Semanas após soltura, ararinhas-azuis se adaptam bem à nova vida

Semanas após soltura, ararinhas-azuis se adaptam bem à nova vida

“As ararinhas-azuis estão indo bem, saudáveis e explorando incansavelmente seus arredores”. Esta é a mais recente atualização sobre as oito aves que foram soltas, no interior do Refúgio de Vida Silvestre criado especificamente para elas, uma unidade de conservação projetada para as reintroduções, em Curaçá, na Bahia

Depois de 22 anos extinta na natureza, no último dia 11 de junho, a espécie voltou a voar livre pelos céus da Caatinga. Os oito indivíduos foram soltos junto com um grupo de araras maracanãs, que foram capturadas na vida selvagem para servirem de guias para as ararinhas-azuis nesse primeiro momento, já que possuem hábitos de alimentação e vida semelhantes.

Segundo a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), instituição alemã, parceira do governo brasileiro no programa de reintrodução da espécie, as ararinhas-azuis já percebem os chamados de alertas tanto das maracanãs, como também de outros periquitos nativos da região, quando há um perigo potencial. “Assim que a silhueta de um possível predador aparece no céu, os papagaios emitem sons claros. As ararinhas então as interpretam corretamente e voam para longe imediatamente” – aliás, só foram vistos dois abutres nas redondezas, que não são predadores para elas.

Além disso, as maracanãs, que estavam sendo alimentadas dentro do aviário, já estão comendo mais e mais os alimentos naturais, o que estimulará as ararinhas a fazer o mesmo.

Semanas após soltura, ararinhas-azuis se adaptam bem à nova vida

Foram colocadas anilhas e transmissores nos indivíduos soltos, mas até agora, eles têm sempre voltado para perto do recinto onde passaram os últimos meses

De acordo com a bióloga Camile Lugarini, coordenadora do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul, essa primeira soltura é o que se chama de “soft release”, em que ocorre um fornecimento de alimentação suplementar. Uma segunda leva de ararinhas deverá ser solta ainda em 2022. 

As aves que fazem parte do programa de reintrodução nasceram em cativeiro na Europa, no criatório particular da ACTP. Elas chegaram na Bahia em março de 2020, num grupo de 52 indivíduos (leia mais aqui).

Ao longo desses últimos dois anos, eles passaram por um processo de adaptação ao clima e a alimentação da Caatinga. Depois foram transferidas para um enorme recinto ao ar livre, mas ainda fechado, de onde ocorreu a soltura.

Semanas após soltura, ararinhas-azuis se adaptam bem à nova vida

As ararinhas-azuis junto das maracanãs numa árvore

Símbolo da Caatinga

Espécie endêmica do Brasil, ou seja, ela só existe em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) foi vítima do tráfico ilegal de aves e a cobiça de grandes colecionadores europeus. Fascinados pelo sua beleza e azul vibrante, eles não economizaram esforços (e muito dinheiro) para poder ter um exemplar da famosa arara brasileira.

Com isso, a ave acabou sendo extinta no país. O último indivíduo voando livre, na natureza, tinha sido observado por volta do ano 2000.

Ararinha-azul voando livre

Atualmente há no refúgio de vida silvestre em Curaçá 13 casais reprodutivos, dois casais não reprodutivos, 20 ararinhas sendo preparadas para a soltura e três filhotes nascidos já aqui no Brasil, em 2021 (contei sobre o nascimento do primeiro deles nesta outra reportagem). 

Enquanto isso, na sede da ACTP, na Alemanha, existem 157 ararinhas-azuis. Apenas no ano passado, nasceram lá 52 filhotes. A expectativa é que 20 indivíduos sejam trazidos ao Brasil ainda este ano.

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Foto: reprodução Facebook ACTP

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.