation, dos Estados Unidos, alegam falta de evidências e cooperação científica, além de transparência no trabalho da ACTP, principalmente porque não se sabia a origem do dinheiro que o financia.

Foto de abertura: divulgação ACTP / ICMBio

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.