Uma padroeira negra e mulher em um país racista e machista


Hoje, 12 de outubro, é o dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Feriado. Mais que nunca, dia de ir à Aparecida do Norte prestar homenagem à santa, ou de viajar para qualquer outro lugar para aproveitar o feriado e descansar a cabeça.

Eu optei pela segunda opção quase a minha vida inteira. Estive uma única vez em Aparecida… e foi, justamente, em um dia 12 de outubro!

Nunca tinha parado para pensar no que significa ter esta santa como padroeira – uma mulher negra – num país racista e machista, até que li recentemente um texto de uma amiga que falava sobre isso.

Sua reflexão era sobre a incoerência do racismo ser proferido também por algumas das pessoas que têm tanta fé e que demonstram tanta devoção por essa santa. Ao mesmo tempo em que pedem graças à Nossa Senhora Aparecida, que rezam para que ela interceda por nós, que acreditam cegamente em seu poder, toleram que tantas outras pessoas negras sejam tratadas de forma racista, fecham os olhos para fatos simples como eles terem salários mais baixos, serem parados pela polícia em batidas de rotina, sofrerem mais as consequências da violência urbana.

Curioso também que nestes 300 anos de sua história (a santa foi encontrada no Rio Paraíba do Sul em 1717) a situação dos negros no Brasil tenha sido tão pouco discutida, que tão pouco tenha sido feito para dar oportunidades iguais a todos os brasileiros.

A indignação da autora do texto, num determinado momento, foi manifestada com a pergunta “Como uma nação tão devota de uma ‘mãe negra’, pode ser tão racista?”

Verdade! E incluo, nesta reflexão, a questão de gênero. Como podemos ser tão devotos desta santa e, ao mesmo tempo, um país com tantas questões a serem discutidas e melhoradas no que diz respeito aos direitos das mulheres? Também, neste caso, o que vemos são salários menores e enormes problemas de violência, inclusive doméstica.

Nunca tinha parado para pensar sobre o que representa para nós, como nação, ter uma padroeira negra! Será que não significa nada? E imagino que muita gente nunca tenha parado para pensar nisso também.

Fiquei triste ao pensar nas incoerências da vida, mas tenho sempre esperança de que as pessoas, em algum momento, reflitam sobre isto e encontrem maneiras de minimizar os efeitos desses dois grandes e graves problemas sociais.

Que tal começar agora?

Desde 2014, se dedica à pesquisa e ao registro fotográfico das festas populares por todo o país. E, assim, viaja de norte a sul para conhecer e gravar em imagens o mundo mágico das celebrações, que explodem em cores, simbolismos, histórias e fantasias. Aqui, conta sobre as festas e histórias inusitadas vividas em suas andanças. No site Festas Brasileiras, reúne toda beleza e riqueza desse trabalho

Andrea Goldschmidt

Desde 2014, se dedica à pesquisa e ao registro fotográfico das festas populares por todo o país. E, assim, viaja de norte a sul para conhecer e gravar em imagens o mundo mágico das celebrações, que explodem em cores, simbolismos, histórias e fantasias. Aqui, conta sobre as festas e histórias inusitadas vividas em suas andanças. No site Festas Brasileiras, reúne toda beleza e riqueza desse trabalho

Um comentário em “Uma padroeira negra e mulher em um país racista e machista

  • 13 de outubro de 2017 em 10:55 PM
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    No dia do Juízo Final Deus irá perguntar se é branco ou negro??? Fim ao racismo, discriminação, preconceito, intolerância, e com urgência, fim desta tal “arte contemporânea” que parece ter como objetivo ridicularizar questões de religião e não mostrar o belo para ser apreciado e/ou provocar reflexão filosófica ou mesmo artístico-cultural!

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